segunda-feira, julho 6

Toque, Cante, Dance e Sinta: O Universo das Histórias Acessíveis


Por Lúcia Tânia Augusto

No cenário da educação infantil e do ensino fundamental, a contação de histórias é uma das ferramentas mais potentes para o desenvolvimento cognitivo, afetivo e social. Contudo, quando olhamos para a educação inclusiva e o atendimento de estudantes com deficiência visual, o meio pedagógico frequentemente esbarra em uma dúvida: como garantir que essas narrativas alcancem plenamente a criança que não enxerga o livro impresso? Devemos criar uma história "especial" para ela?

Para responder a isso, precisamos entrelaçar as diretrizes da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), os conceitos de neuroplasticidade e o legado histórico da mediação pedagógica através dos sentidos.

1) O Legado de Vygotsky e a Pedagogia Única
Para compreender a dimensão da contação de histórias acessível, vale resgatar os estudos pioneiros do psicólogo Lev Vygotsky. Ele defendia firmemente que a educação de uma criança com deficiência não deve ser tratada por uma "pedagogia especial" isolada ou essencialmente diferente em seus princípios. Pelo contrário: ela constitui o objeto de um capítulo complexo da pedagogia geral.

Quando alinhamos essa premissa à Lei Brasileira de Inclusão (LBI) e ao conceito de Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA), compreendemos que o objetivo não é segregar o aluno em um universo puramente tátil à parte, mas sim enriquecer o ambiente comum da sala de aula. Ao expandir os canais da narrativa para além do estímulo visual, não estamos apenas incluindo o estudante cego ou com baixa visão, mas transformando a experiência de letramento de toda a turma.

2) As Artes Integradas na BNCC como Caminho Inclusivo
A BNCC propõe que o componente curricular "Arte" seja trabalhado a partir de dimensões do conhecimento que geram autonomia e fruição. É nas Artes Integradas que encontramos o arranjo perfeito para a inclusão: essa unidade temática da BNCC permite articular diferentes linguagens artísticas (artes visuais, música, dança e teatro), quebrando as barreiras do que é puramente focado na visão.

A neurociência contemporânea desconstrói o mito de que a perda da visão gera uma "compensação biológica" automática. Na verdade, o cérebro da criança com deficiência visual se reorganiza estruturalmente (processo chamado neuroplasticidade) a partir dos estímulos e da mediação cultural que ela recebe. Quando o educador utiliza a hibridização das Artes Integradas, ele oferece ao cérebro múltiplos caminhos sinápticos para construir o mesmo significado.

Os Quatro Pilares da Narrativa Multissensorial
Ao cruzar os direitos de aprendizagem da infância com as Artes Integradas, a contação de histórias divide-se em quatro eixos práticos e indissociáveis:

🌟 Módulo 1: Toque — Elementos Tridimensionais e a Estética Tátil
A imagem bidimensional do livro didático dá lugar ao volume, ao peso e à textura. O educador aprende a criar caixas de cenário (story boxes) e maquetes narrativas com elementos reais (folhas secas, cascas de árvore, pedras, tecidos). Ao explorar esses objetos com as mãos, a criança ativa as habilidades de investigação do patrimônio estético tátil, construindo conceitos abstratos por meio da exploração ativa e concreta da matéria.

🎵 Módulo 2: Cante — A Paisagem Sonora e os Processos de Criação Musical
O som substitui a expressão facial do contador e o cenário desenhado. Através da sonorização de ambientes com objetos cotidianos (o som da chuva feito com arroz, o vento simulado por uma folha de papel) e da criação de motivos rítmicos para cada personagem (um tambor para o urso, um guizo para o gato), o educador atende aos eixos de Música da BNCC, construindo mapas mentais sonoros que guiam a criança pela linha temporal da história.

💃 Módulo 3: Dance — Expressão Corporal, Propriocepção e a Linguagem da Dança
Vygotsky apontava que o desenvolvimento ocorre na interação física e social. Trazer a linguagem da Dança para a narrativa aciona o sistema proprioceptivo (a percepção do próprio corpo no espaço). Coreografias coletivas, jogos teatrais e comandos direcionais claros ("vamos nos mover como o rio, de mãos dadas para o norte") mobilizam os elementos constitutivos do movimento expressivo, gerando autonomia e socialização entre alunos videntes e com deficiência visual.

⠇ Módulo 4: Sinta — O Braille na Dimensão Lúdica do Letramento
O sistema Braille não é um idioma diferente, mas sim um código tátil de representação da língua portuguesa. No processo de alfabetização na infância, integrá-lo à contação de histórias estimula a neuroplasticidade tátil de forma lúdica. Livros acessíveis híbridos (com texto em tinta, escrita em Braille e ilustrações em relevo) fundem a literatura e as artes visuais táteis. Dinâmicas como decifrar "pistas secretas" em Braille colocam o estudante com deficiência visual no papel de protagonista do grupo.

Conclusão
"Toque, Cante, Dance e Sinta" não é apenas uma metodologia de adaptação; é a pedagogia única de Vygotsky e a interdisciplinaridade das Artes Integradas da BNCC em plena ação cultural. Quando o educador domina a arte de contar histórias utilizando o corpo, o som, o objeto e o relevo, a fronteira invisível da exclusão desaparece. Dominar essas múltiplas linguagens sensoriais é o que transforma o isolamento em participação real, garantindo que o direito à cultura e à educação de qualidade deixe de ser apenas uma expectativa jurídica e se torne uma realidade pedagógica viva dentro de sala de aula.

Glossário
Artes Integradas (BNCC): Unidade temática que explora as relações e intersecções entre as diferentes linguagens artísticas (artes visuais, dança, música e teatro), permitindo o desenvolvimento de práticas artísticas híbridas e interdisciplinares.

Célula Braille (ou Cela): Unidade fundamental do sistema Braille, composta por duas colunas verticais de três pontos cada (totalizando 6 pontos), cuja combinação permite formar 63 caracteres diferentes.

Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA): Abordagem pedagógica que visa criar ambientes de aprendizagem flexíveis, oferecendo múltiplos meios de engajamento, representação e expressão para atender à diversidade de todos os estudantes.

Diversidade Funcional: Conceito contemporâneo que substitui termos baseados em "normalidade" ou "anormalidade", reconhecendo que os corpos e mentes operam de maneiras diversas, demandando respostas pedagógicas inclusivas e universais.

Escrita em Tinta: Termo técnico utilizado na área da deficiência visual para se referir à escrita convencional (letras do alfabeto romano, números e símbolos) utilizada por pessoas videntes.

Neuroplasticidade: Capacidade do sistema nervoso de moldar-se, reorganizar-se estruturalmente e criar novos caminhos sinápticos a partir de experiências, aprendizados e estímulos sensoriais.

Pessoa com Deficiência Visual: Terminologia oficial e inclusiva adotada pela LBI para se referir tanto a pessoas cegas quanto àquelas com baixa visão ou visão subnormal.

Propriocepção: Capacidade em tempo real do sistema nervoso de reconhecer a localização espacial, a orientação e o movimento do próprio corpo sem o auxílio da visão.

Transposição Multissensorial: O ato de converter um estímulo prioritariamente visual (como a ilustração de um livro) em equivalentes táteis, auditivos ou sinestésicos, preservando o sentido e a riqueza da narrativa.

Referências Teóricas
BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2018. (Referência para as diretrizes de Arte, linguagens artísticas e a unidade temática de Artes Integradas na Educação Infantil e Ensino Fundamental).

BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Especial. Grafia Braille para a Língua Portuguesa. Brasília: MEC/SEESP, 2006.

BRASIL. Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência). Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015.

CASTILLO, R. M. O Desenho Universal para a Aprendizagem na Prática Escolar. São Paulo: Editora Inclusiva, 2021.

SÁ, Nídia Regina Limeira de. Cultura, Poder e Educação de Surdos. Manaus: Editora da Universidade Federal do Amazonas, 2006. (Conceituação linguística sobre a diferença entre línguas estruturadas e sistemas de códigos de escrita como o Braille).

VYGOTSKY, Lev Semenovich. Fundamentos de Defectologia (Psicologia e Pedagogia Especial). In: Obras Completas, Tomo V. Tradução contemporânea. (Referência teórica sobre a unificação da pedagogia especial aos princípios da pedagogia geral, o papel da mediação social e a crítica à compensação puramente biológica).

A Ponte Tátil da Inclusão: Por que o educador de apoio deve dominar o Braille e a escrita em tinta?


Por Lúcia Tânia Augusto

No cenário da educação inclusiva, a presença do profissional de apoio — seja ele professor mediador ou monitor — é um dos pilares para garantir o acesso e a permanência de estudantes com deficiência visual na escola regular. Diante dessa dinâmica, surge uma dúvida frequente no meio pedagógico: por que é exigido desse profissional o domínio pleno tanto do alfabeto convencional (em tinta) quanto do sistema Braille? Seria esse educador um profissional bilíngue?

Para responder a essa questão, é preciso mergulhar na diferenciação técnica entre línguas e sistemas de escrita, além de compreender a rotina prática da mediação escolar à luz dos fundamentos da pedagogia contemporânea.

1) O Legado de Vygotsky e a Pedagogia Única
Para compreender a dimensão desse papel, vale resgatar os estudos pioneiros do psicólogo Lev Vygotsky sobre o desenvolvimento humano. Vygotsky defendia firmemente que a educação de uma criança com deficiência não deve ser tratada por uma "pedagogia especial" isolada ou essencialmente diferente em seus princípios. Pelo contrário: ela constitui o objeto de um capítulo complexo da pedagogia geral.

Quando transportamos essa premissa para a Lei Brasileira de Inclusão (LBI), compreendemos que o objetivo final da escola não é segregar o aluno em um universo puramente tátil, mas garantir sua plena participação na diversidade funcional da sala de aula comum. Se a pedagogia é única, o educador de apoio assume a responsabilidade de ser o tradutor que unifica esses dois mundos. O domínio do Braille e da escrita em tinta é a ferramenta técnica que impede a criação de uma "fronteira invisível" entre o aluno com deficiência e o restante da turma.

2) Braille e Libras: A Diferença Entre Língua e Código
É comum traçar um paralelo entre o Braille e a Língua Brasileira de Sinais (Libras), mas eles ocupam prateleiras linguísticas completamente diferentes:

A Libras é uma língua: Ela possui estrutura gramatical própria, sintaxe, semântica e independência do português. Quem domina o português e a Libras é, de fato, bilíngue.

O Braille é um sistema de escrita tátil: Ele não possui uma gramática própria porque não é um idioma; é um código que representa a própria língua portuguesa (clicando e transcrevendo pontuações, letras e símbolos) por meio de combinações de seis pontos relevados.

Portanto, o educador que domina a escrita em tinta e o Braille não está alternando entre dois idiomas. Ele está operando como um especialista em dois suportes diferentes da mesma língua materna.

3) O Educador como Ponte Pedagógica Híbrida e Agente de Neuroplasticidade
A necessidade de dominar as duas formas de registro se justifica pelo papel de mediação que o profissional de apoio desempenha no cotidiano escolar. Longe de ser um mero assistente, esse profissional atua diretamente nos estímulos de adaptação funcional do estudante. A neurociência moderna demonstra que o aprendizado do Braille não é uma simples "compensação biológica" mecânica, mas um processo complexo de neuroplasticidade, onde as áreas corticais visuais do cérebro passam a processar estímulos táteis e linguísticos. Para guiar esse desenvolvimento, o educador precisa transitar com fluidez entre os seguintes eixos práticos:

A Via de Mão Dupla da Transcrição: O estudante com deficiência visual utiliza o Braille para expressar seu conhecimento, responder a avaliações e produzir redações. Contudo, a maioria dos professores regentes das disciplinas (como História, Matemática ou Geografia) não sabe ler o sistema tátil. É aqui que entra a competência dupla do apoio: ele lê a produção em Braille do aluno e a transcreve em tinta para que o professor da sala possa corrigir. O inverso é igualmente vital: transformar enunciados, textos e gráficos em tinta para o formato Braille ou relevo adaptado.

A Mediação no Processo de Alfabetização: Durante a fase de alfabetização, o desafio é duplo. O estudante precisa compreender a estrutura da língua e, ao mesmo tempo, tatear e registrar esse aprendizado na reglete ou na máquina Perkins. O educador de apoio precisa correlacionar o conceito abstrato da letra (sua função na palavra em tinta) com a sua exata combinação de pontos no espaço celular do Braille (como o ponto 1 para a letra "a").

Garantia de Ritmo e Socialização: A sala de aula regular é prioritariamente visual. Lousas, projeções e livros didáticos exigem uma tradução em tempo real. Ao dominar os dois universos, o monitor consegue converter instantaneamente o estímulo visual impresso em comandos pedagógicos táteis e orais, permitindo que o aluno acompanhe o mesmo ritmo de aprendizado de seus colegas de turma, transformando o conceito científico de inclusão em igualdade de oportunidades reais.

Conclusão
Embora o termo "bilíngue" não seja o tecnicamente correto para designar o profissional que domina o Braille e a escrita em tinta, a complexidade de sua atuação faz jus à magnitude do conceito. Conforme preconizava a teoria pedagógica clássica — agora respaldada pela legislação inclusiva —, este profissional prova que não há barreiras intransponíveis quando a mediação é eficiente.

Mais do que dominar códigos, esse educador atua como um tradutor de realidades sensoriais. Dominar as duas escritas é o que transforma o isolamento em participação, garantindo que o direito à educação de qualidade deixe de ser apenas uma expectativa jurídica e se torne uma realidade pedagógica concreta dentro da sala de aula.

Glossário
Célula Braille (ou Cela): Unidade fundamental do sistema Braille, composta por duas colunas verticais de três pontos cada (totalizando 6 pontos), cuja combinação permite formar 63 caracteres diferentes.

Diversidade Funcional: Conceito contemporâneo que substitui termos baseados em "normalidade" ou "anormalidade", reconhecendo que os corpos e mentes operam de maneiras diversas, demandando respostas pedagógicas universais.

Escrita em Tinta: Termo técnico utilizado na área da deficiência visual para se referir à escrita convencional (letras do alfabeto romano, números e símbolos) utilizada por pessoas videntes.

Máquina Perkins: Máquina de datilografia mecânica desenvolvida especificamente para a escrita em Braille, com seis teclas principais (uma para cada ponto da célula), uma tecla de espaço e comandos de linha.

Neuroplasticidade: Capacidade do sistema nervoso de moldar-se, reorganizar-se e criar novos caminhos sinápticos a partir de experiências, aprendizados e estímulos (como o desenvolvimento da leitura tátil).

Pessoa com Deficiência Visual: Terminologia oficial e inclusiva adotada pela LBI para se referir tanto a pessoas cegas quanto àquelas com baixa visão ou visão subnormal.

Reglete e Punção: Instrumentos manuais tradicionais para a escrita em Braille. A reglete funciona como uma régua/guia com fendas, e o punção é a ferramenta usada para marcar e puncionar os pontos no papel, de trás para frente (da direita para a esquerda).

Transcrição: O ato de converter um texto do formato visual (em tinta) para o formato tátil (Braille), ou vice-versa, preservando o conteúdo e a semântica original.

Referências Bibliográficas
BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Especial. Grafia Braille para a Língua Portuguesa. Brasília: MEC/SEESP, 2006.

BRASIL. Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência). Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015.

SÁ, Nídia Regina Limeira de. Cultura, Poder e Educação de Surdos. Manaus: Editora da Universidade Federal do Amazonas, 2006. (Utilizada para fundamentar a conceituação de Libras como língua e o bilinguismo).

VYGOTSKY, Lev Semenovich. Fundamentos de Defectologia (Psicologia e Pedagogia Especial). In: Obras Completas, Tomo V. Tradução contemporânea alinhada à pedagogia inclusiva. (Referência teórica sobre a unificação da pedagogia especial aos princípios da pedagogia geral e mediação social).

quarta-feira, julho 1

Entre o Mito e o Preconceito: Como folcloristas contemporâneos desmistificam lendas para resgatar o Bem-Viver e a inclusão plena


O Olhar Contemporâneo: Da Explicação ao Resgate da Dignidade

Se no passado o mito servia como uma ferramenta de exclusão, hoje os folcloristas contemporâneos, antropólogos e pesquisadores sociais desempenham um papel inverso e vital. Em vez de simplesmente descartar essas lendas como "crenças ignorantes do passado", a pesquisa moderna atua de forma cirúrgica para desatar os nós do capacitismo estrutural que essas histórias ajudaram a amarrar…

Olhar para a história da humanidade é perceber que, onde faltou a compreensão científica sobre a diversidade dos corpos e mentes, sobrou o recurso ao sobrenatural. Durante séculos, a sociedade mascarou sua incapacidade de acolher a diferença sob a forma de narrativas fantásticas. Onde a ignorância do passado moldou o "monstro" ou o "castigo divino", justificando o isolamento absoluto de pessoas com deficiência, os pesquisadores folcloristas contemporâneos hoje acendem a luz da razão.

O papel desses cientistas da cultura vai muito além de catalogar contos antigos: eles atuam de forma cirúrgica na linha de frente para desmistificar a fronteira tênue entre o mito e o preconceito. Como bem apontava o filósofo Walter Benjamin, "articular historicamente o passado não significa conhecê-lo 'como ele de fato foi'. Significa apoderar-se de uma recordação tal como ela lampeja num momento de perigo". No contexto da inclusão, o perigo reside em perpetuar o capacitismo estrutural disfarçado de tradição.

Ao resgatar e analisar essas lendas, pesquisadores contemporâneos — inspirados pelo legado de mestres como Câmara Cascudo— desmontam as engrenagens da exclusão histórica e abrem espaço para o conceito do Bem-Viver, onde a dignidade humana e a inclusão plena deixam de ser uma utopia legislativa e passam a ser o padrão cultural.

A Anatomia do Isolamento: 5 Mitos Desmistificados pela Ciência da Cultura

Para desconstruir o preconceito contemporâneo, precisamos compreender as marcas que as antigas narrativas deixaram no imaginário coletivo. Abaixo, cruzamos cinco lendas históricas com as realidades diagnósticas e sociais que elas tentavam ocultar:

1. O Mito dos Changelings (Europa Céltica e Nórdica)
-A Lenda: Acreditava-se que seres místicos (fadas ou duendes) roubavam bebês humanos saudáveis dos berços e deixavam em seu lugar um changeling — uma criatura disforme, que não falava, chorava excessivamente ou exibia comportamentos incompreensíveis.
-O Preconceito Oculto: O mito servia como justificativa moral para o abandono ou infanticídio de crianças nascidas com condições que hoje conhecemos como Transtorno do Espectro Autista (TEA), Síndrome de Down ou paralisia cerebral.
-A Desmistificação: Folcloristas demonstram que a lenda retirava a humanidade da criança, desobrigando a comunidade do dever do cuidado.

2. Curupira e as Malformações Congênitas (Brasil)
-A Lenda: Entidade clássica das matas brasileiras, descrita fundamentalmente por possuir os “pés virados para trás”.
-O Preconceito Oculto: Antropólogos apontam que o mito frequentemente servia para explicar indivíduos nascidos com malformações ortopédicas severas, como o pé torto congênito.
-A Desmistificação: Ao associar a anatomia divergente a uma criatura mística e perigosa, justificava-se o medo e o consequente isolamento social do indivíduo no vilarejo.

3. O Corpo-Seco (Brasil)
-A Lenda: Um homem tão cruel que, ao morrer, foi rejeitado por Deus, pelo Diabo e pela própria terra. Seu cadáver expulso da sepultura tornou-se uma criatura viva-morta, ressecada e com membros severamente atrofiados.
-O Preconceito Oculto: A lenda estigmatizava pessoas acometidas por doenças degenerativas graves, definhamento muscular ou condições raras de pele.
-A Desmistificação: Vinculava-se a atrofia física extrema a uma punição por um suposto "apodrecimento da alma" ou pecado imperdoável, legitimando o afastamento social do doente.

4. O Mito de Hefesto e a Rejeição Estética (Grécia Antiga)
-A Lenda: Hefesto, o deus do fogo e da forja, nasceu com os pés virados ou manco. Horrorizada com a imperfeição física do filho, sua própria mãe, Hera, o lançou do alto do Monte Olimpo.
-O Preconceito Oculto: O reflexo exato da prática do infanticídio e do abandono de bebês com malformações aparentes na Antiguidade clássica (como o verificado na cultura de Esparta).
-A Desmistificação: O mito legitimava a ideia de que o disforme quebrava a harmonia estética da comunidade perfeita (o Olimpo) e devia ser relegado ao isolamento subterrâneo.

5. Licantropia e a Hipertricose / Porfíria (Global)
-A Lenda: Seres humanos amaldiçoados que se transformavam em bestas peludas e caninas durante as noites de lua cheia, sendo caçados ou banidos pela civilização.
-O Preconceito Oculto: Condições genéticas e metabólicas reais, como a Hipertricose (crescimento excessivo de pelos) ou a Porfíria (que causa severas lesões na pele exposta ao sol e retração das gengivas, fazendo os dentes parecerem presas).
-A Desmistificação: Pessoas que precisavam evitar a luz do dia e o convívio comum eram transformadas em "monstros" devoradores para justificar a perseguição e o isolamento absoluto.

O Resgate pelo Bem-Viver e a Inclusão Plena

O grande ponto de virada na pesquisa folclórica contemporânea ocorre quando passamos a ler o folclore não como uma verdade cristalizada, mas como um sintoma de sua época. Como ensinava o mestre Câmara Cascudo, o folclore é a ciência da psicologia coletiva, a história não escrita de um povo.

Ao debruçarem-se sobre essas narrativas, os pesquisadores promovem o resgate da dignidade dessas figuras históricas por meio de três pilares essenciais:

a)Identificação do Viés: Revelar que o medo coletivo era, na verdade, a falta de ferramentas médicas e sociais para lidar com o desconhecido.
b)A Filosofia do Bem Viver (*Sumak Kawsay): Resgatar visões de povos tradicionais que enxergam a comunidade como um organismo completo apenas quando engloba todas as formas de existência. No Bem-Viver, a diversidade não é um fardo para a tribo, mas parte do equilíbrio da própria vida.
c)Transição para a Inclusão Plena: Substituir o antigo olhar da "piedade" (modelo médico/caritativo) ou do "medo" (modelo místico) pelo modelo psicossocial da deficiência, onde compreendemos que o impedimento está no corpo, mas a deficiência é criada pelas barreiras atitudinais e físicas da sociedade, ou seja, é uma construção social.

Ao desmistificar a fronteira entre o mito e o preconceito, a pesquisa contemporânea nos ajuda a perceber que os monstros nunca foram os corpos divergentes, mas sim os muros que construímos para isolá-los.

Glossário de Termos
-Acessibilidade Atitudinal: Eliminação de preconceitos, estigmas, estereótipos e discriminações nas atitudes humanas, garantindo a livre participação de todos na sociedade.
-Bem-Viver (Sumak Kawsay): Filosofia de vida de origem indígena andina que propõe uma forma de convivência comunitária baseada na harmonia entre os seres humanos e a natureza, onde a plenitude coletiva depende do acolhimento de todos os indivíduos.
-Capacitismo: Discriminação ou preconceito social contra pessoas com deficiência, pautado na ideia de que corpos ou mentes neurotípicas/padrão são superiores ou mais capazes.
-Changeling: Expressão do folclore europeu para designar uma criatura mística que teria sido deixada no lugar de um bebê humano roubado fadas ou demônios.
-Modelo Social da Deficiência: Abordagem que define a deficiência como o resultado da interação entre os impedimentos de um corpo e as barreiras físicas, arquitetônicas e atitudinais que a sociedade impõe, retirando a "culpa" estritamente do indivíduo.


Referências bibliográficas:
1.BENJAMIN, Walter. Magia e Técnica, Arte e Política: Ensaios sobre Literatura e História da Cultura. (Obras Escolhidas, Vol. 1). São Paulo: Brasiliense, 2012. (Referência conceitual sobre a escovação da história a contrapelo e a análise do passado através dos momentos de perigo).
2.CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. São Paulo: Global Editora, 2012. (Fonte essencial para a compreensão dos mitos do Curupira, Caipora e Corpo-Seco no território nacional).
3.DINIZ, Debora. O que é deficiência. São Paulo: Brasiliense, 2007. (Base teórica para a diferenciação entre o modelo médico e o modelo social da deficiência).
4. GUALDI-ROUSSEAU, Sophie. Changelings: De la figure mythique à l'enfant réel. Paris: L'Harmattan, 2006. (Estudo antropológico e histórico que traça a correlação direta entre o mito das crianças trocadas e o autismo na Europa antiga).
5.ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS (ONU). Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência. Nova York, 2006. (Documento base para a fundamentação da inclusão plena e direitos humanos no ambiente contemporâneo).


Por Lúcia Tânia Augusto

domingo, junho 28

O Folclore como vanguarda da Inclusão: A sabedoria da transdisciplinaridade e o direito à dignidade pela Arte

 




O folclore frequentemente sofre com o esvaziamento de seu sentido profundo, sendo reduzido a um conjunto de mitos estáticos ou manifestações datadas. No entanto, há uma premissa básica entre os sábios: o folclore é uma área de conhecimento transdisciplinar por não se deixar aprisionar por fronteiras acadêmicas rígidas, ele transita livremente entre a história, a antropologia, a linguagem e a expressão artística, revelando-se como uma teia viva de saberes interconectados. 

 Precisamente por sua natureza fluida, o folclore só sobrevive em grupos humanos maduros que compreendem a sua complexidade de se adaptar em qualquer tempo e lugar. Uma comunidade amadurecida reconhece que as tradições populares não pertencem ao passado, mas são ferramentas dinâmicas de leitura do presente. 

 

O hibridismo contemporâneo — como o cruzamento histórico entre a embolada do repente nordestino e a rítmica do RAP urbano — prova que a manifestação popular se reinventa nas periferias e nos centros para continuar narrando a crônica viva do cotidiano. Toda a fundamentação do folclore parte do acolhimento do povo. Ele nasce da necessidade humana de pertencimento, de partilha e de tradução sensível da realidade. 

 

Como bem provocava o filósofo Walter Benjamin, a verdadeira potência da narrativa reside na capacidade de transmitir a experiência viva (Erfahrung), transformando o relato individual em patrimônio coletivo. Benjamin nos ensina que a história e a cultura não devem ser vistas como monumentos intocáveis dos vencedores, mas sim escovadas "a contrapelo", resgatando as vozes silenciadas e os fragmentos da memória popular. 

 

No ecossistema da tradição oral, o narrador tece sua história com a própria matéria de sua vida, permitindo que a ancestralidade navegue sobre as águas do momento presente.

 

Quando transportamos essa matriz conceitual para o campo da educação inclusiva, podemos e devemos lançar mão do óbvio: não existe dignidade pela arte exclusivista, discriminatória e excludente. Se a raiz do saber popular é o acolhimento, qualquer prática pedagógica ou artística que segregue indivíduos com base em suas especificidades físicas, sensoriais ou intelectuais comete um anacronismo violento. 

 

A contação de histórias baseada em recursos multissensoriais e na musicalidade não é um mero acessório didático; é a garantia do direito à fruição estética. Uma estrutura artística que escolhe dialogar apenas com os padrões normativos silencia a potência da diversidade. A arte só cumpre sua função social e humanizadora quando se estabelece como uma ponte acessível a todos. Portanto, resgatar o folclore sob a ótica da transdisciplinaridade na educação inclusiva é assegurar que o direito à beleza, à memória e à identidade seja democratizado, consolidando a dignidade humana como o centro de todo fazer pedagógico e artístico. 

 

 Curso de Educação Inclusiva do dia  22 de agosto, sábado (Dia do Folclore), das 8h às 17h, na Escola Municipal Coronel José Batista! Preparem-se para um dia inesquecível com o *Módulo 2: "Como Contar Histórias Cantando",  ainda temos 20 (vinte) vagas disponíveis* para quem quiser se juntar a nós nessa jornada. Que tal convidar aquele colega educador, contador de histórias ou amigo que também é apaixonado por inclusão? Participação:  Cleide Cissa, Cassiana e Thayná, Coletivo Cantos de Congo, Expocriativas e Lúcia Tânia Augusto.💡  Inscreva-se: https://forms.gle/SurS9BK8EueVTPxM9

Glossário  

1-Transdisciplinaridade: Abordagem axiológica e cognitiva que ultrapassa as fronteiras entre as disciplinas tradicionais, buscando a unidade do conhecimento através do diálogo entre diferentes saberes para compreender a complexidade do mundo.

-Experiência (Erfahrung - em Benjamin): A sabedoria adquirida coletivamente e transmitida de geração em geração por meio da tradição oral e da narrativa, em oposição à vivência isolada, imediata e fragmentada (Erlebnis).  

-Hibridismo Cultural: Processo de mistura, fusão e interpenetração de diferentes tradições, gêneros e culturas, dando origem a novas práticas e expressões sincréticas (como a fusão da embolada com a música contemporânea urbana).  

-Educação Inclusiva: Concepção de ensino que pressupõe a reestruturação dos sistemas educacionais para acolher e garantir o acesso, a permanência e a aprendizagem de todos os estudantes, sem distinção de gênero, raça, classe social ou deficiência.  

-Fruição Estética: A capacidade de experimentar, sentir, interpretar e desfrutar de uma obra de arte ou manifestação cultural, acionando a sensibilidade, a cognição e a subjetividade individual. 

Fontes Consultadas:

-BENJAMIN, Walter. O Narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. In: Magia e Técnica, Arte e Política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 2012. (Fundamentação sobre a perda e o resgate da experiência através da tradição oral e do ato de contar histórias).  

-BENJAMIN, Walter. Sobre o Conceito da História. In: Magia e Técnica, Arte e Política. São Paulo: Brasiliense, 2012. (Subsídio para a crítica da história linear e a necessidade de escovar a cultura "a contrapelo" para incluir as margens).  

-CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. São Paulo: Global Editora, 2012. (Fundamentação sobre a mutabilidade, a dinâmica e a função social das tradições populares).  

-FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: Saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996. (Subsídio sobre a ética, o respeito à dignidade e o acolhimento dos saberes do educando).  

-NICOLESCU, Basarab. O Manifesto da Transdisciplinaridade. São Paulo: TRIOM, 1999. (Base conceitual para a definição de transdisciplinaridade e a superação da fragmentação do conhecimento).  

-SANTOS, Boaventura de Sousa. A Crueldade do Epistemicídio e a Ecologia de Saberes. Coimbra: Almedina, 2000. (Referência teórica sobre a importância do reconhecimento de saberes tradicionais não hegemônicos). 

 Por Lúcia Tânia Augusto @Epocriativa

terça-feira, junho 23

Arte Naïf, poesia do cotidiano: Viva José Assunção!

Há uma força extraordinária na arte que brota da pureza, da observação atenta do cotidiano e da ausência de amarras acadêmicas. A Arte Naïf—frequentemente chamada de arte ingênua ou primitivista—é, em sua essência, a expressão mais genuína do povo. Ela não pede licença às regras rígidas de perspectiva, sombreamento ou proporção para existir; ela simplesmente pulsa, colorida e vibrante, narrando as histórias, as festas, os afetos e a religiosidade que moldam a nossa identidade.

Celebrar a Arte Naïf é olhar para o Brasil profundo. É reconhecer o valor de artistas autodidatas que pintam não o que aprenderam nos manuais acadêmicos, mas o que sentem, lembram e vivem. E, quando falamos dessa conexão íntima entre a tela e a alma do povo mineiro, destaca-se um de seus grandes mestres: 

José Assunção de Carvalho

"José Assunção de Carvalho, filho de Josefa Sérgia e Antônio Praxedes de Carvalho, nasceu em Morro da Sela, distrito de São Domingos do Prata, e começou a estudar aos 10 anos em uma escola da zona rural, onde ficou durante apenas dois anos. Residiu em Nova Era, onde recebeu marcante influência da paisagem deixada pelo ciclo do ouro, inclusive sua degradação,[3]e em Itabira, onde teve uma barbearia.

Exerceu diversas atividades profissionais (lavrador, barbeiro, ajudante de mascate e caixa de bar) até começar, em 1953, a pintar estandartes sob encomenda, após fabricar uma para o sogro em ocasião da Festa de São Antônio.

Em 1974, a carreira decolou após uma encomenda feita em Mariana, quando vendeu 200 quadros para um único cliente e 400 para outro, logo depois, em Ouro Preto.

Foi casado com Maria Mendes de Carvalho, costureira, com a qual viveu durante 56 anos e teve 5 filhos, Maria Cornélia Carvalho dos Santos, a pintora Margarida Maria de Carvalho, José Vitorino de Carvalho, Terezinha das Graças Carvalho e Ana Lúcia Evangelista de Carvalho.[2]"

Premiações

Em 1978, recebeu premiação máxima pelo quadro Folia de Reis, em uma exposição da Asta, no Rio de Janeiro.[1]

Referências

  1. Viva Itabira (2008). Artes plásticas - José Assunção Arquivado em 2 de junho de 2013, no Wayback Machine., acesso em 5 de abril de 2011
  2. Sebastião, Walter (5 de abril de 2011). Festa para os olhos. Jornal Estado de Minas, Caderno EM Cultura
  3. Sampaio, Márcio (abril de 2011). Jose´Assunção: um pintor das festas da fé e do afeto[ligação inativa]. BDMG Cultural, acesso em 5 de abril de 2011

 Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_Assun%C3%A7%C3%A3o_de_Carvalho em 23/06/2026 


==> Do Prata para o Coração de Itabira
Nascido em 1911 no distrito de Morro da Sela, em São Domingos do Prata, José Assunção cresceu na zona rural e trabalhou na lavoura durante a juventude. De infância simples e com apenas dois anos de estudo formal, ele guardava na memória as cores da terra e as vivências do interior. 
 
Após passar por Nova Era, foi em Itabira que ele fincou raízes profundas e construiu grande parte de sua história.
Em Itabira,  trabalhou por muitos anos como barbeiro, integrando-se completamente à vida social da comunidade. Mais do que cortar cabelos, ele era uma figura de destaque na cultura local: músico de ouvido refinado, tocava violão e bandolim durante as missas na Catedral Nossa Senhora do Rosário, além de ser compositor e escritor.
 
Sua transição definitiva para as telas começou na região, inicialmente pintando estandartes e bandeiras sob encomenda para festas religiosas locais. A barbearia, as missas e o contato direto com o povo itabirano alimentaram o imaginário do artista, transformando-o em um cronista visual único do cotidiano da cidade.
 
==> A Poesia do Cotidiano em Cores
A vasta produção de José Assunção—estimada em cerca de 2 mil quadros—é um banquete visual. Suas telas são janelas para um interior vivo: procissões católicas, bailes rurais, fazendas coloniais e folias de reis.
O olhar crítico e sensível do artista também capturou as transformações geográficas da região, registrando as marcas e a degradação deixadas pelos ciclos econômicos. Na técnica, tinha o que a crítica chama de "horror ao vazio": suas telas são barrocas e feéricas, preenchidas detalhadamente com multidões festivas e elementos minuciosos, onde a presença de um característico casal de velhinhos tornou-se sua marca registrada.
 
==>O Legado da Autenticidade
José Assunção faleceu em 2003, deixando uma obra eternizada em acervos e exposições memoráveis (como as realizadas na própria Galeria do Centro Cultural Carlos Drummond de Andrade, em Itabira). Ele nos ensinou que a grande arte nasce da capacidade de olhar para a própria comunidade com orgulho e sensibilidade. Sua pintura tornou permanente o que o tempo teima em tornar transitório.
Como forma de encerrar essa justa homenagem, vale destacar algumas das telas mais emblemáticas criadas pelo mestre. Entre a imensa riqueza de seus cerca de 2 mil quadros, destaca-se a consagrada obra "Folia de Reis"—com a qual o pintor recebeu a premiação máxima em uma importante exposição nacional no Rio de Janeiro, em 1978—além de composições marcantes como "Cidade Brasileira", que ilustra perfeitamente sua habilidade única em registrar as nuances e o colorido do cotidiano urbano e rural de nosso país.

 Glossário Cultural
1-Arte Naïf (ou Primitivista): Termo de origem francesa (que significa "ingênuo") usado para descrever a arte produzida por artistas autodidatas, ou seja, que não passaram por formação acadêmica tradicional em escolas de belas artes. Caracteriza-se pela liberdade técnica, cores puras, ausência de perspectiva geométrica e forte apelo narrativo e popular.
2-Barroco / Estética Barroca (na pintura Naïf): No contexto da crítica de arte aplicada a José Assunção, refere-se ao acúmulo expressivo de personagens, detalhes e ornamentos que preenchem todo o espaço da tela, deixando poucas áreas vazias.
3-Cronista Visual: Artista que usa as imagens, traços e cores (em vez das palavras escritas) para documentar, registrar e narrar os costumes, as transformações e o cotidiano de uma época ou localidade.
4-Estandarte / Bandeira Religiosa: Peça de tecido decorada com imagens de santos, rimas ou símbolos sagrados, muito utilizada para abrir procissões, cortejos de Folia de Reis e festas de padroeiros no interior do Brasil.
5-Feérico: Algo encantador, fantástico, luminoso ou intensamente festivo. Uma obra feérica transmite uma atmosfera de celebração e vivacidade mágica por meio das cores.
6-Folia de Reis: Tradicional manifestação cultural e religiosa católica brasileira que celebra a visita dos Três Reis Magos ao Menino Jesus, envolvendo música, dança, versos e roupas coloridas.
 
Por Lúcia Tânia Augusto 

À Margem do Rio, o Fluxo da Memória: Hibridismo, Inclusão e Políticas de Fomento Cultural em Minas Gerais


"Também se conhece o rio pelo que fica à margem."
— Lúcia Tânia Augusto
 Introdução: O Rio e suas Margens
O fluxo de um rio não se define apenas pela força de sua correnteza principal, mas pela complexidade das dinâmicas que ocorrem em suas bordas. É na margem que a terra encontra a água, onde a vegetação se ampara e onde os detritos e as riquezas se depositam. 

Transpondo a metáfora para o campo das políticas públicas de cultura e do fomento em Minas Gerais, a história oficial muitas vezes se comporta como o leito central: linear, imponente e visível. No entanto, para compreender a totalidade da identidade cultural de um território, é preciso lançar o olhar para as margens.

A Epocriativa - Escritório de Projetos de Arte e Cultura nasce, em 2018, dessa premissa. Compreendendo que o folclore e a cultura popular não são relíquias estáticas de um passado intocado, a empresa foca sua atuação na pesquisa de linguagens artísticas capazes de dar voz, corpo e sentido às narrativas que historicamente foram empurradas para a periferia da visibilidade social.

 Investigar essas linguagens é, antes de tudo, um ato político de descentralização e democratização do fomento cultural. Compreenda: 
 
1. O Hibridismo Cultural e a Tradição Viva
Para que as políticas públicas de cultura superem a visão paternalista e purista do folclore, é indispensável o entendimento do conceito de "hibridismo cultural". As manifestações populares mineiras — como os Congados, as Folias de Reis e o artesanato tradicional — não sobreviveram ao tempo por estarem isoladas em redomas de vidro, mas sim pela sua capacidade crônica de contaminação e ressignificação mútua.
Como aponta Néstor García Canclini em "Culturas Híbridas, (1989), a modernidade não eliminou as culturas tradicionais; em vez disso, gerou uma reestruturação onde o culto, o popular e o massivo se interpenetram. 

O folclore, portanto, é um processo dinâmico de reconversão cultural.

 Complementarmente, Homi Bhabha, em "O Local da Cultura", (1994), introduz a noção de "entre-lugar", o espaço liminar onde as identidades são negociadas e onde o hibridismo atua como uma estratégia de resistência à hegemonia.

 Apoiar a cultura popular por meio do fomento público significa reconhecer esse "entre-lugar" como um espaço legítimo de produção de conhecimento e inovação social.


2. Da Queima dos Totens à Cristalização: 
As estratégias de colonização mais brutais para enfraquecer a unidade e a resistência de um grupo consistiam em queimar os seus totens centrais. Destruir o símbolo máximo de conexão e sagrado de uma comunidade era uma forma de desestruturar sua identidade, dispersar suas forças e impor o esquecimento. No cenário contemporâneo das políticas culturais, embora o fogo físico tenha sido deixado de lado, operam-se mecanismos mais sutis, mas igualmente perigosos, de desestruturação simbólica. Um deles é o deslocamento forçado da cultura popular em direção aos grandes centros urbanos.
Quando trazemos para as capitais, como Belo Horizonte, as manifestações populares — arrancando-as das datas em que ocorrem tradicionalmente em seus territórios —, promovemos um duplo processo de violência cultural. 
a) Por um lado, esvaziamos de significados o local de sua origem, privando a comunidade detentora de vivenciar seu próprio rito em seu tempo e espaço sagrados.
b) Por outro, promovemos uma cristalização em seu destino, transformando o que era uma prática viva, comunitária e orgânica em um espetáculo estático, pasteurizado para o consumo da plateia urbana.

A salvaguarda de uma manifestação cultural em seu território de origem não é apenas um ato de preservação, mas uma estratégia estruturante de desenvolvimento socioeconômico local capaz de fixar as novas gerações à sua própria terra. 

Quando o fomento público valida e assegura que o rito permaneça em seu lugar de pertencimento, ele transforma a tradição em um ativo vivo, gerando oportunidades reais de trabalho e renda para os nativos e atraindo investimentos diretos para a comunidade. Mais do que movimentar a economia local, a valorização da raiz territorial devolve a dignidade e o sentido de futuro aos jovens e crianças; ao perceberem que sua cultura é respeitada e autossustentável, as novas gerações deixam de ser compelidas ao êxodo urbano e passam a assumir, com orgulho, o papel de guardiãs da ancestralidade.

3. Walter Benjamin: A Reprodutibilidade e a História a Contrapelo
O aporte teórico de Walter Benjamin é fundamental para desmitificar o purismo estético e validar as novas aplicações das linguagens artísticas no campo da acessibilidade e da inclusão. Em seu célebre ensaio "A Obra de Arte na Era de Sua Reprodutibilidade Técnica" (1936), Benjamin discute a perda da "aura" do objeto artístico a partir do momento em que ele pode ser reproduzido de forma técnica. Se, por um lado, a cópia destrói a exclusividade do original, por outro, ela promove a liquidação do valor cultual da arte em prol do seu valor político, aproximando a obra das massas.

Quando a Epocriativa transpõe uma narrativa oral do folclore para um kit pedagógico tridimensional ou um recurso tátil, ocorre um processo análogo ao benjaminiano, mas de forma inversa ao esvaziamento urbano: retira-se o folclore do altar da contemplação passiva e confere-se a ele uma reprodutibilidade utilitária, democrática e inclusiva. Não se desloca o detentor da fé; traduz-se a sua essência em linguagem pedagógica.

Mais do que isso, em  "Teses Sobre o Conceito de História" (1940), Benjamin nos convoca a "escovar a história a contrapelo", formulando o conceito da "Tradição dos Oprimidos". 

A história oficial é escrita pelos vencedores, que desfilam sobre os corpos e as memórias dos vencidos. Benjamin escreve:
"A tradição dos oprimidos nos ensina que o 'estado de exceção' em que vivemos é na verdade a regra. Precisamos chegar a um conceito de história que corresponda a essa intuição."

Se os colonizadores do passado queimavam os totens para apagar as pistas da resistência, a história a contrapelo se dedica a recolher as cinzas e reconstruir a memória. O folclore e a cultura popular são, por excelência, os arquivos dessa tradição dos oprimidos. São as histórias que ficaram à margem. O fomento público à cultura não pode ser apenas um balcão de distribuição de recursos; deve ser um instrumento de reparação histórica que financia a escavação e a manutenção dessas memórias em suas próprias bases.
 
4. Práticas Inclusivas: O Curso "Como Contar Histórias"
A tradução prática desse arcabouço teórico materializa-se em ações formativas voltadas para a educação inclusiva. O curso **"Educação Inclusiva – Módulo 1: Como contar histórias..."  desenvolvido pela Epocriativa, toma para si a missão de resgatar o que está à margem sem desterritorializar a memória.
Se a história que ficou à margem precisa ser contada, ela também precisa ser acessível a todos os corpos, sentidos e mentes. 

No contexto da mediação cultural, contar histórias utilizando recursos tridimensionais e sonoros é uma forma de romper com o império do visualocentrismo, permitindo que a pessoa com deficiência visual, por exemplo, também navegue e compreenda a densidade da correnteza do rio.

A metodologia do curso ensina que o objeto tátil e a oralidade performática são ferramentas de hibridização pedagógica. Ao tocar um objeto que representa uma figura do folclore ou um elemento da memória local, o estudante reconstrói a história a partir de sua própria vivência, descentralizando o papel do narrador e tornando a aprendizagem um processo coletivo e democrático. É a pedagogia aplicada como salvaguarda da tradição dos oprimidos dentro das salas de aula, mostrando às crianças e jovens locais que a cultura de sua comunidade possui imenso valor científico, artístico e pedagógico.


Conclusão: O Fomento e o Horizonte do Bem Viver:
Conhecer o rio pelo que fica à margem exige das políticas públicas de cultura e fomento em Minas Gerais uma mudança profunda de perspectiva geográfica e social. O fomento descentralizado e focado no patrimônio imaterial é o que permite que as comunidades tradicionais alcancem a sustentabilidade, a geração de trabalho local e a autonomia em suas próprias terras, combatendo o esvaziamento econômico e demográfico do interior.

A atuação da Epocriativa aponta para um horizonte onde a gestão cultural e a educação inclusiva caminham juntas. Ao validar o hibridismo, dar escala à acessibilidade, fixar as riquezas em seus territórios de origem e escovar a memória a contrapelo, o fazer cultural se alinha à filosofia do 'Bem Viver', transformando o fomento em um direito pleno de cidadania, onde nenhuma história, jovem ou trabalhador seja deixado à margem do caminho.
 
Glossário de Termos Técnicos
 1-Aura (Benjaminiana): Conceito de Walter Benjamin que define a singularidade, a autenticidade e a distância intransponível de uma obra de arte tradicional, ligada à sua origem ritual e de contemplação única.
 2-Bem Viver (Sumak Kawsay):Filosofia de matriz indígena latino-americana que propõe uma forma de vida baseada na harmonia entre os seres humanos, a comunidade e a natureza, priorizando o bem-estar coletivo em detrimento do acúmulo material e do desenvolvimento predatório.
 3-Cristalização Cultural: Processo pelo qual uma prática cultural viva e dinâmica é paralisada, rotulada e transformada em um estereótipo estático, geralmente para atender às expectativas de consumo visual de públicos externos ao seu território original.
4-Desterritorialização: Fenômeno de perda ou enfraquecimento das relações que unem uma comunidade e suas manifestações culturais ao seu espaço geográfico e simbólico de origem.
 5-Entre-lugar: Conceito cunhado por Homi Bhabha que designa o espaço de articulação e negociação cultural que se abre entre identidades e discursos estabelecidos, onde formas de resistência e hibridismo ganham vida.
 6-Escovar a História a Contrapelo: Expressão metodológica de Walter Benjamin que propõe ler e interpretar a história a partir do ponto de vista dos vencidos, desconstruindo a narrativa linear e triunfalista das classes dominantes.
 7-Fomento Cultural: Conjunto de mecanismos financeiros e institucionais (como leis de incentivo, fundos e editais públicos) promovidos pelo Estado para apoiar, incentivar e viabilizar a produção, circulação e preservação de bens culturais.
 8-Hibridismo Cultural: Processo de mistura, interpenetração e reconversão de diferentes práticas e discursos culturais (o tradicional, o moderno, o local, o global), resultando em novas formas e linguagens dinâmicas.
 9-Sustentabilidade Intergeracional: Capacidade de manter viva uma tradição ou recurso ao longo do tempo através do envolvimento ativo, capacitação e retenção das gerações mais jovens, garantindo que elas se tornem as futuras guardiãs desse legado.
 10-Tradição dos Oprimidos: Conceito de Walter Benjamin que aponta para a persistência histórica das lutas, memórias e saberes das classes e grupos subalternizados, que resistem à opressão através de suas próprias manifestações e narrativas.


Fontes de Pesquisa e Referências Bibliográficas
 -BENJAMIN, Walter."A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica". In: Magia e Técnica, Arte e Política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Tradução de Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 2012. (Obras Escolhidas, v. 1).
 -BENJAMIN, Walter. "Teses sobre o conceito de história". In: Estéticos e Políticos: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1987.
 -BHABHA, Homi K."O local da cultura". Tradução de Myriam Ávila, Eliana Lourenço de Lima Reis, Gláucia Renate Gonçalves. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1998.
 -CANCLINI, Néstor García."Culturas híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade". Tradução de Ana Regina Lessa e Heloísa Pezza Cintrão. 4. ed. São Paulo: Editora da USP, 2003.
 EPOCRIATIVA."Relatórios técnicos, portfólio institucional e ementas de cursos de Educação Inclusiva". Belo Horizonte/Itabira, 2026.
 -AUGUSTO, Lúcia Tânia. "Registros e proposições poético-pedagógicas sobre cultura e margem". Belo Horizonte, ensaio pessoal / postagem conceitual.


link: https://luciataniaugusto.blogspot.com/2026/02/no-que-diz-respeito-aos-servicos-e.html

domingo, junho 21

O olhar da Onça: mito, contação de histórias, folclore e os caminhos da pesquisa em Minas Gerais


Por Lúcia Tânia Augusto**
Parar de ranger (afiar) os dentes e aceitar conversar com a Onça que existe em mim é o motivo da escrita desse texto. A "boca da mina" de uma itabirana resolve reverenciar alguns autores prediletos e uma temática de retorno às raízes da mineração.
 
Entenda: há um "paradoxo entre ferro & Onça" que forja a espinha dorsal de todas as pesquisas sobre o mito fundador de Minas Gerais. Escrever sobre o solo mineiro é, inevitavelmente, tatear a cicatriz aberta pela exploração mineral, em seus ciclos — uma ferida que não é apenas geográfica, mas também social, existencial e mitológica.
 
Compreender o abismo que separa a promessa do progresso, de riqueza, e o mito arquetípico da Onça é um exercício importante para a pesquisa folclórica.
 
Nesse cruzamento de ideias, as lentes de Maria Cecília Minayo, Carlos Drummond de Andrade, Guimarães Rosa e a pesquisa folclórica de Romeu Sabará nos oferecem as chaves para decifrar a nossa própria tragédia.
 
Como em Édipo e Iauaretê, cria-se uma dependência existencial onde a identidade local é mutilada e, portanto, para assumir a origem, o retorno, precisamos matar o pai dentro de nós.
 
Essa dinâmica do extrativismo mineral opera em Minas Gerais, desde sua origem, sob o signo daquilo que a tragédia grega chamava de húbris: a arrogância desmedida. É a cegueira provocada pelo lucro que faz com que a não reciprocidade subjugue as leis da natureza e do pacto comunitário. A ausência de um autêntico arrependimento estrutural, o vício pelo lucro e a reincidência de crimes ambientais não são acidentes; são o desfecho previsível e inexorável de um modelo que traiu os princípios da partilha e do Bem Viver (Sumak Kawsay).
 
Mas como a literatura e a pesquisa se encontram? Em Drummond, a escolha pela via do realismo lírico-social. Drummond não se abrigou no disfarce; ele olhou nos olhos do monstro mecânico e registrou o aqui e o agora da devastação. Diante do avanço predatório, sua poesia é de uma clareza documental e de uma urgência política cortante. Ele aponta o dedo para o Cauê destruído e chora o Rio Doce. Do local para o universal: origem versus destino — parte 1.
 
Guimarães Rosa nos enlaça com a diplomacia do Mito. O Sertão é a Onça quando ele opta pela estratégia radicalmente diferente em Meu Tio o Iauaretê: origem versus destino — parte 2. Do universal para o local.
 
Em Estas Estórias, a estratégia encontra eco no famoso conselho que o mitólogo Joseph Campbell deu a George Lucas para a criação de Star Wars: afastar a narrativa no tempo ("há muito tempo atrás...") ou no espaço. Campbell defendia que esse distanciamento desarmava os filtros ideológicos imediatos do público. Ao jogar o drama para o tempo mítico do sertão e para o mistério da metamorfose, Rosa faz o mesmo. Ele arranca o sofrimento do nível factual e o eleva ao nível universal.
 
 A Lenda da Menina-Onça e o Destino de Minas.
É nessa mesma chave mítica que os estudos e registros do pesquisador Romeu Sabará sobre a Lenda da Menina-Onça se tornam cirúrgicos. A narrativa tradicional recolhida em sua pesquisa folclórica traz um profundo alerta moral sobre as consequências da ruptura com o sagrado e com os limites impostos pela natureza.
 
A Lenda:
 "Conta-se a história de uma jovem indígena cuja mãe, por um engano fatal nascido da distração ou da desmedida em meio à floresta, quebra um resguardo ou preceito tradicional com as forças da mata. Como consequência imediata desse erro ancestral, a menina é alvo de um castigo-destino irrevogável: sua forma humana se desfaz e ela é transformada em Onça. Ao virar fera, ela passa a habitar a solidão das matas, tornando-se o próprio símbolo da natureza incompreendida e ultrajada que agora espreita aqueles que cruzam suas fronteiras."
 
O engano da mãe e o castigo da metamorfose deixam de ser um mero conto popular para se transformar em uma poderosa alegoria geopolítica da mineração.
 
O folclore na Contação de Histórias ocupa este lugar de respiro. De aceitação e não acomodação.
Longe de serem fugas da realidade, os mitos são, no fundo, as sentinelas que guardam a memória daquilo que a ganância tentou apagar.
 

Este artigo foi gerado por meio das reflexões e debates travados com Romeu Sabará na Casa Aleijadinho. Trata-se de uma introdução à proposta da palestra "O Olhar da Onça: Mito, Contação de histórias e os Caminhos da pesquisa em Minas Gerais" do Núcleo de Estudos Histórico-Culturais-Casa Aleijadinho-Ofícios (NEHCCA-O) ministrada por Lúcia Tânia Augusto, membro efetivo da Comissão Mineira de Folclore, Gestora Cultural, Analista de Políticas Públicas  e Proprietária da Epocriativa - Escritório de Projetos de Arte e Cultura, que tem como atividade principal a pesquisa em Ciências Humanas.

Fontes e Referências Bibliográficas
Se você deseja se aprofundar nos conceitos, ensaios e obras que fundamentaram esta análise, consulte as seguintes fontes:

 -ANDRADE, Carlos Drummond de. Sentimento do Mundo e Boitempo. (Poemas: "Confissão", "O Maior Trem do Mundo" e "Lira Itabirana"). Rio de Janeiro: Record.
 -CAMPBELL, Joseph. O Herói de Mil Faces*. São Paulo: Pensamento, 1995. (Para compreender a estrutura mítica e o distanciamento temporal na narrativa).
 -GALVÃO, Walnice Nogueira. "O impossível retorno". In: As formas do falso. São Paulo: Perspectiva, 1972. (Ensaio crítico seminal sobre a metamorfose e a perda da civilização em 'Meu Tio o Iauaretê').
 -MINAYO, Maria Cecília de Souza. Homens de Ferro: Estudo sobre os trabalhadores da Vale do Rio Doce. Rio de Janeiro: Dois Pontos, 1986. (Obra sociológica essencial sobre o impacto humano e identitário da mineração em Itabira).
 -ROSA, João Guimarães. "Meu Tio o Iauaretê". In: Estas Estórias*. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. (Conto que narra a transformação do zagaieiro em Onça).*
 -SABARÁ, Romeu. Estudos do Folclore Mineiro e Contos Tradicionais. (Registro etnográfico e análise mítica da lenda da Menina-Onça e os preceitos do território).
 -SÓFOCLES. Édipo Rei. Tradução de Mário da Gama Kury. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. (Texto clássico sobre a inevitabilidade do destino e a investigação de si mesmo).
 
Zagaieiro é o caçador que utiliza a zagaia como arma principal.
A zagaia é uma espécie de lança ou arpão curto, feito de madeira resistente com uma ponta de ferro ou aço afiada, usada manualmente para golpear o animal à curta distância.
No contexto histórico do Brasil — e especialmente na literatura de Guimarães Rosa, como no conto Meu Tio, o Iauaretê —, o zagaieiro era o caçador especializado em enfrentar onças.
Essa era considerada uma das formas mais perigosas e técnicas de caça: o zagaieiro não usava armas de fogo. Ele precisava atiçar a onça, esperar que ela saltasse em sua direção e, no exato momento do salto, fincar a base da zagaia no chão e direcionar a ponta de ferro no peito do animal, utilizando a própria força e o peso do salto da onça para abatê-la.
Era um ofício que exigia enorme coragem, precisão e um conhecimento profundo do comportamento do felino — características que moldam a psicologia do protagonista do conto de Rosa, que começou a vida como um "vacafeiro" (vaqueiro) e caçador de onças para os fazendeiros antes de iniciar sua metamorfose mítica. 

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