terça-feira, julho 28

O método de Walter Benjamin na história oral e na organização de acervos de líderes sociais

 

Aplicar o método de Walter Benjamin na história oral e na organização de acervos de líderes sociais

 Por Lúcia Tânia Augusto
Aplicar o método de Walter Benjamin na história oral e na organização de acervos de líderes sociais significa transformar o arquivo de um mero depósito de papéis em um instrumento de disputa política e de justiça histórica. Para entender essa aplicação na prática, podemos dividi-la em três eixos metodológicos[1]:
1. Na História Oral: Escutar os Silêncios e as Ruínas da Memória[2]
Em uma entrevista de história oral[3] tradicional, busca-se uma linha do tempo clara sobre as conquistas do líder ou do movimento social. Escovar a história a contrapelo[4] exige olhar para as fraturas dessa narrativa[5].
  • O método na entrevista: O entrevistador não busca apenas os momentos de vitória ou as grandes decisões institucionais. Ele foca nos momentos de crise, nos recuos, nos traumas, no medo e nas derrotas.
  • Exemplo prático: Ao entrevistar uma liderança sobre uma greve histórica ou ocupação de terras, o foco benjaminiano se desloca da mesa de negociação oficial para o cotidiano invisível. Investiga-se: Quem garantiu a alimentação da base? Como as mulheres do movimento lidaram com a violência policial nos bastidores? Quais desejos e utopias[6] da comunidade foram sufocados pelo próprio acordo final?
  • A escuta: O historiador escuta a contrapelo quando dá peso às hesitações, aos esquecimentos e às contradições do relato do líder, entendendo que o trauma e o silenciamento são marcas da violência do Estado ou das classes dominantes.
2. Nas Narrativas: Desmontar o "Cortejo Triunfal"[7] Institucional[8]
Construir uma narrativa histórica a contrapelo exige romper com o modelo biográfico tradicional do "herói perfeito"[9] e iluminar o tecido coletivo e as contradições.
  • O método na escrita: Rejeita-se a ideia de que a história das lutas sociais é uma marcha inevitável de progresso e conquistas garantidas. Cada direito conquistado é narrado não como uma concessão do Estado, mas como uma trégua temporária em uma guerra contínua.
  • Exemplo prático: Na biografia de uma liderança negra ou indígena, a narrativa tradicional tese que o líder "venceu" porque ocupou um espaço institucional (como um cargo político). A narrativa a contrapelo mostra o custo humano, a solidão e o racismo estrutural que o líder enfrentou para estar ali. Ela conecta a biografia individual às lutas ancestrais e anônimas do seu povo, demonstrando que aquele líder é o ápice de um acúmulo de forças comunitárias que a história oficial tentou apagar.
3. Na Organização de Acervos[10]: O Arquivo como Campo de Batalha
Os arquivos históricos tradicionais foram desenhados pelo Estado para preservar a memória dos governantes (os "vencedores"). Organizar o acervo de um líder social sob a ótica de Benjamin inverte essa lógica de poder.
  • O método na arquivologia: Todo documento do líder é tratado reconhecendo o que Benjamin chamou de "documento de barbárie"[11]. Cartas, panfletos e diários do líder social ganham valor justamente por expor os mecanismos de opressão e a resistência a eles.
  • Exemplo prático de arranjo[12] e descrição:
    • Critério de relevância: Em vez de priorizar apenas documentos formais (diplomas, atas de reuniões oficiais, fotos com autoridades), o acervo dá destaque igual ou maior aos "documentos efêmeros"[13] — bilhetes manuscritos trocados na clandestinidade, panfletos de tiragem rápida impressos em mimeógrafo, cartazes rasgados de protestos e listas de mantimentos para militantes presos.
    • Indexação política[14]: Na descrição das palavras-chave do acervo, não se usam apenas os termos neutros da burocracia estatal. O vocabulário técnico de indexação incorpora os termos e conceitos criados pelo próprio movimento (ex: "retomada", "aquilombamento", "justiça popular"), impedindo que o Estado colonize a linguagem[15] do acervo.
    • Preservação do conflito: Se o líder social foi monitorado por órgãos de repressão (como a ditadura militar), o acervo não descarta os relatórios da polícia. Ele os justapõe aos diários pessoais do líder, permitindo que o pesquisador veja, lado a lado, a mentira oficial do opressor e a verdade clandestina do oprimido.
Em suma, aplicar Benjamin a esse cenário é garantir que o acervo e as memórias dessas lideranças não virem peças de museu domesticadas[16], mas permaneçam como uma "centelha de esperança"[17] capaz de incendiar e mobilizar as lutas do presente.
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Notas de Rodapé Explicativas
  • [1] Eixos metodológicos: Diretrizes que dividem o campo de estudo em frentes práticas de aplicação (entrevista, escrita e arquivamento).
  • [2] Ruínas da memória: Conceito benjaminiano para os fragmentos, traumas e silêncios deixados pela história oficial que revelam a violência sofrida pelos vencidos.
  • [3] História oral: Método de pesquisa que utiliza entrevistas gravadas com testemunhas vivas para registrar experiências do passado recente sob a ótica dos sujeitos.
  • [4] Escovar a história a contrapelo: Método crítico fundamental de Benjamin (Tese VII) que rejeita a narrativa linear dos vencedores para reinterpretar o passado a partir dos oprimidos.
  • [5] Fraturas da narrativa: Contradições, pausas e lacunas em um relato oral que rompem com a aparência de uma história linear e sem conflitos.
  • [6] Utopias: Projetos e sonhos de transformação radical da sociedade que foram interrompidos ou sufocados pelo poder vigente, mas que permanecem latentes.
  • [7] Cortejo triunfal: Metáfora de Benjamin para a marcha dos vencedores ao longo da história, onde os poderosos exibem suas conquistas esmagando os derrotados.
  • [8] Narrativa institucional: História oficial produzida pelo Estado ou órgãos de poder que tende a neutralizar os conflitos históricos e celebrar a ordem vigente.
  • [9] Modelo biográfico tradicional: Estilo de escrita focado na exaltação de um "herói" individualizado, isolando-o de seu contexto e apagando as lutas coletivas.
  • [10] Acervo: Conjunto de documentos, registros, fotografias e objetos de valor histórico pertencentes a uma pessoa, grupo ou instituição.
  • [11] Documento de barbárie: Tradução da máxima de Benjamin: "Nunca há um documento de cultura que não seja, ao mesmo tempo, um documento de barbárie", indicando que toda grande obra carrega a marca da exploração humana.
  • [12] Arranjo: Processo arquivístico de organização física e intelectual dos documentos de um fundo com base em sua origem, estrutura e conteúdo.
  • [13] Documentos efêmeros: Materiais impressos ou manuscritos de uso rápido e temporário (panfletos, bilhetes), essenciais para registrar a história cotidiana das resistências.
  • [14] Indexação política: Atribuição técnica de palavras-chave baseadas no vocabulário e na identidade dos movimentos sociais, recusando a falsa neutralidade burocrática.
  • [15] Colonizar a linguagem: Processo pelo qual as classes dominantes impõem termos neutros e jurídicos para apagar o sentido político e a rebeldia das lutas populares.
  • [16] Peças de museu domesticadas: Documentos históricos que, ao passarem por arquivos tradicionais, perdem seu potencial de contestação e viram meros objetos de contemplação passiva.
  • [17] Centelha de esperança: Conceito benjaminiano para o potencial revolucionário e libertador que permanece vivo no passado, aguardando para ser despertado pelas lutas do presente.
Conceitos Benjaminianos e Filosóficos
  • Escovar a história a contrapelo: Método crítico que rejeita a narrativa dos vencedores. Busca reinterpretar o passado a partir da perspectiva das classes oprimidas.
  • Ruínas da memória: Fragmentos, traumas, esquecimentos e silêncios deixados pela história oficial. Revelam a violência sofrida pelos vencidos.
  • Cortejo triunfal: Expressão que designa a marcha dos vencedores ao longo da história. Nela, os poderosos exibem suas conquistas pisoteando os derrotados.
  • Documento de barbárie: Conceito que demonstra que todo monumento ou registro cultural carrega consigo a marca da exploração e do sofrimento humano.
  • Utopias: Desejos, projetos e sonhos de transformação radical da sociedade que foram interrompidos ou sufocados pelo poder vigente.
  • Centelha de esperança: O potencial revolucionário latente no passado que pode ser despertado no presente para mobilizar novas lutas sociais.
Metodologia de Pesquisa e Análise
  • História oral: Método de pesquisa que utiliza entrevistas gravadas com testemunhas vivas para registrar experiências do passado recente.
  • Eixos metodológicos: Diretrizes estruturadas que dividem o campo de estudo em frentes práticas de aplicação (ex: entrevista, escrita e arquivamento).
  • Fraturas da narrativa: Contradições, pausas, medos e lacunas em um relato. Rompem com a aparência de uma história linear e sem conflitos.
  • Narrativa institucional: História oficial produzida pelo Estado ou por órgãos de poder. Tende a neutralizar conflitos e celebrar a ordem vigente.
  • Modelo biográfico tradicional: Estilo de escrita focado na exaltação de um "herói" individual. Costuma apagar a importância das lutas coletivas.
Prática Arquivística e Documental
  • Acervo: Conjunto de documentos, registros, fotos e objetos de valor histórico pertencentes a uma pessoa ou instituição.
  • Documentos efêmeros: Materiais impressos ou manuscritos produzidos para uso rápido e temporário (ex: panfletos, bilhetes, cartazes de protesto).
  • Arranjo: Organização física e intelectual dos documentos de um arquivo com base em sua origem e conteúdo.
  • Indexação política: Atribuição de palavras-chave baseadas no vocabulário e nos conceitos próprios dos movimentos sociais, recusando termos puramente burocráticos.
  • Colonizar a linguagem: Processo pelo qual o Estado ou as classes dominantes impõem seus próprios termos neutros para apagar o sentido político das lutas populares.
  • Peças de museu domesticadas: Documentos históricos que perderam seu potencial de contestação e foram transformados em meros objetos de contemplação neutra.
1. Obras de Base de Walter Benjamin e Teóricos Clássicos
BENJAMIN, Walter. Sobre o conceito de história. In: BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura (Obras escolhidas v. 1). Tradução de Sérgio Paulo Rouanet. 7. ed. São Paulo: Brasiliense, 1994. p. 222-232. [1]
BENJAMIN, Walter. Passagens. Organização de Willi Bolle. Belo Horizonte: Editora UFMG; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2006.
LÖWY, Michael. Walter Benjamin: aviso de incêndio - uma leitura das teses "Sobre o conceito de história". Tradução de Wanda Nogueira Caldeira Brant. São Paulo: Boitempo, 2005. [1, 2]
POLLAK, Michael. Memória, esquecimento, silêncio. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 2, n. 3, p. 3-15, 1989.
THOMPSON, Paul. A voz do passado: história oral. Tradução de Lólio Lourenço de Oliveira. 3. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002.
2. Artigos e Estudos Aplicados a Movimentos e Lideranças Sociais no Brasil
LÖWY, Michael. “A contrapelo”: a concepção dialética da cultura nas teses de Walter Benjamin. Lutas Sociais, São Paulo, v. 17, n. 25/26, p. 10-18, 2011. Disponível em: https://revistas.pucsp.br/index.php/ls/article/view/18578. Acesso em: 28 jul. 2026. (Aplica o método à luz da história e das lutas sociais da América Latina). [1, 2]
MACHADO, Felipe Augusto. Por uma história local “a contrapelo”. Sertanias: Revista de História de Alagoas, v. 3, n. 5, p. 1-15, 2021. Disponível em: uesb.br. Acesso em: 28 jul. 2026. (Analisa a construção de contranarrativas e memórias horizontais contra memórias oficiais locais).
SANTOS, Alanderson; SILVA, Maria da Conceição. Arquivos de movimentos sociais: modelo de leitura documentária aplicado ao fundo do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). In: Práticas Arquivísticas em Movimentos Sociais e Coletivos Populares. Marília: LAL/Unesp, 2022. p. 85-104. Disponível em: https://ebooks.marilia.unesp.br/. Acesso em: 28 jul. 2026. (Estudo prático sobre indexação, cenário contextual e preservação de acervos sob uma ótica popular).
SILVA, José Maria da. “Escovar a história a contrapelo”: contribuições de Walter Benjamin para uma práxis educativa e historiográfica emancipatória. Trabalho Necessário, Niterói, v. 18, n. 35, p. 280-302, jan./abr. 2020. Disponível em: https://periodicos.uff.br/trabalhonecessario/article/view/40490. Acesso em: 28 jul. 2026. (Debate a valorização das lutas das classes subalternizadas e a oposição à história oficial).
SOUZA, Renan Santos de. Uma janela para a narrativa de Walter Benjamin: reflexões através da metodologia da história oral e do analisar da memória. Fênix: Revista de História e Estudos Culturais, Uberlândia, v. 17, n. 1, p. 112-130, 2020. Disponível em: revistafenix.pro.br. Acesso em: 28 jul. 2026. (Discute como a temporalidade e a experiência das entrevistas orais resgatam a narrativa de tradições comuns).
 

segunda-feira, julho 27

Rosalene: nossa Agente Cultural de Memória (Pesquisa Oral e Salvaguarda) - Educação Inclusiva - Itabira, MG

Resgatando Afetos e Autonomia: O Olhar Feminino na História da Inclusão em Itabira

Toda cidade guarda histórias que não estão nos livros oficiais, mas sim na memória, nas mãos e na voz de quem viveu cada conquista. No que diz respeito às mulheres com deficiência visual, isso confere uma verdade profunda quando  identificamos  as várias camadas de exclusão e apagamento da trajetória de militantes da causa da inclusão buscando espaços de fala e oportunidades de exercerem seus dons, a autonomia e a busca do conhecimento.
 

 Em Itabira, a trajetória da inclusão ganha um novo capítulo registrado por mãos atentas e escuta sensível: a atuação da Agente Cultural de Memória (Pesquisa Oral e Salvaguarda). 
Rosalene aceitou o desafio de entrevistar Cleide Cissa, Cassiana e Thayná pedindo licença para ir em suas casas e abrindo a sua escuta ativa mapeando afetos e processando o registro de um patrimônio imaterial que trata de experiências reais que ficariam invisíveis, não fosse a sua iniciativa de parceria com a Epocriativa. 



Essa função — já reconhecida pelas políticas públicas do Ministério da Cultura (MinC) e do IPHAN, e metodologicamente estruturada para este projeto pela Epocriativa — tem uma missão nobre: escutar, registrar e salvar do esquecimento os relatos afetivos daqueles que construíram e vivenciaram a no seu dia a dia.

Três Mulheres, Uma Jornada de Transformação
O coração dessa pesquisa ganha vida na escuta qualificada das trajetórias de Cleide Cissa, Cassiana e Thayná. Por meio da história oral, a iniciativa destaca o protagonismo e o olhar feminino no processo de inclusão social e acessibilidade no município.

As entrevistas acontecem em paralelo ao Curso de Educação Inclusiva, uma formação estruturada em 4 módulos práticos que exploram formas diversas e sensoriais de narrar a vida:

🏺 Contar histórias com objetos tridimensionais (resgate do tátil e do acervo afetivo);

🎵 Contar histórias cantando (a sonoridade como ponte de memória);

💃 Contar histórias dançando (a expressão corporal e o movimento inclusivo);

⠼ Contar histórias utilizando livros em Braille (a escrita da autonomia e do acesso).

Uma data emblemática: Essa caminhada de formação, escuta e salvaguarda culmina no dia 13 de dezembro de 2026, no Dia Nacional do Deficiente Visual, celebrando a autonomia e a democratização da memória local.

O Papel do Agente Cultural de Memória: Como Funciona na Prática?
Mais do que uma pesquisadora, a Agente Cultural de Memória atua como uma mediadora comunitária. O seu trabalho vai desde o acolhimento humano até a organização técnica do acervo:

Escuta Ética e Afetiva: Articulação e encontros para captação de relatos gravados.

Salvaguarda Digital: Transcrição, catalogação de fotos, documentos e objetos de valor histórico.

Validação Comunitária: Garantia de que a própria comunidade reconheça e aprove como sua história será contada e divulgada publicamente.
 
Por Lúcia Tânia Augusto - Epocriativa 

quarta-feira, julho 22

A vida, a lida, a linha é um fio.

A frase “No sertão de meu Deus, a linha é um fio!”, dita pelo narrador Riobaldo no clássico "Grande Sertão: Veredas", de João Guimarães Rosa, carrega uma das metáforas mais densas e bonitas da literatura brasileira.

Para interpretá-la, é preciso entender que o sertão para Rosa não é apenas um cenário geográfico no interior de Minas Gerais e da Bahia, mas sim uma representação do mundo, do destino humano e do mistério da existência.


A expressão nos diz sobre o seguinte:
 A Fragilidade e a Finitura da Existência: Um "fio" é algo extremamente delgado, estreito, que pode se romper com facilidade. No sertão — e por extensão, na vida —, as certezas são frágeis. A linha que separa o bem do mal, a sanidade da loucura, a vida da morte ou o destino do acaso é tênue. Um pequeno passo em falso, e tudo se rompe.

 A Linha do Horizontes e dos Caminhos: No plano físico, o sertão é imenso, plano e seco, onde o horizonte se desenha muitas vezes como um traço fino que separa a terra do céu. É também o fio dos caminhos, das picadas e das veredas que os vaqueiros, jagunços e viajantes precisam seguir sem errar, sob pena de se perderem na imensidão brava.
 
O Rigor e a Exigência das Escolhas: Viver exige precisão. Assim como costurar com uma linha fina requer atenção para não perder o ponto, as escolhas morais e existenciais no sertão não comportam margens largas de erro. A vida ali não perdoa o excesso ou o desvio; ela cobra caro de quem se perde do prumo.
Em suma, Rosa usa essa metáfora para nos lembrar de como a vida é delicada e precisa. Ela nos diz que, nas grandes travessias da existência, o caminho é estreito, as certezas são frágeis e a nossa coragem precisa ser fincada exatamente naquilo que sustenta esse fio tênue entre o medo e a esperança.

Por Lúcia Tânia Augusto 

terça-feira, julho 21

O canto do altar trípode

O Canto do Altar Trípode (Ding)
No vasto giro do tempo e da ventania,
Surge o "Ding", o sagrado altar que guia.
A imagem da mudança em dança e brilho,
Contrasta o leve e firme em seu trilho.

A Estabilidade e o Vigor
Ergue-se o altar sobre pés de firmeza,
Três fortes pernas que guardam a nobreza.
Contra a tormenta, a instabilidade e o breu,
A ordem firme na terra e no céu.

O Equilíbrio Eterno
Assim, após o momento de mutação,
Repousa a alma em santa contemplação.
No trípode sacro, o tempo faz-se eterno,
Protegendo a vida do caos moderno.

Contagem regressiva: Curso de Educação Inclusiva (Módulo 2) – "Como contar histórias cantando" no dia 22 de agosto de 2026

O fio da voz e o chão da memória: Oralidade, Folclore e Inclusão.

A oralidade e o folclore não são apenas vestígios do passado; são as fundações vivas sobre as quais construímos nossa humanidade e nossa sensibilidade. "Quando tratamos a inclusão como um 'tema menor', estamos medindo o tamanho da nossa própria empatia e revelando o quanto ainda nos falta de civilidade."

Quando pensamos na educação inclusiva, especialmente para pessoas com deficiência visual, essa oralidade ancestral ganha uma urgência poética e transformadora. Para quem navega pelo mundo primariamente através dos sentidos da audição, do tato e da imaginação, a palavra cantada e contada deixa de ser mero entretenimento e se torna um portal de pertencimento e conhecimento. O canto e o folclore oferecem uma arquitetura sonora rica em texturas, timbres e ritmos que estimulam a percepção espacial, a memória afetiva e a autonomia criativa.
Resgatar os cantos de roda, as loas do Congado e os acalantos na sala de aula inclusiva é reconhecer que a inclusão plena se faz quando validamos todas as formas de sentir e habitar o mundo.

 É transformar a contação de histórias em um espaço onde a ausência da visão é preenchida pela imensidão da escuta, onde cada som sagrado e cada retalho de memória cantada afirmam que a arte pertence a todos os corpos, sem exceção.
⏳ O narrador, a experiência e a arte de transmitir o saber.

Nenhuma reflexão sobre a arte de contar histórias estaria completa sem evocar o pensador alemão Walter Benjamin e sua célebre tese sobre "O Narrador". Benjamin nos ensina que a verdadeira contação de histórias não está ligada à mera transmissão de informações abstratas, mas sim à experiência acumulada e partilhada. Para ele, o narrador é aquele que tem "conselho" para dar — conselho não no sentido de uma resposta pronta, mas de uma orientação tecida no tear da vida vivida e transmitida de viva voz.
Na tradição dos mestres e mestras populares, e muito fortemente no universo do Congado, a narrativa é o próprio sangue da comunidade. Benjamin lamentava a perda da "arte de narrar" na modernidade industrial, sufocada pelo excesso de informações rápidas e isoladas. Resgatar a oralidade, o canto e os saberes ancestrais é, portanto, um ato benjaminiano de resgate da experiência coletiva. Na educação inclusiva, quando narramos cantando, abrimos um espaço onde a comunidade se reconhece, onde o passado e o presente se abraçam e onde a experiência do outro é acolhida por quem escuta, criando um elo indestrutível de empatia e humanidade.

 🎶 Cantar, Contar e Catar: Os verbos da memória mineira.

Na nossa tradição, a oralidade é um ato de resistência e afeto. Não por acaso, cantar, contar e catar compartilham a mesma raiz sonora e o mesmo gesto de cuidado:
 1.Cantar é dar fôlego aos sentimentos que a prosa, às vezes, não dá conta de abraçar. É o som que atravessa gerações.
 2. Contar é narrar, é manter o fio da meada, é o ofício de ser ponte entre quem veio antes e quem está chegando.
 3.Catar é selecionar,  é o gesto paciente de quem colhe ouro no cascalho, quem junta retalhos de lembranças, palavras esquecidas e cacos de histórias para formar um tecido novo e inteiro.
Quando juntamos retalhos de vivências, criamos uma colcha de retalhos sonora.

 É assim que a identidade mineira se constrói: na partilha ao redor do fogão a lenha, na praça, na varanda e nos terreiros.
 👑 A força sagrada do Congado dos Reis e Rainhas e a coragem de ser.

Se queremos falar sobre a origem da nossa voz cantada e contada, precisamos reverenciar o Congado. Ele é a matriz viva da nossa expressão cultural e espiritual.
Pensadores e estudiosos da cultura mineira e afro-brasileira — como Conceição Evaristo ao tratar da escrevivência e da memória das mulheres negras, e a teórica e dramaturga Leda Maria Martins ao analisar a oralitura e a cena ritualística — lembram-nos que manter viva a tradição do Congado em Minas Gerais tem exigido historicamente, desde o período da escravização até os dias de hoje, um ato profundo de coragem.
Proteger os tambores, assumir a própria identidade, vestir as coroas e reverenciar os ancestrais em praça pública foi, e muitas vezes ainda é, um ato de enfrentamento contra um mundo que insiste em silenciar as vozes negras e populares. Como diz o verso: "Então cante, mas lembre, para contar, cantar, é preciso calar o medo e ter coragem". 

O Congado é a prova viva de que o povo mineiro encontrou na fé festiva a coragem para transformar o sofrimento em beleza e o cerceamento em liberdade.
Esse reconhecimento institucional e cultural da importância da manifestação ganhou ainda mais força com a oficialização da data magna: o dia 07 de outubro foi instituído como o Dia Estadual do Congado (através da Lei Estadual nº 23.336/2019 em Minas Gerais, consagrando a data em homenagem à festividade e à devoção a Nossa Senhora do Rosário). Essa conquista legal coroa a luta secular dos reinados e reafirma publicamente o valor incalculável dessa herança.

O Reinado nos ensina que a contação de histórias acontece no corpo em movimento, unindo valores de vida, coletividade e ancestralidade.
 🥁 A métrica dos toques, timbres e diálogos com outros ritmos.

A tessitura sonora do Congado é uma verdadeira partitura viva, transmitida de geração em geração pela oralidade. Compreender a métrica e a dinâmica dessa manifestação revela como ela dialoga profundamente com a alma de outros ritmos brasileiros:
 
1. A métrica e o batismo do som: Os toques do Congado não seguem uma métrica mecânica ou rígida, mas sim a pulsação do corpo em cortejo. O batismo dos tambores e dos instrumentos — momento sagrado em que ganham voz e bênção — marca o nascimento de um canal de comunicação entre o plano terreno e o espiritual. O ritmo cadenciado, especialmente nas guardas de Moçambique, dita um caminhar compassado ("caminhar devagar"), onde cada passo é uma prece.

 2. Timbres, Pausas e Diálogos: O som do Congado é construído pelo contraste rico de timbres: o grave profundo das caixas maiores, o estalado seco das dobras e o chocalhar metálico das gungas. As pausas no Congado não são vazios; são momentos de respiro coletivo, escuta e reverência, semelhantes às respirações encontradas nos sambas de roda e nos tambores de crioula.

 3. Diálogos com a Matriz Afro-Brasileira: O Congado dialoga diretamente com o Candombe (considerado o ancestral comum dos reinados mineiros), com o maracatu nordestino e com os jongos espalhado no Brasil. Essa conversa se dá na circularidade da roda, na dinâmica de chamada e resposta entre o capitão e o coro, e na capacidade de transformar o batuque em um arquivo histórico em movimento, tal qual o jazz e outras expressões de resistência atlântica.

 📚 Glossário do Congado: Instrumentos e Elementos Cenográficos
Para compreender o Congado como uma narrativa em constante repetição e reinvenção que fortalece a nossa identidade, é preciso conhecer a linguagem dos seus elementos sagrados:
 -Caixas (ou Dobras): Tambores tradicionais que marcam o pulso rítmico do cortejo. O som da caixa é o batimento cardíaco da comunidade, ditando o ritmo dos passos e unificando o grupo em uma só voz.
 -Gunga / Chocalhos: Instrumentos percussivos presos aos pés dos congadeiros. Cada passo dado é, ao mesmo tempo, um som emitido, transformando o corpo do dançador em um instrumento musical vivo e espantando os maus fluidos do caminho.
 -Coras e Espadas: Elementos cenográficos e simbólicos que representam a realeza ancestral negra. Não se trata de uma imitação do poder europeu, mas da coroação de reis e rainhas pretos, devolvendo-lhes a soberania e a dignidade roubadas pelo sistema escravista.
 -Mastro (com as bandeiras de Nossa Senhora do Rosário, São Benedito e Santa Efigênia): O ponto de referência espiritual e geográfico do terreiro e da festa. O levantamento do mastro abre o tempo sagrado da celebração e protege o território da comunidade.
 -Pontos Cantados: Cantos de louvor, lamento e exaltação que funcionam como verdadeiros arquivos orais da história do povo negro em Minas Gerais, transmitindo saberes de geração em geração.
-Jongo: é uma manifestação cultural e dancística de raiz afro-brasileira, profundamente ligada aos saberes, ritos e crenças dos povos de língua banto (vindos de regiões que hoje correspondem à República Democrática do Congo e a Angola).
Sua origem no Brasil remonta ao século XIX, tendo se consolidado nas fazendas de café e de cana-de-açúcar do Sudeste brasileiro, sobretudo na região do Vale do Rio Paraíba do Sul (que abrange áreas entre o Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais).
Para os africanos escravizados e seus descendentes, o jongo funcionava não apenas como momento de lazer e culto aos ancestrais (os pretos-velhos), mas também como um sofisticado meio de resistência e comunicação sutil. Através de pontos cantados cheios de enigmas, metáforas e adivinhações — que deviam ser decifrados pelos adversários na roda —, eles trocavam informações, combinavam fugas e preservavam sua identidade e dignidade diante da opressão do cativeiro.
O  jongo é mantido vivo em comunidades rurais, quilombolas e periferias urbanas, concentrando-se principalmente na Região Sudeste do país. Os estados com registros oficiais e práticas ativas mapeadas pelo IPHAN são:
 -Rio de Janeiro: Com forte destaque no Vale do Paraíba (como em Valença, Barra do Piraí e Pinheiral) e na capital (com emblemáticos redutos como o Jongo da Serrinha, em Madureira).
 São Paulo: Praticado em municípios como Guaratinguetá, Cunha, Piquete, São Luís do Paraitinga e Lagoinha (além de iniciativas urbanas como o Jongo Dito Ribeiro em Campinas).
 Minas Gerais: Presente em cidades da região sul e de divisa, como Passa Quatro, Carmo da Cachoeira e Alfenas.
 Espírito Santo: Com forte expressão em comunidades do litoral e norte capixaba, a exemplo de Conceição da Barra e São Mateus.

🪞 Pesquisando nossos corpos e seus sonhos
por contar histórias cantando.  O primeiro instrumento que afinamos é o nosso próprio corpo. No Módulo 2, vamos olhar para as nossas camadas internas:
 1.Os sons abafados: Aqueles guardados pelo medo, pela timidez ou pelas violências silenciadas ao longo da história. Dar vazão a esses sons é parte do processo de cura e inclusão.
 2. Os sons sagrados: O murmúrio da prece, o canto de trabalho, o tom grave da terra e o agudo da esperança que habita em cada um de nós.
 3. O "Sim": A afirmação da vida, da arte como direito e da inclusão como horizonte ético. É o som que abre portas para o encontro genuíno com a pessoa com deficiência visual e com qualquer ouvinte que se deixe tocar pela narrativa.


🤱 O berço do som: Os Acalantos
Todo grande contador de histórias foi, um dia, embalado por um acalanto. A primeira música que escutamos na vida traz a promessa de segurança e pertencimento.
Em Minas, os acalantos misturam o ritmo do tear, o balanço da rede e o tom manso das avós e mães pretas que embalaram gerações. Cantar um acalanto em uma história contada é resgatar essa escuta primordial — é lembrar ao outro (e a nos mesmos) que somos acolhidos pelo som.


📖 Referências Bibliográficas e Documentos Legais
 -BENJAMIN, Walter. O Narrador: Considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. In: Magia e Técnica, Arte e Política: Ensaios sobre Literatura e História da Cultura. São Paulo: Brasiliense, 1994.
 -BRASIL / MINAS GERAIS. Lei Estadual nº 23.336, de 11 de julho de 2019. Institui o "Dia Estadual do Congado", comemorado anualmente em 07 de outubro, no Estado de Minas Gerais.
 -CASCUDO, Luiz da Câmara.Dicionário do Folklore Brasileiro.Rio de Janeiro: Ediouro, 2001.
 -EVARISTO, Conceição. "Olhos d'Água". Rio de Janeiro: Pallas Editora / Malê, 2014.
 -MARTINS, Leda Maria. Afetografias da Memória: A Oralitura e a Cena. São Paulo: Perspectiva, 2021.
 -MARTINS, Leda Maria.A cena em sombras. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1995.
 -SUASSUNA, Ariano. Iniciação à Estética. Rio de Janeiro: José Olympio, 2005.

 📅 Serviço
 Data: 22 de agosto de 2026
 Horário:Das 8h às 17h
 Local: Escola Municipal Coronel José Batista
 Facilitadoras: Cleide Cissa, Cassiana, Thayná e Tânia
 Realização: Epocriativa - Escritório de Projetos de Arte e Cultura
 Apoio:Escola Municipal Coronel José Batista e Otimize
 Participação especial: Coletivo Cantos de Congo e Expocriativas
Agradecimento: Débora Tersália, Aparecida Clodoaldo, Rosalene, Marina e Maria de Lourdes

Por Lúcia Tânia Augusto 

quarta-feira, julho 8

BI_A Estética do Invisível: 5 Lições de Contação de Histórias sob a Luz do I Ching​.


Lição 1: O Despertar da Voz Interior
Antes da palavra, existe o vazio. Para que a sua história ganhe o mundo, é preciso primeiro escutar o silêncio que habita em você e superar os medos antigos. A voz não é apenas som; é o eco da sua própria verdade que finalmente decide florescer.

🧘‍♀️
O vento passa,
a garganta se abre:
canta a nascente.

 Lição 2: A Estética das Palavras (O Efeito Pavão)
O hexagrama Bi nos ensina a honrar a beleza. A escolha de cada palavra é como o bordado em um manto sagrado. Não se trata de excesso, mas de precisão estética: escolher o adjetivo que brilha, o substantivo que evoca texturas e cores, revelando a exuberância oculta na simplicidade.

🦚
Gota de orvalho;
o pavão abre o leque,
o sol reflete.

Lição 3: O Ritmo e a Pausa Cósmica
A pacificação alcançada no estágio anterior se traduz em controle do tempo. O bom contador não corre; ele caminha com elegância pelo tabuleiro do tempo. A pausa é o momento onde a imaginação do ouvinte trabalha. É o silêncio grávido de significado.

🍃
Folha que cai,
no espaço entre os galhos:
o mundo para.

Lição 4: A Expressividade Corporal
O corpo é o templo onde a história se materializa. Um gesto sutil com as mãos desenha castelos no ar; o erguer de uma sobrancelha muda o destino de um reino. A beleza da forma exterior (Bi) se manifesta quando o invisível ganha carne e movimento.

🌬
Galho que dança,
sombra desenha na terra
vôo de garça.

Lição 5: A Conexão com o Público
O ápice do desenvolvimento. Não há mais distinção entre quem conta e quem ouve. A "decoração" cumpriu seu papel: atraiu o olhar, tocou o coração e uniu as almas em uma mesma atmosfera pacífica e mágica. O círculo se fecha; a história agora pertence a todos.

🔥
Fogo de lenha,
olhares se cruzam sós:
somos um eco.
 
Por Lúcia Tânia Augusto 

A Corpa que Sente, Liberta e Ensaia: A Contação de Histórias na Educação Inclusiva entre a Tradição do Congado/Griot, Benjamin, Freire e Boal

> *— Ô, viva a Rainha, viva o Rei!*
> *— Ô, viva a Rainha, viva o Rei!*
> *Viva os três Reis do Oriente,*
> *Viva a coroa de El-Rei!*
> *(Canto Tradicional do Congado Mineiro)*
Levar a contação de histórias a sério no ambiente escolar significa despi-la da carcaça do mero entretenimento infantilizado ou da atividade puramente ilustrativa. Quando essa prática cruza os portões da escola e se depara com a realidade de grupos vulnerabilizados — especialmente quando nos voltamos às **pessoas com deficiência visual** —, o ato de narrar se transforma em um território de disputa existencial, política e pedagógica.
Contar histórias na perspectiva da educação inclusiva exige compreender que a palavra e o saber não dependem da hegemonia da visão. Historicamente, o sistema educacional ocidental estruturou-se de forma estritamente visual, marginalizando quem lê o mundo por outras vias sensoriais.
É na urgência de romper com esse olhar colonizador que emerge a centralidade da **corpa**. A corpa (grafada no feminino como insurgência política) não é apenas um organismo biológico passivo; ela é presença física radical, território de memória, ancestralidade e resistência. Na escola inclusiva, a corpa da pessoa com deficiência visual é aquela que pensa, cria e se emancipa através do toque, da escuta profunda, do gesto e do movimento.
Para estruturar essa prática pedagógica, a **tradição do Congado/Griot** — com sua performance total que funde canto, instrumentação, a força dos refrões e a realeza corporal — une-se aos horizontes críticos de **Walter Benjamin**, **Paulo Freire** e **Augusto Boal**.
## 1. A Tradição do Congado/Griot e a Performance Total: A Palavra que se Toca
Na África Ocidental, os *Griots* são as bibliotecas vivas que guardam a memória coletiva através de uma **performance total e indissociável** (som, canto, poesia e dança). Essa tecnologia ancestral da palavra e do corpo cruzou o Atlântico e encontrou sua morada definitiva na **mineiridade profunda da tradição do Congado**.
Assim como os antigos mestres africanos, os Mestres de Ginga, Capitães de Linha e as Rainhas e Reis Congadeiros de Minas Gerais atuam como os legítimos guardiões da genealogia e da dignidade de seus territórios. No terreiro e nas ruas, o Congado opera uma dobra no tempo: a história não se escreve com tinta, mas sim com o ferro dos gungas, o couro dos tambores e a imponência dos mantos e coroas.
Aqui, a memória não se limita à manifestação da dor histórica; ela se derrama nas ruas como **celebração, beleza e ocupação artística**. Há uma profunda indissociabilidade entre a **ética da resistência e a estética da festa**. Ao coroar seus Reis e Rainhas, o Congado devolve a soberania roubada aos corpos negros e transforma o espaço urbano em um palco de orgulho, onde as cores das fardas, as fitas espalhadas ao vento, os passos coreografados e o brilho dos altares móveis proclamam que aqueles corpos são realeza viva.
É nesse cenário celebrativo que **o canto e a repetição dos refrões** ganham sua máxima função pedagógica e ritual. A estrutura responsorial — onde o capitão puxa o fundamento e o terno responde em uníssono com o refrão — funciona como uma tecnologia de acolhimento e fixação da memória. A repetição rítmica do refrão não é mera redundância; é o dispositivo que gera a conexão coletiva, que sintoniza as corpas na mesma frequência e que garante que ninguém fique de fora da história.
Para a pessoa com deficiência visual, a **tradição do Congado/Griot** é a validação definitiva de que a história é um fenômeno multissensorial, estético e sonoro. Quando o Curso de Educação Inclusiva propõe a contação de histórias mediada por objetos tridimensionais, ele bebe diretamente dessa fonte vibrante: a narrativa precisa ser tateada, ouvida, sentida no peso do objeto, na textura rica dos tecidos, no relevo das insígnias e na estrutura previsível e acolhedora dos refrões.
O refrão repetido na sala de aula permite que o estudante com deficiência visual se aposse da narrativa imediatamente; ele deixa de ser um mero espectador passivo do que os outros veem e passa a ser o coautor que canta, que prevê o ritmo e que conduz o desenrolar da história. A corpa do estudante lê a tridimensionalidade do objeto e a poética do espaço da mesma forma que a comunidade congadeira sente a rua ser reconquistada pelo som, pela cor e pelo eco do refrão.
## 2. Walter Benjamin e o Resgate da Experiência Sensorial
Essa função social e performática dialogue diretamente com o filósofo Walter Benjamin em seu ensaio *O Narrador* (1936). Benjamin aponta que a modernidade provocou uma visível "baixa no preço da experiência", substituindo a sabedoria da tradição oral pela efemeridade da informação descartável e puramente visual das mídias impressas.
O Griot e o mestre congadeiro, assim como o educador inclusivo, são a antítese desse esvaziamento. Na escola, reativar a contação de histórias sob a ótica benjaminiana significa devolver ao estudante o direito à experiência viva.
Para as pessoas com deficiência visual, a experiência é essencialmente tátil-auditiva. Ao afastar o foco do livro puramente textual ou da tela e trazer a narrativa para o campo do compartilhamento oral, do canto coletivo e da exploração de objetos físicos, a escola combate o isolamento e valida a sabedoria acumulada por essas corpas. A história deixa de ser um dado abstrato e passa a ser **experiência partilhada**.
## 3. Paulo Freire: A Corpa Consciente e a Práxis Libertadora
Em *Pedagogia do Oprimido* (1968), Paulo Freire condena a "educação bancária", na qual o estudante é visto como um vaso vazio a ser preenchido por conteúdos alienantes. No contexto da deficiência visual, a educação bancária atua de forma perversa quando tenta forçar o aluno a compreender o mundo apenas através de descrições visuais abstratas que não fazem sentido para sua realidade corpórea.
Freire defende que "pronunciar o mundo" é um direito de todos. O fazer inclusivo na escola sintoniza-se com Freire quando adota os **temas geradores** — a própria realidade existencial e sensorial dos estudantes — como ponto de partida.
Ao manusear maquetes, réplicas e objetos tridimensionais que contextualizam a narrativa, a corpa do estudante com deficiência visual compreende a matéria e faz a transição da consciência ingênua para a consciência crítica. Ele não é mais um receptor passivo de conceitos visuais alheios; ele é um sujeito que reconstrói a história a partir de sua própria percepção. A narrativa torna-se **práxis**: reflexão e ação voltadas à emancipação social.
## 4. Augusto Boal e o Teatro Fórum: A Corpa que Intervém e Ensaia
A tradição oral e festiva não é um fóssil estático; ela se atualiza no presente por meio do improviso e da resposta imediata ao ambiente. É nessa flexibilidade que encontramos o diálogo com o **Teatro Fórum** de Augusto Boal, vertente do *Teatro do Oprimido*.
No Teatro Fórum, encena-se uma opressão real vivida pelo público, mas a história não caminha para um fim trágico inevitável. O público é convocado a interromper a ação, entrar no espaço cênico e substituir o protagonista oprimido, ensaiando alternativas reais para romper o ciclo de exclusão. Boal afirmava que *"o corpo pensa"*.
Levar o Teatro Fórum para a contação de histórias inclusiva significa transformar o ouvinte com deficiência visual em **espect-ator**. No espaço da sala de aula, as barreiras físicas são eliminadas e o estudante é convidado a ocupar o centro do espaço.
Diante de uma narrativa que aborda a exclusão, o preconceito ou a falta de acessibilidade, os estudantes interrompem o fluxo e utilizam suas corpas e vozes para propor reescritas dinâmicas. O aluno com deficiência visual entra em cena, interage com os objetos tridimensionais do cenário, altera a dinâmica espacial e propõe saídas coletivas. A corpa que não vê com os olhos passa a ver com a ação, transformando o espaço pedagógico em um laboratório de emancipação política.
## Conclusão: O Terreiro da Educação Inclusiva
A complexidade de estruturar uma contação de histórias séria para pessoas com deficiência visual reside em entender que o "Era uma vez" é um ato político de profunda responsabilidade ética. Ao amalgamar a tradição dos Griots e Congadeiros com o pensamento de Benjamin, Freire e Boal, assume-se que a inclusão não é um mero protocolo assistencialista, mas sim uma revolução epistemológica.
Contar histórias com suportes tridimensionais e performance total é:
 1. Guardar a memória viva através do tato, do som, **do canto e dos refrões partilhados** (**Tradição do Congado/Griot**);
 2. Partilhar sabedoria contra o esvaziamento da experiência moderna (**Benjamin**);
 3. Dialogar a partir da realidade sensorial do estudante para conscientizar (**Freire**);
 4. Ensaiar a transformação social ocupando o espaço com autonomia (**Boal**).
Converte-se, assim, a sala de aula em um terreiro de emancipação, onde a corpa dissidente da pessoa com deficiência visual deixa de ser lida pela falta e passa a ser celebrada pela sua absoluta potência de narrar, festejar, sentir e transformar o mundo.
## Glossário de Conceitos-Chave
 * **Corpa:** Conceito poético e político que subverte o gênero gramatical masculino da palavra "corpo". É utilizado para dar visibilidade às existências dissidentes (mulheres, negros, pessoas com deficiência, LGBTQIA+) e para afirmar o corpo como um território político de memória, presença e produção de saber.
 * **Tradição do Congado/Griot:** Conceito que unifica a ancestralidade dos contadores de memória da África Ocidental (*Griots*) à resistência e vivência ritualística dos reinados afro-mineiros (*Congado*). Define uma tecnologia social e pedagógica baseada na oralidade, na transmissão de saberes e na *performance total*. Destaca-se pelo entrelaçamento entre a **ética** (a preservação da dignidade e da identidade) e a **estética** (a ocupação festiva e artística das ruas através de Reis, Rainhas, cantos, refrões repetidos e ritmos), provando que o corpo que resiste é também o corpo que celebra e cria beleza.
 * **Performance Total:** Conceito que define a indissociabilidade entre diferentes linguagens artísticas (palavra, canto, música instrumental e dança) em um único ato expressivo, característica central da atuação de Griots e Congadeiros.
 * **Esvaziamento da Experiência (Benjamin):** Conceito que descreve a perda crônica, na modernidade, da capacidade humana de comunicar vivências profundas e sabedorias comunitárias, sendo substituída pela informação rápida e superficial.
 * **Educação Bancária (Freire):** Modelo educativo opressor no qual o educando é visto como um receptáculo passivo onde o educador deposita conhecimentos formatados e distantes de sua realidade.
 * **Tema Gerador (Freire):** Situações-limite e contradições extraídas da realidade concreta e do universo sensorial dos educandos que servem de base para o processo de conscientização política.
 * **Espect-Ator (Boal):** Participante que deixa a postura passiva de mero espectador para intervir ativamente na ação dramática, transformando-se em agente de modificação cênica e social.
 * **Coringa (Boal):** O facilitador ou mediador que orquestra o debate e as intervenções entre os espect-atores e os atores, provocando o grupo a buscar soluções sem impor respostas prontas.
## Referências Bibliográficas
 * BÂ, Amadou Hampâté. O homem que preserva a memória viva da África. **O Correio da Unesco**, Paris, v. 33, n. 9, p. 23-29, 1980.
 * BENJAMIN, Walter. O Narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. *In*: **Magia e Técnica, Arte e Política**. Tradução de Sérgio Paulo Rouanet. 7. ed. São Paulo: Brasiliense, 1994. p. 197-221. (Obras Escolhidas, v. 1).
 * BOAL, Augusto. **Teatro do Oprimido e outras poéticas políticas**. 7. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1991.
 * FREIRE, Paulo. **Pedagogia do Oprimido**. 17. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
 * MARTINS, Leda Maria. **Afrografias da memória**: o reinado do Rosário no Jatobá. São Paulo: Perspectiva, 1997.
 * SANTOS, Boaventura de Sousa. **Epistemologias do Sul**. Coimbra: Almedina, 2010.

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