terça-feira, julho 21

Contagem regressiva: Curso de Educação Inclusiva (Módulo 2) – "Como contar histórias cantando" no dia 22 de agosto de 2026

O fio da voz e o chão da memória: Oralidade, Folclore e Inclusão.

A oralidade e o folclore não são apenas vestígios do passado; são as fundações vivas sobre as quais construímos nossa humanidade e nossa sensibilidade. "Quando tratamos a inclusão como um 'tema menor', estamos medindo o tamanho da nossa própria empatia e revelando o quanto ainda nos falta de civilidade."

Quando pensamos na educação inclusiva, especialmente para pessoas com deficiência visual, essa oralidade ancestral ganha uma urgência poética e transformadora. Para quem navega pelo mundo primariamente através dos sentidos da audição, do tato e da imaginação, a palavra cantada e contada deixa de ser mero entretenimento e se torna um portal de pertencimento e conhecimento. O canto e o folclore oferecem uma arquitetura sonora rica em texturas, timbres e ritmos que estimulam a percepção espacial, a memória afetiva e a autonomia criativa.
Resgatar os cantos de roda, as loas do Congado e os acalantos na sala de aula inclusiva é reconhecer que a inclusão plena se faz quando validamos todas as formas de sentir e habitar o mundo.

 É transformar a contação de histórias em um espaço onde a ausência da visão é preenchida pela imensidão da escuta, onde cada som sagrado e cada retalho de memória cantada afirmam que a arte pertence a todos os corpos, sem exceção.
⏳ O narrador, a experiência e a arte de transmitir o saber.

Nenhuma reflexão sobre a arte de contar histórias estaria completa sem evocar o pensador alemão Walter Benjamin e sua célebre tese sobre "O Narrador". Benjamin nos ensina que a verdadeira contação de histórias não está ligada à mera transmissão de informações abstratas, mas sim à experiência acumulada e partilhada. Para ele, o narrador é aquele que tem "conselho" para dar — conselho não no sentido de uma resposta pronta, mas de uma orientação tecida no tear da vida vivida e transmitida de viva voz.
Na tradição dos mestres e mestras populares, e muito fortemente no universo do Congado, a narrativa é o próprio sangue da comunidade. Benjamin lamentava a perda da "arte de narrar" na modernidade industrial, sufocada pelo excesso de informações rápidas e isoladas. Resgatar a oralidade, o canto e os saberes ancestrais é, portanto, um ato benjaminiano de resgate da experiência coletiva. Na educação inclusiva, quando narramos cantando, abrimos um espaço onde a comunidade se reconhece, onde o passado e o presente se abraçam e onde a experiência do outro é acolhida por quem escuta, criando um elo indestrutível de empatia e humanidade.

 🎶 Cantar, Contar e Catar: Os verbos da memória mineira.

Na nossa tradição, a oralidade é um ato de resistência e afeto. Não por acaso, cantar, contar e catar compartilham a mesma raiz sonora e o mesmo gesto de cuidado:
 1.Cantar é dar fôlego aos sentimentos que a prosa, às vezes, não dá conta de abraçar. É o som que atravessa gerações.
 2. Contar é narrar, é manter o fio da meada, é o ofício de ser ponte entre quem veio antes e quem está chegando.
 3.Catar é selecionar,  é o gesto paciente de quem colhe ouro no cascalho, quem junta retalhos de lembranças, palavras esquecidas e cacos de histórias para formar um tecido novo e inteiro.
Quando juntamos retalhos de vivências, criamos uma colcha de retalhos sonora.

 É assim que a identidade mineira se constrói: na partilha ao redor do fogão a lenha, na praça, na varanda e nos terreiros.
 👑 A força sagrada do Congado dos Reis e Rainhas e a coragem de ser.

Se queremos falar sobre a origem da nossa voz cantada e contada, precisamos reverenciar o Congado. Ele é a matriz viva da nossa expressão cultural e espiritual.
Pensadores e estudiosos da cultura mineira e afro-brasileira — como Conceição Evaristo ao tratar da escrevivência e da memória das mulheres negras, e a teórica e dramaturga Leda Maria Martins ao analisar a oralitura e a cena ritualística — lembram-nos que manter viva a tradição do Congado em Minas Gerais tem exigido historicamente, desde o período da escravização até os dias de hoje, um ato profundo de coragem.
Proteger os tambores, assumir a própria identidade, vestir as coroas e reverenciar os ancestrais em praça pública foi, e muitas vezes ainda é, um ato de enfrentamento contra um mundo que insiste em silenciar as vozes negras e populares. Como diz o verso: "Então cante, mas lembre, para contar, cantar, é preciso calar o medo e ter coragem". 

O Congado é a prova viva de que o povo mineiro encontrou na fé festiva a coragem para transformar o sofrimento em beleza e o cerceamento em liberdade.
Esse reconhecimento institucional e cultural da importância da manifestação ganhou ainda mais força com a oficialização da data magna: o dia 07 de outubro foi instituído como o Dia Estadual do Congado (através da Lei Estadual nº 23.336/2019 em Minas Gerais, consagrando a data em homenagem à festividade e à devoção a Nossa Senhora do Rosário). Essa conquista legal coroa a luta secular dos reinados e reafirma publicamente o valor incalculável dessa herança.

O Reinado nos ensina que a contação de histórias acontece no corpo em movimento, unindo valores de vida, coletividade e ancestralidade.
 🥁 A métrica dos toques, timbres e diálogos com outros ritmos.

A tessitura sonora do Congado é uma verdadeira partitura viva, transmitida de geração em geração pela oralidade. Compreender a métrica e a dinâmica dessa manifestação revela como ela dialoga profundamente com a alma de outros ritmos brasileiros:
 
1. A métrica e o batismo do som: Os toques do Congado não seguem uma métrica mecânica ou rígida, mas sim a pulsação do corpo em cortejo. O batismo dos tambores e dos instrumentos — momento sagrado em que ganham voz e bênção — marca o nascimento de um canal de comunicação entre o plano terreno e o espiritual. O ritmo cadenciado, especialmente nas guardas de Moçambique, dita um caminhar compassado ("caminhar devagar"), onde cada passo é uma prece.

 2. Timbres, Pausas e Diálogos: O som do Congado é construído pelo contraste rico de timbres: o grave profundo das caixas maiores, o estalado seco das dobras e o chocalhar metálico das gungas. As pausas no Congado não são vazios; são momentos de respiro coletivo, escuta e reverência, semelhantes às respirações encontradas nos sambas de roda e nos tambores de crioula.

 3. Diálogos com a Matriz Afro-Brasileira: O Congado dialoga diretamente com o Candombe (considerado o ancestral comum dos reinados mineiros), com o maracatu nordestino e com os jongos espalhado no Brasil. Essa conversa se dá na circularidade da roda, na dinâmica de chamada e resposta entre o capitão e o coro, e na capacidade de transformar o batuque em um arquivo histórico em movimento, tal qual o jazz e outras expressões de resistência atlântica.

 📚 Glossário do Congado: Instrumentos e Elementos Cenográficos
Para compreender o Congado como uma narrativa em constante repetição e reinvenção que fortalece a nossa identidade, é preciso conhecer a linguagem dos seus elementos sagrados:
 -Caixas (ou Dobras): Tambores tradicionais que marcam o pulso rítmico do cortejo. O som da caixa é o batimento cardíaco da comunidade, ditando o ritmo dos passos e unificando o grupo em uma só voz.
 -Gunga / Chocalhos: Instrumentos percussivos presos aos pés dos congadeiros. Cada passo dado é, ao mesmo tempo, um som emitido, transformando o corpo do dançador em um instrumento musical vivo e espantando os maus fluidos do caminho.
 -Coras e Espadas: Elementos cenográficos e simbólicos que representam a realeza ancestral negra. Não se trata de uma imitação do poder europeu, mas da coroação de reis e rainhas pretos, devolvendo-lhes a soberania e a dignidade roubadas pelo sistema escravista.
 -Mastro (com as bandeiras de Nossa Senhora do Rosário, São Benedito e Santa Efigênia): O ponto de referência espiritual e geográfico do terreiro e da festa. O levantamento do mastro abre o tempo sagrado da celebração e protege o território da comunidade.
 -Pontos Cantados: Cantos de louvor, lamento e exaltação que funcionam como verdadeiros arquivos orais da história do povo negro em Minas Gerais, transmitindo saberes de geração em geração.
-Jongo: é uma manifestação cultural e dancística de raiz afro-brasileira, profundamente ligada aos saberes, ritos e crenças dos povos de língua banto (vindos de regiões que hoje correspondem à República Democrática do Congo e a Angola).
Sua origem no Brasil remonta ao século XIX, tendo se consolidado nas fazendas de café e de cana-de-açúcar do Sudeste brasileiro, sobretudo na região do Vale do Rio Paraíba do Sul (que abrange áreas entre o Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais).
Para os africanos escravizados e seus descendentes, o jongo funcionava não apenas como momento de lazer e culto aos ancestrais (os pretos-velhos), mas também como um sofisticado meio de resistência e comunicação sutil. Através de pontos cantados cheios de enigmas, metáforas e adivinhações — que deviam ser decifrados pelos adversários na roda —, eles trocavam informações, combinavam fugas e preservavam sua identidade e dignidade diante da opressão do cativeiro.
O  jongo é mantido vivo em comunidades rurais, quilombolas e periferias urbanas, concentrando-se principalmente na Região Sudeste do país. Os estados com registros oficiais e práticas ativas mapeadas pelo IPHAN são:
 -Rio de Janeiro: Com forte destaque no Vale do Paraíba (como em Valença, Barra do Piraí e Pinheiral) e na capital (com emblemáticos redutos como o Jongo da Serrinha, em Madureira).
 São Paulo: Praticado em municípios como Guaratinguetá, Cunha, Piquete, São Luís do Paraitinga e Lagoinha (além de iniciativas urbanas como o Jongo Dito Ribeiro em Campinas).
 Minas Gerais: Presente em cidades da região sul e de divisa, como Passa Quatro, Carmo da Cachoeira e Alfenas.
 Espírito Santo: Com forte expressão em comunidades do litoral e norte capixaba, a exemplo de Conceição da Barra e São Mateus.

🪞 Pesquisando nossos corpos e seus sonhos
por contar histórias cantando.  O primeiro instrumento que afinamos é o nosso próprio corpo. No Módulo 2, vamos olhar para as nossas camadas internas:
 1.Os sons abafados: Aqueles guardados pelo medo, pela timidez ou pelas violências silenciadas ao longo da história. Dar vazão a esses sons é parte do processo de cura e inclusão.
 2. Os sons sagrados: O murmúrio da prece, o canto de trabalho, o tom grave da terra e o agudo da esperança que habita em cada um de nós.
 3. O "Sim": A afirmação da vida, da arte como direito e da inclusão como horizonte ético. É o som que abre portas para o encontro genuíno com a pessoa com deficiência visual e com qualquer ouvinte que se deixe tocar pela narrativa.


🤱 O berço do som: Os Acalantos
Todo grande contador de histórias foi, um dia, embalado por um acalanto. A primeira música que escutamos na vida traz a promessa de segurança e pertencimento.
Em Minas, os acalantos misturam o ritmo do tear, o balanço da rede e o tom manso das avós e mães pretas que embalaram gerações. Cantar um acalanto em uma história contada é resgatar essa escuta primordial — é lembrar ao outro (e a nos mesmos) que somos acolhidos pelo som.


📖 Referências Bibliográficas e Documentos Legais
 -BENJAMIN, Walter. O Narrador: Considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. In: Magia e Técnica, Arte e Política: Ensaios sobre Literatura e História da Cultura. São Paulo: Brasiliense, 1994.
 -BRASIL / MINAS GERAIS. Lei Estadual nº 23.336, de 11 de julho de 2019. Institui o "Dia Estadual do Congado", comemorado anualmente em 07 de outubro, no Estado de Minas Gerais.
 -CASCUDO, Luiz da Câmara.Dicionário do Folklore Brasileiro.Rio de Janeiro: Ediouro, 2001.
 -EVARISTO, Conceição. "Olhos d'Água". Rio de Janeiro: Pallas Editora / Malê, 2014.
 -MARTINS, Leda Maria. Afetografias da Memória: A Oralitura e a Cena. São Paulo: Perspectiva, 2021.
 -MARTINS, Leda Maria.A cena em sombras. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1995.
 -SUASSUNA, Ariano. Iniciação à Estética. Rio de Janeiro: José Olympio, 2005.

 📅 Serviço
 Data: 22 de agosto de 2026
 Horário:Das 8h às 17h
 Local: Escola Municipal Coronel José Batista
 Facilitadoras: Cleide Cissa, Cassiana, Thayná e Tânia
 Realização: Epocriativa - Escritório de Projetos de Arte e Cultura
 Apoio:Escola Municipal Coronel José Batista e Otimize
 Participação especial: Coletivo Cantos de Congo e Expocriativas
Agradecimento: Débora Tersália, Aparecida Clodoaldo, Rosalene, Marina e Maria de Lourdes

Por Lúcia Tânia Augusto 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Deixe aqui sua sugestão, perguntas ou comentários. Grata pela visita!

A vida, a lida, a linha é um fio.

A frase “No sertão de meu Deus, a linha é um fio!”, dita pelo narrador Riobaldo no clássico "Grande Sertão: Veredas", ...