quinta-feira, julho 30

Contar histórias cantando


O Mundo que se sente: contar histórias com o corpo, o som e a Vida

Por Epocriativa
Olhe para a cena de uma criança caminhando pela rua. O toque suave da bengala no piso tátil guia os passos, mas é o corpo inteiro que navega pela cidade. O aroma do café recém-passado e do pão quente que sai da padaria, o cheiro das frutas doces na feira, as vozes que se misturam no ar e as notas de uma música que flutua ao longe — tudo isso desenha uma paisagem invisível aos olhos, mas profundamente viva no peito.

Ela não precisa enxergar a rua para estar inteira nela. Seu corpo vibra em cores, aromas, ritmos e sons.

É exatamente esse universo sensorial e pulsante que nos convida a repensar a arte de narrar. Na educação inclusiva e na mediação cultural, contar histórias é ensinar e aprender a ver com todos os sentidos. E antes de qualquer palavra ou canção, tudo começa na paciência da escuta: a capacidade de desacelerar, acolher o tempo do outro e escutar os silêncios, os cheiros, as pausas e os ritmos que cada pessoa traz.

Quando levamos a radionovela e o rap para a sala de aula ou para a comunidade, estamos abrindo as portas para que cada um construa e sinta esse mapa do mundo.

1. A Radionovela e a Feira dos Sentidos: Ver com os Ouvidos
A imagem nos mostra que o som e o aroma criam cenários no ar. A radionovela faz esse mesmo movimento pedagógico.
Ao combinar os passos na folha seca, o ruído da chuva, os estalos, os passos no chão e o tom da voz, a sonoplastia transforma o invisível em presença pura. Para a pessoa com deficiência visual, a narrativa sonora não é uma adaptação ou um improviso: é uma experiência estética completa, onde o som vira cor, o silêncio vira expectativa e a imaginação ganha a mesma tridimensionalidade de uma feira livre cheia de vida

2. O Rap e a Dança do Passo: O Ritmo como Pulso e Autonomia
Se a paisagem sonora desenha o espaço, o rap dá o ritmo ao passo.
Assim como a menina que caminha no seu próprio tempo, firme e alegre, o rap traz a poesia do pulso e a batida que organiza o movimento. Na rima e na cadência, o corpo ganha confiança. O rap não exige perfeição técnica; ele pede presença, verdade e identidade. Ele transforma a voz em canto de pertencimento, permitindo que cada criança e jovem expresse sua caminhada, suas descobertas e sua própria força.
A Flauta que Anda: E a sabedoria ancestral dos povos Tupi traz uma imagem linda para isso: o corpo humano é uma flauta que anda.
Nossa respiração é o sopro; nossos passos, risos e vozes são as notas que atravessam essa flauta. Ao unirmos a riqueza sonora da radionovela à força ritmada do rap, colocamos essa flauta coral para funcionar. Viramos pontes de afeto, escuta e encantamento.
Fica o convite para esta travessia: desarmar as pressas, fechar um pouco os olhos para aguçar os ouvidos, e descobrir como é bonito aprender a contar — e a ouvir — histórias com o corpo inteiro.



A Arte de Escutar os Silêncios: A Escuta Sensível e os Bastidores da História Oral


 
Quando nos debruçamos sobre o registro da memória e as narrativas de vida em nossos projetos do  fazer pela História Oral vai muito além de ligar um gravador e fazer perguntas. 
 
Pesquisadora jovem, segurando um bloco, anotando enquanto entrevista um Mestre Griot. Na cena o Mestre está sendo observado pelas crianças do seu território que  escutam encantadas, demonstrando muito interesse. No segundo plano, um Baobá, que é a representação da sabedoria Griot e onde eram enterrados esses Mestres quando morriam. Este exercício de entrevistar com crianças no entorno delineia o discurso e cria uma sensação de pertencimento e identidade em todos.

 
 O verdadeiro trabalho do pesquisador e do agente cultural de memória acontece no campo da escuta sensível — aquele espaço onde o tom de voz, o ambiente doméstico, as hesitações e, acima de tudo, os silêncios  dizem tanto ou mais do que as palavras proferidas.
 
Em nossas pesquisas de campo e vivências, observamos um fenômeno fascinante: no início de uma entrevista, o depoente muitas vezes fala "para fora", usando um tom institucional ou protetivo, como quem precisa "manter as aparências" ao tratar da história familiar ou comunitária. Contudo, à medida que a entrevista avança e o ambiente de confiança se estabelece, o relato sofre uma virada. O tom muda, a rigidez decorativa se desfaz e a pessoa passa a falar a partir de sua própria autonomia — assumindo o papel de sujeito da sua própria trajetória.
 
Neste artigo, exploramos as raízes teóricas dessa abordagem, integrando grandes nomes da memória com a filosofia de Walter Benjamin e detalhando como a nossa metodologia transforma depoimentos orais em acervo vivo e salvaguarda do patrimônio imaterial.
 
1. As Raízes Teóricas da Escuta Sensível
O ato de escutar uma narrativa oral perpassa por três pilares teóricos fundamentais da História Oral:
1.1. A Hermenêutica do Silêncio e das Omissões
O silêncio na entrevista narrativa não é um vazio, uma falha de memória ou uma ausência de conteúdo. Trata-se de uma **estratégia de autopreservação**, uma forma de **resistência** ou a manifestação direta de uma norma social agindo sobre o sujeito. Saber "escutar o silêncio" é entender que omitir determinado fato é também uma escolha narrativa carregada de significado.
1.2. A Performatividade do Relato e o "Eu Social"
Nos momentos iniciais da escuta, é comum que a pessoa entrevistada performe papéis sociais predeterminados (a filha zelosa, o trabalhador exemplar, o guardião da moral familiar). Ela fala "para manter as aparências". Quando a conversa atinge um nível mais profundo de empatia e intersubjetividade, a narrativa ganha fluidez e o "eu social" dá lugar ao indivíduo em sua plenitude autobiográfica.
1.3.  A Intersubjetividade e a Situação de Entrevista
Uma entrevista de História Oral não ocorre em um vácuo neutro. O clima da casa, os ruídos do entorno, os acompanhantes presentes e a postura do próprio entrevistador interferem na narrativa. O depoimento é um **produto dinâmico e vivo**, construído no encontro entre quem pergunta e quem lembra.
 
2. A Iluminação de Walter Benjamin: A Narrativa e a Restauração da Experiência
Para enriquecer essa reflexão, é fundamental trazer o pensamento do filósofo e crítico cultural alemão Walter Benjamin(1892–1940).
Em seu célebre ensaio "O Narrador" (1936), Benjamin diagnostica o empobrecimento da Erfahrung (a experiência vivida, acumulada e compartilhada) na modernidade industrial, em contraposição ao mero acúmulo de Erlebnis (a vivência momentânea, rápida e efêmera). Para Benjamin, o verdadeiro narrador é aquele que retira o que conta da sua própria experiência ou daquela que lhe foi transmitida por outros, incorporando-a à vida dos ouvintes.
Na História Oral, ao acolhermos as hesitações e os silêncios, estamos praticando o que Benjamin chamava de  escovar a história a contrapelo: recusar a versão oficial ou linear dos fatos para resgatar os cacos, as memórias subterrâneas e as ruínas que a história tradicional frequentemente ignora.
 
 3. Abordagem: A História Oral como Mediação Cultural e Ação no Território
Na Epocriativa, o nosso olhar sobre a memória e a narrativa oral nasce do campo das Ciências Sociais, da História Contemporânea, da Etnografia e da Museologia da Memória. É importante delimitar o nosso lugar de fala e de atuação metodológica:
3.1. O Depoimento como Patrimônio e Acervo Vivo: Diferente do campo da criação puramente literária ou ficcional — que toma a memória como matéria-prima para a fabulação poética —, o nosso trabalho toma o depoimento oral como documento, acervo, patrimônio imaterial e garantia de direitos. A história contada não é reinventada; ela é acolhida, salvaguardada, analisada e devolvida à comunidade.
3.2. A Linguagem e as Artes como Tecnologias Sociais: Nosso uso da narrativa oral, do recurso cênico, do teatro e da semiótica não busca a construção de um texto de ficção, mas atua como **tecnologia de mediação cultural e acessibilidade. A linguagem expressiva e a contação de histórias são ferramentas para tirar o documento da poeira do arquivo estático e transformá-lo em uma experiência viva e tridimensional.
3.3. A Escuta que Gera Cidadania: A nossa atuação combina a rigorosa reflexão sobre o símbolo, o mito e a linguagem com o compromisso da História Pública. Utilizamos a pesquisa de acervo e a escuta etnográfica para fortalecer a memória coletiva, a cartografia social e a salvaguarda socioambiental dos territórios onde atuamos.
 
4. Glossário Teórico: Conceitos-Chave da Memória e da Escuta
Para orientar estudantes, pesquisadores e agentes culturais, sistematizamos abaixo os conceitos essenciais que fundamentam essa prática:
-Escuta Sensível: Habilidade metodológica de escutar não apenas o texto falado, mas as variações tonais, o ritmo, as pausas, a corporalidade e o contexto socioespacial do depoente.
-Hermenêutica do Silêncio:  Campo da interpretação que toma a pausa, o esquecimento voluntário e o "não dito" como dados analíticos centrais no depoimento oral.
-Erfahrung vs. Erlebnis (Walter Benjamin): Erfahrung representa a experiência integrada, transmitida pela tradição oral e assimilada coletivamente. Erlebnis  refere-se à vivência chocante, fragmentada e efêmera da vida moderna.
-Enquadramento da Memória (Michael Pollak):  O processo pelo qual a memória individual é ajustada ou moldada pelas exigências, tabus e limites do que é socialmente aceitável em determinado grupo.
-Intersubjetividade: O espaço de construção conjunta de significados que emerge da relação e do diálogo entre entrevistador e entrevistado.
 
5. Principais Referências Biográficas e Teóricas
Se você deseja aprofundar seus estudos ou fundamentar projetos e pesquisas acadêmicas nessa área, estes são os autores e obras de referência central:
-Walter Benjamin (1892–1940)  ensaiísta, crítico literário, tradutor e filósofo marxista alemão de origem judaica. Associado à Escola de Frankfurt, legou contribuições decisivas sobre estética, memória, história e linguagem. Obra de Referência: O Narrador: Considerações sobre a obra de Nikolai Leskov (em Magia e Técnica, Arte e Política) e Sobre o Conceito de História.
-Alessandro Portelli: Historiador italiano, professor e uma das maiores autoridades mundiais no campo da História Oral e da análise subjetiva das narrativas. Defende que o valor da História Oral não está em validar os fatos exatamente como ocorreram, mas em revelar o significado que os sujeitos atribuem às suas experiências. Obra de Referência:O que faz a História Oral diferente (em Ensaios de História Oral) e Tentando Aprender a Escutar.
-Michael Pollak (1948–1992) Sociólogo austríaco radicado na França, pesquisador do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS). Investigou a memória de sobreviventes de traumas históricos, desenvolvendo os conceitos de "memórias subterrâneas", "silêncios" e "enquadramento da memória".
 Obra de Referência: Memória, Esquecimento, Silêncio (1989) e Memória e Identidade Social.
-Ecléa Bosi (1936–2017) Psicóloga, escritora, professora titular da Universidade de São Paulo (USP) e importante ativista social brasileira. Pioneira no Brasil nos estudos sobre memória, velhice, afeto e o espaço doméstico no trabalho de campo. Obra de Referência: Memória e Sociedade: Lembranças dos Velhos.
-Paul Thompson: Historiador britânico, professor emérito da Universidade de Essex e um dos pioneiros na sistematização e difusão da História Oral na Europa. Sistematizou as rotinas de pesquisa de campo, enfatizando como o ambiente da entrevista e as dinâmicas sociais afetam a fala do depoente. Obra de Referência: A Voz do Passado: História Oral.
 
Registrar a história de uma comunidade ou de uma pessoa exige uma postura de respeito ético, paixão pela linguagem e refinamento metodológico. Perceber as nuances da fala — desde a rigidez inicial do "falar para manter as aparências" até a conquista da autonomia narrativa —, valorizando os silêncios, a semiótica e o ambiente, é o que transforma uma simples gravação em um ato profundo de salvaguarda do patrimônio imaterial, da memória e da cidadania.

terça-feira, julho 28

O método de Walter Benjamin na história oral e na organização de acervos de líderes sociais

 

Aplicar o método de Walter Benjamin na história oral e na organização de acervos de líderes sociais

 Por Lúcia Tânia Augusto
Aplicar o método de Walter Benjamin na história oral e na organização de acervos de líderes sociais significa transformar o arquivo de um mero depósito de papéis em um instrumento de disputa política e de justiça histórica. Para entender essa aplicação na prática, podemos dividi-la em três eixos metodológicos[1]:
1. Na História Oral: Escutar os Silêncios e as Ruínas da Memória[2]
Em uma entrevista de história oral[3] tradicional, busca-se uma linha do tempo clara sobre as conquistas do líder ou do movimento social. Escovar a história a contrapelo[4] exige olhar para as fraturas dessa narrativa[5].
  • O método na entrevista: O entrevistador não busca apenas os momentos de vitória ou as grandes decisões institucionais. Ele foca nos momentos de crise, nos recuos, nos traumas, no medo e nas derrotas.
  • Exemplo prático: Ao entrevistar uma liderança sobre uma greve histórica ou ocupação de terras, o foco benjaminiano se desloca da mesa de negociação oficial para o cotidiano invisível. Investiga-se: Quem garantiu a alimentação da base? Como as mulheres do movimento lidaram com a violência policial nos bastidores? Quais desejos e utopias[6] da comunidade foram sufocados pelo próprio acordo final?
  • A escuta: O historiador escuta a contrapelo quando dá peso às hesitações, aos esquecimentos e às contradições do relato do líder, entendendo que o trauma e o silenciamento são marcas da violência do Estado ou das classes dominantes.
2. Nas Narrativas: Desmontar o "Cortejo Triunfal"[7] Institucional[8]
Construir uma narrativa histórica a contrapelo exige romper com o modelo biográfico tradicional do "herói perfeito"[9] e iluminar o tecido coletivo e as contradições.
  • O método na escrita: Rejeita-se a ideia de que a história das lutas sociais é uma marcha inevitável de progresso e conquistas garantidas. Cada direito conquistado é narrado não como uma concessão do Estado, mas como uma trégua temporária em uma guerra contínua.
  • Exemplo prático: Na biografia de uma liderança negra ou indígena, a narrativa tradicional tese que o líder "venceu" porque ocupou um espaço institucional (como um cargo político). A narrativa a contrapelo mostra o custo humano, a solidão e o racismo estrutural que o líder enfrentou para estar ali. Ela conecta a biografia individual às lutas ancestrais e anônimas do seu povo, demonstrando que aquele líder é o ápice de um acúmulo de forças comunitárias que a história oficial tentou apagar.
3. Na Organização de Acervos[10]: O Arquivo como Campo de Batalha
Os arquivos históricos tradicionais foram desenhados pelo Estado para preservar a memória dos governantes (os "vencedores"). Organizar o acervo de um líder social sob a ótica de Benjamin inverte essa lógica de poder.
  • O método na arquivologia: Todo documento do líder é tratado reconhecendo o que Benjamin chamou de "documento de barbárie"[11]. Cartas, panfletos e diários do líder social ganham valor justamente por expor os mecanismos de opressão e a resistência a eles.
  • Exemplo prático de arranjo[12] e descrição:
    • Critério de relevância: Em vez de priorizar apenas documentos formais (diplomas, atas de reuniões oficiais, fotos com autoridades), o acervo dá destaque igual ou maior aos "documentos efêmeros"[13] — bilhetes manuscritos trocados na clandestinidade, panfletos de tiragem rápida impressos em mimeógrafo, cartazes rasgados de protestos e listas de mantimentos para militantes presos.
    • Indexação política[14]: Na descrição das palavras-chave do acervo, não se usam apenas os termos neutros da burocracia estatal. O vocabulário técnico de indexação incorpora os termos e conceitos criados pelo próprio movimento (ex: "retomada", "aquilombamento", "justiça popular"), impedindo que o Estado colonize a linguagem[15] do acervo.
    • Preservação do conflito: Se o líder social foi monitorado por órgãos de repressão (como a ditadura militar), o acervo não descarta os relatórios da polícia. Ele os justapõe aos diários pessoais do líder, permitindo que o pesquisador veja, lado a lado, a mentira oficial do opressor e a verdade clandestina do oprimido.
Em suma, aplicar Benjamin a esse cenário é garantir que o acervo e as memórias dessas lideranças não virem peças de museu domesticadas[16], mas permaneçam como uma "centelha de esperança"[17] capaz de incendiar e mobilizar as lutas do presente.
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Notas de Rodapé Explicativas
  • [1] Eixos metodológicos: Diretrizes que dividem o campo de estudo em frentes práticas de aplicação (entrevista, escrita e arquivamento).
  • [2] Ruínas da memória: Conceito benjaminiano para os fragmentos, traumas e silêncios deixados pela história oficial que revelam a violência sofrida pelos vencidos.
  • [3] História oral: Método de pesquisa que utiliza entrevistas gravadas com testemunhas vivas para registrar experiências do passado recente sob a ótica dos sujeitos.
  • [4] Escovar a história a contrapelo: Método crítico fundamental de Benjamin (Tese VII) que rejeita a narrativa linear dos vencedores para reinterpretar o passado a partir dos oprimidos.
  • [5] Fraturas da narrativa: Contradições, pausas e lacunas em um relato oral que rompem com a aparência de uma história linear e sem conflitos.
  • [6] Utopias: Projetos e sonhos de transformação radical da sociedade que foram interrompidos ou sufocados pelo poder vigente, mas que permanecem latentes.
  • [7] Cortejo triunfal: Metáfora de Benjamin para a marcha dos vencedores ao longo da história, onde os poderosos exibem suas conquistas esmagando os derrotados.
  • [8] Narrativa institucional: História oficial produzida pelo Estado ou órgãos de poder que tende a neutralizar os conflitos históricos e celebrar a ordem vigente.
  • [9] Modelo biográfico tradicional: Estilo de escrita focado na exaltação de um "herói" individualizado, isolando-o de seu contexto e apagando as lutas coletivas.
  • [10] Acervo: Conjunto de documentos, registros, fotografias e objetos de valor histórico pertencentes a uma pessoa, grupo ou instituição.
  • [11] Documento de barbárie: Tradução da máxima de Benjamin: "Nunca há um documento de cultura que não seja, ao mesmo tempo, um documento de barbárie", indicando que toda grande obra carrega a marca da exploração humana.
  • [12] Arranjo: Processo arquivístico de organização física e intelectual dos documentos de um fundo com base em sua origem, estrutura e conteúdo.
  • [13] Documentos efêmeros: Materiais impressos ou manuscritos de uso rápido e temporário (panfletos, bilhetes), essenciais para registrar a história cotidiana das resistências.
  • [14] Indexação política: Atribuição técnica de palavras-chave baseadas no vocabulário e na identidade dos movimentos sociais, recusando a falsa neutralidade burocrática.
  • [15] Colonizar a linguagem: Processo pelo qual as classes dominantes impõem termos neutros e jurídicos para apagar o sentido político e a rebeldia das lutas populares.
  • [16] Peças de museu domesticadas: Documentos históricos que, ao passarem por arquivos tradicionais, perdem seu potencial de contestação e viram meros objetos de contemplação passiva.
  • [17] Centelha de esperança: Conceito benjaminiano para o potencial revolucionário e libertador que permanece vivo no passado, aguardando para ser despertado pelas lutas do presente.
Conceitos Benjaminianos e Filosóficos
  • Escovar a história a contrapelo: Método crítico que rejeita a narrativa dos vencedores. Busca reinterpretar o passado a partir da perspectiva das classes oprimidas.
  • Ruínas da memória: Fragmentos, traumas, esquecimentos e silêncios deixados pela história oficial. Revelam a violência sofrida pelos vencidos.
  • Cortejo triunfal: Expressão que designa a marcha dos vencedores ao longo da história. Nela, os poderosos exibem suas conquistas pisoteando os derrotados.
  • Documento de barbárie: Conceito que demonstra que todo monumento ou registro cultural carrega consigo a marca da exploração e do sofrimento humano.
  • Utopias: Desejos, projetos e sonhos de transformação radical da sociedade que foram interrompidos ou sufocados pelo poder vigente.
  • Centelha de esperança: O potencial revolucionário latente no passado que pode ser despertado no presente para mobilizar novas lutas sociais.
Metodologia de Pesquisa e Análise
  • História oral: Método de pesquisa que utiliza entrevistas gravadas com testemunhas vivas para registrar experiências do passado recente.
  • Eixos metodológicos: Diretrizes estruturadas que dividem o campo de estudo em frentes práticas de aplicação (ex: entrevista, escrita e arquivamento).
  • Fraturas da narrativa: Contradições, pausas, medos e lacunas em um relato. Rompem com a aparência de uma história linear e sem conflitos.
  • Narrativa institucional: História oficial produzida pelo Estado ou por órgãos de poder. Tende a neutralizar conflitos e celebrar a ordem vigente.
  • Modelo biográfico tradicional: Estilo de escrita focado na exaltação de um "herói" individual. Costuma apagar a importância das lutas coletivas.
Prática Arquivística e Documental
  • Acervo: Conjunto de documentos, registros, fotos e objetos de valor histórico pertencentes a uma pessoa ou instituição.
  • Documentos efêmeros: Materiais impressos ou manuscritos produzidos para uso rápido e temporário (ex: panfletos, bilhetes, cartazes de protesto).
  • Arranjo: Organização física e intelectual dos documentos de um arquivo com base em sua origem e conteúdo.
  • Indexação política: Atribuição de palavras-chave baseadas no vocabulário e nos conceitos próprios dos movimentos sociais, recusando termos puramente burocráticos.
  • Colonizar a linguagem: Processo pelo qual o Estado ou as classes dominantes impõem seus próprios termos neutros para apagar o sentido político das lutas populares.
  • Peças de museu domesticadas: Documentos históricos que perderam seu potencial de contestação e foram transformados em meros objetos de contemplação neutra.
1. Obras de Base de Walter Benjamin e Teóricos Clássicos
BENJAMIN, Walter. Sobre o conceito de história. In: BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura (Obras escolhidas v. 1). Tradução de Sérgio Paulo Rouanet. 7. ed. São Paulo: Brasiliense, 1994. p. 222-232. [1]
BENJAMIN, Walter. Passagens. Organização de Willi Bolle. Belo Horizonte: Editora UFMG; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2006.
LÖWY, Michael. Walter Benjamin: aviso de incêndio - uma leitura das teses "Sobre o conceito de história". Tradução de Wanda Nogueira Caldeira Brant. São Paulo: Boitempo, 2005. [1, 2]
POLLAK, Michael. Memória, esquecimento, silêncio. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 2, n. 3, p. 3-15, 1989.
THOMPSON, Paul. A voz do passado: história oral. Tradução de Lólio Lourenço de Oliveira. 3. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002.
2. Artigos e Estudos Aplicados a Movimentos e Lideranças Sociais no Brasil
LÖWY, Michael. “A contrapelo”: a concepção dialética da cultura nas teses de Walter Benjamin. Lutas Sociais, São Paulo, v. 17, n. 25/26, p. 10-18, 2011. Disponível em: https://revistas.pucsp.br/index.php/ls/article/view/18578. Acesso em: 28 jul. 2026. (Aplica o método à luz da história e das lutas sociais da América Latina). [1, 2]
MACHADO, Felipe Augusto. Por uma história local “a contrapelo”. Sertanias: Revista de História de Alagoas, v. 3, n. 5, p. 1-15, 2021. Disponível em: uesb.br. Acesso em: 28 jul. 2026. (Analisa a construção de contranarrativas e memórias horizontais contra memórias oficiais locais).
SANTOS, Alanderson; SILVA, Maria da Conceição. Arquivos de movimentos sociais: modelo de leitura documentária aplicado ao fundo do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). In: Práticas Arquivísticas em Movimentos Sociais e Coletivos Populares. Marília: LAL/Unesp, 2022. p. 85-104. Disponível em: https://ebooks.marilia.unesp.br/. Acesso em: 28 jul. 2026. (Estudo prático sobre indexação, cenário contextual e preservação de acervos sob uma ótica popular).
SILVA, José Maria da. “Escovar a história a contrapelo”: contribuições de Walter Benjamin para uma práxis educativa e historiográfica emancipatória. Trabalho Necessário, Niterói, v. 18, n. 35, p. 280-302, jan./abr. 2020. Disponível em: https://periodicos.uff.br/trabalhonecessario/article/view/40490. Acesso em: 28 jul. 2026. (Debate a valorização das lutas das classes subalternizadas e a oposição à história oficial).
SOUZA, Renan Santos de. Uma janela para a narrativa de Walter Benjamin: reflexões através da metodologia da história oral e do analisar da memória. Fênix: Revista de História e Estudos Culturais, Uberlândia, v. 17, n. 1, p. 112-130, 2020. Disponível em: revistafenix.pro.br. Acesso em: 28 jul. 2026. (Discute como a temporalidade e a experiência das entrevistas orais resgatam a narrativa de tradições comuns).
 

Contar histórias cantando

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