> *— Ô, viva a Rainha, viva o Rei!*
> *— Ô, viva a Rainha, viva o Rei!*
> *Viva os três Reis do Oriente,*
> *Viva a coroa de El-Rei!*
> *(Canto Tradicional do Congado Mineiro)*
Levar a contação de histórias a sério no ambiente escolar significa despi-la da carcaça do mero entretenimento infantilizado ou da atividade puramente ilustrativa. Quando essa prática cruza os portões da escola e se depara com a realidade de grupos vulnerabilizados — especialmente quando nos voltamos às **pessoas com deficiência visual** —, o ato de narrar se transforma em um território de disputa existencial, política e pedagógica.
Contar histórias na perspectiva da educação inclusiva exige compreender que a palavra e o saber não dependem da hegemonia da visão. Historicamente, o sistema educacional ocidental estruturou-se de forma estritamente visual, marginalizando quem lê o mundo por outras vias sensoriais.
É na urgência de romper com esse olhar colonizador que emerge a centralidade da **corpa**. A corpa (grafada no feminino como insurgência política) não é apenas um organismo biológico passivo; ela é presença física radical, território de memória, ancestralidade e resistência. Na escola inclusiva, a corpa da pessoa com deficiência visual é aquela que pensa, cria e se emancipa através do toque, da escuta profunda, do gesto e do movimento.
Para estruturar essa prática pedagógica, a **tradição do Congado/Griot** — com sua performance total que funde canto, instrumentação, a força dos refrões e a realeza corporal — une-se aos horizontes críticos de **Walter Benjamin**, **Paulo Freire** e **Augusto Boal**.
## 1. A Tradição do Congado/Griot e a Performance Total: A Palavra que se Toca
Na África Ocidental, os *Griots* são as bibliotecas vivas que guardam a memória coletiva através de uma **performance total e indissociável** (som, canto, poesia e dança). Essa tecnologia ancestral da palavra e do corpo cruzou o Atlântico e encontrou sua morada definitiva na **mineiridade profunda da tradição do Congado**.
Assim como os antigos mestres africanos, os Mestres de Ginga, Capitães de Linha e as Rainhas e Reis Congadeiros de Minas Gerais atuam como os legítimos guardiões da genealogia e da dignidade de seus territórios. No terreiro e nas ruas, o Congado opera uma dobra no tempo: a história não se escreve com tinta, mas sim com o ferro dos gungas, o couro dos tambores e a imponência dos mantos e coroas.
Aqui, a memória não se limita à manifestação da dor histórica; ela se derrama nas ruas como **celebração, beleza e ocupação artística**. Há uma profunda indissociabilidade entre a **ética da resistência e a estética da festa**. Ao coroar seus Reis e Rainhas, o Congado devolve a soberania roubada aos corpos negros e transforma o espaço urbano em um palco de orgulho, onde as cores das fardas, as fitas espalhadas ao vento, os passos coreografados e o brilho dos altares móveis proclamam que aqueles corpos são realeza viva.
É nesse cenário celebrativo que **o canto e a repetição dos refrões** ganham sua máxima função pedagógica e ritual. A estrutura responsorial — onde o capitão puxa o fundamento e o terno responde em uníssono com o refrão — funciona como uma tecnologia de acolhimento e fixação da memória. A repetição rítmica do refrão não é mera redundância; é o dispositivo que gera a conexão coletiva, que sintoniza as corpas na mesma frequência e que garante que ninguém fique de fora da história.
Para a pessoa com deficiência visual, a **tradição do Congado/Griot** é a validação definitiva de que a história é um fenômeno multissensorial, estético e sonoro. Quando o Curso de Educação Inclusiva propõe a contação de histórias mediada por objetos tridimensionais, ele bebe diretamente dessa fonte vibrante: a narrativa precisa ser tateada, ouvida, sentida no peso do objeto, na textura rica dos tecidos, no relevo das insígnias e na estrutura previsível e acolhedora dos refrões.
O refrão repetido na sala de aula permite que o estudante com deficiência visual se aposse da narrativa imediatamente; ele deixa de ser um mero espectador passivo do que os outros veem e passa a ser o coautor que canta, que prevê o ritmo e que conduz o desenrolar da história. A corpa do estudante lê a tridimensionalidade do objeto e a poética do espaço da mesma forma que a comunidade congadeira sente a rua ser reconquistada pelo som, pela cor e pelo eco do refrão.
## 2. Walter Benjamin e o Resgate da Experiência Sensorial
Essa função social e performática dialogue diretamente com o filósofo Walter Benjamin em seu ensaio *O Narrador* (1936). Benjamin aponta que a modernidade provocou uma visível "baixa no preço da experiência", substituindo a sabedoria da tradição oral pela efemeridade da informação descartável e puramente visual das mídias impressas.
O Griot e o mestre congadeiro, assim como o educador inclusivo, são a antítese desse esvaziamento. Na escola, reativar a contação de histórias sob a ótica benjaminiana significa devolver ao estudante o direito à experiência viva.
Para as pessoas com deficiência visual, a experiência é essencialmente tátil-auditiva. Ao afastar o foco do livro puramente textual ou da tela e trazer a narrativa para o campo do compartilhamento oral, do canto coletivo e da exploração de objetos físicos, a escola combate o isolamento e valida a sabedoria acumulada por essas corpas. A história deixa de ser um dado abstrato e passa a ser **experiência partilhada**.
## 3. Paulo Freire: A Corpa Consciente e a Práxis Libertadora
Em *Pedagogia do Oprimido* (1968), Paulo Freire condena a "educação bancária", na qual o estudante é visto como um vaso vazio a ser preenchido por conteúdos alienantes. No contexto da deficiência visual, a educação bancária atua de forma perversa quando tenta forçar o aluno a compreender o mundo apenas através de descrições visuais abstratas que não fazem sentido para sua realidade corpórea.
Freire defende que "pronunciar o mundo" é um direito de todos. O fazer inclusivo na escola sintoniza-se com Freire quando adota os **temas geradores** — a própria realidade existencial e sensorial dos estudantes — como ponto de partida.
Ao manusear maquetes, réplicas e objetos tridimensionais que contextualizam a narrativa, a corpa do estudante com deficiência visual compreende a matéria e faz a transição da consciência ingênua para a consciência crítica. Ele não é mais um receptor passivo de conceitos visuais alheios; ele é um sujeito que reconstrói a história a partir de sua própria percepção. A narrativa torna-se **práxis**: reflexão e ação voltadas à emancipação social.
## 4. Augusto Boal e o Teatro Fórum: A Corpa que Intervém e Ensaia
A tradição oral e festiva não é um fóssil estático; ela se atualiza no presente por meio do improviso e da resposta imediata ao ambiente. É nessa flexibilidade que encontramos o diálogo com o **Teatro Fórum** de Augusto Boal, vertente do *Teatro do Oprimido*.
No Teatro Fórum, encena-se uma opressão real vivida pelo público, mas a história não caminha para um fim trágico inevitável. O público é convocado a interromper a ação, entrar no espaço cênico e substituir o protagonista oprimido, ensaiando alternativas reais para romper o ciclo de exclusão. Boal afirmava que *"o corpo pensa"*.
Levar o Teatro Fórum para a contação de histórias inclusiva significa transformar o ouvinte com deficiência visual em **espect-ator**. No espaço da sala de aula, as barreiras físicas são eliminadas e o estudante é convidado a ocupar o centro do espaço.
Diante de uma narrativa que aborda a exclusão, o preconceito ou a falta de acessibilidade, os estudantes interrompem o fluxo e utilizam suas corpas e vozes para propor reescritas dinâmicas. O aluno com deficiência visual entra em cena, interage com os objetos tridimensionais do cenário, altera a dinâmica espacial e propõe saídas coletivas. A corpa que não vê com os olhos passa a ver com a ação, transformando o espaço pedagógico em um laboratório de emancipação política.
## Conclusão: O Terreiro da Educação Inclusiva
A complexidade de estruturar uma contação de histórias séria para pessoas com deficiência visual reside em entender que o "Era uma vez" é um ato político de profunda responsabilidade ética. Ao amalgamar a tradição dos Griots e Congadeiros com o pensamento de Benjamin, Freire e Boal, assume-se que a inclusão não é um mero protocolo assistencialista, mas sim uma revolução epistemológica.
Contar histórias com suportes tridimensionais e performance total é:
1. Guardar a memória viva através do tato, do som, **do canto e dos refrões partilhados** (**Tradição do Congado/Griot**);
2. Partilhar sabedoria contra o esvaziamento da experiência moderna (**Benjamin**);
3. Dialogar a partir da realidade sensorial do estudante para conscientizar (**Freire**);
4. Ensaiar a transformação social ocupando o espaço com autonomia (**Boal**).
Converte-se, assim, a sala de aula em um terreiro de emancipação, onde a corpa dissidente da pessoa com deficiência visual deixa de ser lida pela falta e passa a ser celebrada pela sua absoluta potência de narrar, festejar, sentir e transformar o mundo.
## Glossário de Conceitos-Chave
* **Corpa:** Conceito poético e político que subverte o gênero gramatical masculino da palavra "corpo". É utilizado para dar visibilidade às existências dissidentes (mulheres, negros, pessoas com deficiência, LGBTQIA+) e para afirmar o corpo como um território político de memória, presença e produção de saber.
* **Tradição do Congado/Griot:** Conceito que unifica a ancestralidade dos contadores de memória da África Ocidental (*Griots*) à resistência e vivência ritualística dos reinados afro-mineiros (*Congado*). Define uma tecnologia social e pedagógica baseada na oralidade, na transmissão de saberes e na *performance total*. Destaca-se pelo entrelaçamento entre a **ética** (a preservação da dignidade e da identidade) e a **estética** (a ocupação festiva e artística das ruas através de Reis, Rainhas, cantos, refrões repetidos e ritmos), provando que o corpo que resiste é também o corpo que celebra e cria beleza.
* **Performance Total:** Conceito que define a indissociabilidade entre diferentes linguagens artísticas (palavra, canto, música instrumental e dança) em um único ato expressivo, característica central da atuação de Griots e Congadeiros.
* **Esvaziamento da Experiência (Benjamin):** Conceito que descreve a perda crônica, na modernidade, da capacidade humana de comunicar vivências profundas e sabedorias comunitárias, sendo substituída pela informação rápida e superficial.
* **Educação Bancária (Freire):** Modelo educativo opressor no qual o educando é visto como um receptáculo passivo onde o educador deposita conhecimentos formatados e distantes de sua realidade.
* **Tema Gerador (Freire):** Situações-limite e contradições extraídas da realidade concreta e do universo sensorial dos educandos que servem de base para o processo de conscientização política.
* **Espect-Ator (Boal):** Participante que deixa a postura passiva de mero espectador para intervir ativamente na ação dramática, transformando-se em agente de modificação cênica e social.
* **Coringa (Boal):** O facilitador ou mediador que orquestra o debate e as intervenções entre os espect-atores e os atores, provocando o grupo a buscar soluções sem impor respostas prontas.
## Referências Bibliográficas
* BÂ, Amadou Hampâté. O homem que preserva a memória viva da África. **O Correio da Unesco**, Paris, v. 33, n. 9, p. 23-29, 1980.
* BENJAMIN, Walter. O Narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. *In*: **Magia e Técnica, Arte e Política**. Tradução de Sérgio Paulo Rouanet. 7. ed. São Paulo: Brasiliense, 1994. p. 197-221. (Obras Escolhidas, v. 1).
* BOAL, Augusto. **Teatro do Oprimido e outras poéticas políticas**. 7. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1991.
* FREIRE, Paulo. **Pedagogia do Oprimido**. 17. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
* MARTINS, Leda Maria. **Afrografias da memória**: o reinado do Rosário no Jatobá. São Paulo: Perspectiva, 1997.
* SANTOS, Boaventura de Sousa. **Epistemologias do Sul**. Coimbra: Almedina, 2010.
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