quarta-feira, julho 22

A vida, a lida, a linha é um fio.

A frase “No sertão de meu Deus, a linha é um fio!”, dita pelo narrador Riobaldo no clássico "Grande Sertão: Veredas", de João Guimarães Rosa, carrega uma das metáforas mais densas e bonitas da literatura brasileira.

Para interpretá-la, é preciso entender que o sertão para Rosa não é apenas um cenário geográfico no interior de Minas Gerais e da Bahia, mas sim uma representação do mundo, do destino humano e do mistério da existência.


A expressão nos diz sobre o seguinte:
 A Fragilidade e a Finitura da Existência: Um "fio" é algo extremamente delgado, estreito, que pode se romper com facilidade. No sertão — e por extensão, na vida —, as certezas são frágeis. A linha que separa o bem do mal, a sanidade da loucura, a vida da morte ou o destino do acaso é tênue. Um pequeno passo em falso, e tudo se rompe.

 A Linha do Horizontes e dos Caminhos: No plano físico, o sertão é imenso, plano e seco, onde o horizonte se desenha muitas vezes como um traço fino que separa a terra do céu. É também o fio dos caminhos, das picadas e das veredas que os vaqueiros, jagunços e viajantes precisam seguir sem errar, sob pena de se perderem na imensidão brava.
 
O Rigor e a Exigência das Escolhas: Viver exige precisão. Assim como costurar com uma linha fina requer atenção para não perder o ponto, as escolhas morais e existenciais no sertão não comportam margens largas de erro. A vida ali não perdoa o excesso ou o desvio; ela cobra caro de quem se perde do prumo.
Em suma, Rosa usa essa metáfora para nos lembrar de como a vida é delicada e precisa. Ela nos diz que, nas grandes travessias da existência, o caminho é estreito, as certezas são frágeis e a nossa coragem precisa ser fincada exatamente naquilo que sustenta esse fio tênue entre o medo e a esperança.

Por Lúcia Tânia Augusto 

terça-feira, julho 21

O canto do altar trípode

O Canto do Altar Trípode (Ding)
No vasto giro do tempo e da ventania,
Surge o "Ding", o sagrado altar que guia.
A imagem da mudança em dança e brilho,
Contrasta o leve e firme em seu trilho.

A Estabilidade e o Vigor
Ergue-se o altar sobre pés de firmeza,
Três fortes pernas que guardam a nobreza.
Contra a tormenta, a instabilidade e o breu,
A ordem firme na terra e no céu.

O Equilíbrio Eterno
Assim, após o momento de mutação,
Repousa a alma em santa contemplação.
No trípode sacro, o tempo faz-se eterno,
Protegendo a vida do caos moderno.

Contagem regressiva: Curso de Educação Inclusiva (Módulo 2) – "Como contar histórias cantando" no dia 22 de agosto de 2026

O fio da voz e o chão da memória: Oralidade, Folclore e Inclusão.

A oralidade e o folclore não são apenas vestígios do passado; são as fundações vivas sobre as quais construímos nossa humanidade e nossa sensibilidade. "Quando tratamos a inclusão como um 'tema menor', estamos medindo o tamanho da nossa própria empatia e revelando o quanto ainda nos falta de civilidade."

Quando pensamos na educação inclusiva, especialmente para pessoas com deficiência visual, essa oralidade ancestral ganha uma urgência poética e transformadora. Para quem navega pelo mundo primariamente através dos sentidos da audição, do tato e da imaginação, a palavra cantada e contada deixa de ser mero entretenimento e se torna um portal de pertencimento e conhecimento. O canto e o folclore oferecem uma arquitetura sonora rica em texturas, timbres e ritmos que estimulam a percepção espacial, a memória afetiva e a autonomia criativa.
Resgatar os cantos de roda, as loas do Congado e os acalantos na sala de aula inclusiva é reconhecer que a inclusão plena se faz quando validamos todas as formas de sentir e habitar o mundo.

 É transformar a contação de histórias em um espaço onde a ausência da visão é preenchida pela imensidão da escuta, onde cada som sagrado e cada retalho de memória cantada afirmam que a arte pertence a todos os corpos, sem exceção.
⏳ O narrador, a experiência e a arte de transmitir o saber.

Nenhuma reflexão sobre a arte de contar histórias estaria completa sem evocar o pensador alemão Walter Benjamin e sua célebre tese sobre "O Narrador". Benjamin nos ensina que a verdadeira contação de histórias não está ligada à mera transmissão de informações abstratas, mas sim à experiência acumulada e partilhada. Para ele, o narrador é aquele que tem "conselho" para dar — conselho não no sentido de uma resposta pronta, mas de uma orientação tecida no tear da vida vivida e transmitida de viva voz.
Na tradição dos mestres e mestras populares, e muito fortemente no universo do Congado, a narrativa é o próprio sangue da comunidade. Benjamin lamentava a perda da "arte de narrar" na modernidade industrial, sufocada pelo excesso de informações rápidas e isoladas. Resgatar a oralidade, o canto e os saberes ancestrais é, portanto, um ato benjaminiano de resgate da experiência coletiva. Na educação inclusiva, quando narramos cantando, abrimos um espaço onde a comunidade se reconhece, onde o passado e o presente se abraçam e onde a experiência do outro é acolhida por quem escuta, criando um elo indestrutível de empatia e humanidade.

 🎶 Cantar, Contar e Catar: Os verbos da memória mineira.

Na nossa tradição, a oralidade é um ato de resistência e afeto. Não por acaso, cantar, contar e catar compartilham a mesma raiz sonora e o mesmo gesto de cuidado:
 1.Cantar é dar fôlego aos sentimentos que a prosa, às vezes, não dá conta de abraçar. É o som que atravessa gerações.
 2. Contar é narrar, é manter o fio da meada, é o ofício de ser ponte entre quem veio antes e quem está chegando.
 3.Catar é selecionar,  é o gesto paciente de quem colhe ouro no cascalho, quem junta retalhos de lembranças, palavras esquecidas e cacos de histórias para formar um tecido novo e inteiro.
Quando juntamos retalhos de vivências, criamos uma colcha de retalhos sonora.

 É assim que a identidade mineira se constrói: na partilha ao redor do fogão a lenha, na praça, na varanda e nos terreiros.
 👑 A força sagrada do Congado dos Reis e Rainhas e a coragem de ser.

Se queremos falar sobre a origem da nossa voz cantada e contada, precisamos reverenciar o Congado. Ele é a matriz viva da nossa expressão cultural e espiritual.
Pensadores e estudiosos da cultura mineira e afro-brasileira — como Conceição Evaristo ao tratar da escrevivência e da memória das mulheres negras, e a teórica e dramaturga Leda Maria Martins ao analisar a oralitura e a cena ritualística — lembram-nos que manter viva a tradição do Congado em Minas Gerais tem exigido historicamente, desde o período da escravização até os dias de hoje, um ato profundo de coragem.
Proteger os tambores, assumir a própria identidade, vestir as coroas e reverenciar os ancestrais em praça pública foi, e muitas vezes ainda é, um ato de enfrentamento contra um mundo que insiste em silenciar as vozes negras e populares. Como diz o verso: "Então cante, mas lembre, para contar, cantar, é preciso calar o medo e ter coragem". 

O Congado é a prova viva de que o povo mineiro encontrou na fé festiva a coragem para transformar o sofrimento em beleza e o cerceamento em liberdade.
Esse reconhecimento institucional e cultural da importância da manifestação ganhou ainda mais força com a oficialização da data magna: o dia 07 de outubro foi instituído como o Dia Estadual do Congado (através da Lei Estadual nº 23.336/2019 em Minas Gerais, consagrando a data em homenagem à festividade e à devoção a Nossa Senhora do Rosário). Essa conquista legal coroa a luta secular dos reinados e reafirma publicamente o valor incalculável dessa herança.

O Reinado nos ensina que a contação de histórias acontece no corpo em movimento, unindo valores de vida, coletividade e ancestralidade.
 🥁 A métrica dos toques, timbres e diálogos com outros ritmos.

A tessitura sonora do Congado é uma verdadeira partitura viva, transmitida de geração em geração pela oralidade. Compreender a métrica e a dinâmica dessa manifestação revela como ela dialoga profundamente com a alma de outros ritmos brasileiros:
 
1. A métrica e o batismo do som: Os toques do Congado não seguem uma métrica mecânica ou rígida, mas sim a pulsação do corpo em cortejo. O batismo dos tambores e dos instrumentos — momento sagrado em que ganham voz e bênção — marca o nascimento de um canal de comunicação entre o plano terreno e o espiritual. O ritmo cadenciado, especialmente nas guardas de Moçambique, dita um caminhar compassado ("caminhar devagar"), onde cada passo é uma prece.

 2. Timbres, Pausas e Diálogos: O som do Congado é construído pelo contraste rico de timbres: o grave profundo das caixas maiores, o estalado seco das dobras e o chocalhar metálico das gungas. As pausas no Congado não são vazios; são momentos de respiro coletivo, escuta e reverência, semelhantes às respirações encontradas nos sambas de roda e nos tambores de crioula.

 3. Diálogos com a Matriz Afro-Brasileira: O Congado dialoga diretamente com o Candombe (considerado o ancestral comum dos reinados mineiros), com o maracatu nordestino e com os jongos espalhado no Brasil. Essa conversa se dá na circularidade da roda, na dinâmica de chamada e resposta entre o capitão e o coro, e na capacidade de transformar o batuque em um arquivo histórico em movimento, tal qual o jazz e outras expressões de resistência atlântica.

 📚 Glossário do Congado: Instrumentos e Elementos Cenográficos
Para compreender o Congado como uma narrativa em constante repetição e reinvenção que fortalece a nossa identidade, é preciso conhecer a linguagem dos seus elementos sagrados:
 -Caixas (ou Dobras): Tambores tradicionais que marcam o pulso rítmico do cortejo. O som da caixa é o batimento cardíaco da comunidade, ditando o ritmo dos passos e unificando o grupo em uma só voz.
 -Gunga / Chocalhos: Instrumentos percussivos presos aos pés dos congadeiros. Cada passo dado é, ao mesmo tempo, um som emitido, transformando o corpo do dançador em um instrumento musical vivo e espantando os maus fluidos do caminho.
 -Coras e Espadas: Elementos cenográficos e simbólicos que representam a realeza ancestral negra. Não se trata de uma imitação do poder europeu, mas da coroação de reis e rainhas pretos, devolvendo-lhes a soberania e a dignidade roubadas pelo sistema escravista.
 -Mastro (com as bandeiras de Nossa Senhora do Rosário, São Benedito e Santa Efigênia): O ponto de referência espiritual e geográfico do terreiro e da festa. O levantamento do mastro abre o tempo sagrado da celebração e protege o território da comunidade.
 -Pontos Cantados: Cantos de louvor, lamento e exaltação que funcionam como verdadeiros arquivos orais da história do povo negro em Minas Gerais, transmitindo saberes de geração em geração.
-Jongo: é uma manifestação cultural e dancística de raiz afro-brasileira, profundamente ligada aos saberes, ritos e crenças dos povos de língua banto (vindos de regiões que hoje correspondem à República Democrática do Congo e a Angola).
Sua origem no Brasil remonta ao século XIX, tendo se consolidado nas fazendas de café e de cana-de-açúcar do Sudeste brasileiro, sobretudo na região do Vale do Rio Paraíba do Sul (que abrange áreas entre o Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais).
Para os africanos escravizados e seus descendentes, o jongo funcionava não apenas como momento de lazer e culto aos ancestrais (os pretos-velhos), mas também como um sofisticado meio de resistência e comunicação sutil. Através de pontos cantados cheios de enigmas, metáforas e adivinhações — que deviam ser decifrados pelos adversários na roda —, eles trocavam informações, combinavam fugas e preservavam sua identidade e dignidade diante da opressão do cativeiro.
O  jongo é mantido vivo em comunidades rurais, quilombolas e periferias urbanas, concentrando-se principalmente na Região Sudeste do país. Os estados com registros oficiais e práticas ativas mapeadas pelo IPHAN são:
 -Rio de Janeiro: Com forte destaque no Vale do Paraíba (como em Valença, Barra do Piraí e Pinheiral) e na capital (com emblemáticos redutos como o Jongo da Serrinha, em Madureira).
 São Paulo: Praticado em municípios como Guaratinguetá, Cunha, Piquete, São Luís do Paraitinga e Lagoinha (além de iniciativas urbanas como o Jongo Dito Ribeiro em Campinas).
 Minas Gerais: Presente em cidades da região sul e de divisa, como Passa Quatro, Carmo da Cachoeira e Alfenas.
 Espírito Santo: Com forte expressão em comunidades do litoral e norte capixaba, a exemplo de Conceição da Barra e São Mateus.

🪞 Pesquisando nossos corpos e seus sonhos
por contar histórias cantando.  O primeiro instrumento que afinamos é o nosso próprio corpo. No Módulo 2, vamos olhar para as nossas camadas internas:
 1.Os sons abafados: Aqueles guardados pelo medo, pela timidez ou pelas violências silenciadas ao longo da história. Dar vazão a esses sons é parte do processo de cura e inclusão.
 2. Os sons sagrados: O murmúrio da prece, o canto de trabalho, o tom grave da terra e o agudo da esperança que habita em cada um de nós.
 3. O "Sim": A afirmação da vida, da arte como direito e da inclusão como horizonte ético. É o som que abre portas para o encontro genuíno com a pessoa com deficiência visual e com qualquer ouvinte que se deixe tocar pela narrativa.


🤱 O berço do som: Os Acalantos
Todo grande contador de histórias foi, um dia, embalado por um acalanto. A primeira música que escutamos na vida traz a promessa de segurança e pertencimento.
Em Minas, os acalantos misturam o ritmo do tear, o balanço da rede e o tom manso das avós e mães pretas que embalaram gerações. Cantar um acalanto em uma história contada é resgatar essa escuta primordial — é lembrar ao outro (e a nos mesmos) que somos acolhidos pelo som.


📖 Referências Bibliográficas e Documentos Legais
 -BENJAMIN, Walter. O Narrador: Considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. In: Magia e Técnica, Arte e Política: Ensaios sobre Literatura e História da Cultura. São Paulo: Brasiliense, 1994.
 -BRASIL / MINAS GERAIS. Lei Estadual nº 23.336, de 11 de julho de 2019. Institui o "Dia Estadual do Congado", comemorado anualmente em 07 de outubro, no Estado de Minas Gerais.
 -CASCUDO, Luiz da Câmara.Dicionário do Folklore Brasileiro.Rio de Janeiro: Ediouro, 2001.
 -EVARISTO, Conceição. "Olhos d'Água". Rio de Janeiro: Pallas Editora / Malê, 2014.
 -MARTINS, Leda Maria. Afetografias da Memória: A Oralitura e a Cena. São Paulo: Perspectiva, 2021.
 -MARTINS, Leda Maria.A cena em sombras. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1995.
 -SUASSUNA, Ariano. Iniciação à Estética. Rio de Janeiro: José Olympio, 2005.

 📅 Serviço
 Data: 22 de agosto de 2026
 Horário:Das 8h às 17h
 Local: Escola Municipal Coronel José Batista
 Facilitadoras: Cleide Cissa, Cassiana, Thayná e Tânia
 Realização: Epocriativa - Escritório de Projetos de Arte e Cultura
 Apoio:Escola Municipal Coronel José Batista e Otimize
 Participação especial: Coletivo Cantos de Congo e Expocriativas
Agradecimento: Débora Tersália, Aparecida Clodoaldo, Rosalene, Marina e Maria de Lourdes

Por Lúcia Tânia Augusto 

quarta-feira, julho 8

BI_A Estética do Invisível: 5 Lições de Contação de Histórias sob a Luz do I Ching​.


Lição 1: O Despertar da Voz Interior
Antes da palavra, existe o vazio. Para que a sua história ganhe o mundo, é preciso primeiro escutar o silêncio que habita em você e superar os medos antigos. A voz não é apenas som; é o eco da sua própria verdade que finalmente decide florescer.

🧘‍♀️
O vento passa,
a garganta se abre:
canta a nascente.

 Lição 2: A Estética das Palavras (O Efeito Pavão)
O hexagrama Bi nos ensina a honrar a beleza. A escolha de cada palavra é como o bordado em um manto sagrado. Não se trata de excesso, mas de precisão estética: escolher o adjetivo que brilha, o substantivo que evoca texturas e cores, revelando a exuberância oculta na simplicidade.

🦚
Gota de orvalho;
o pavão abre o leque,
o sol reflete.

Lição 3: O Ritmo e a Pausa Cósmica
A pacificação alcançada no estágio anterior se traduz em controle do tempo. O bom contador não corre; ele caminha com elegância pelo tabuleiro do tempo. A pausa é o momento onde a imaginação do ouvinte trabalha. É o silêncio grávido de significado.

🍃
Folha que cai,
no espaço entre os galhos:
o mundo para.

Lição 4: A Expressividade Corporal
O corpo é o templo onde a história se materializa. Um gesto sutil com as mãos desenha castelos no ar; o erguer de uma sobrancelha muda o destino de um reino. A beleza da forma exterior (Bi) se manifesta quando o invisível ganha carne e movimento.

🌬
Galho que dança,
sombra desenha na terra
vôo de garça.

Lição 5: A Conexão com o Público
O ápice do desenvolvimento. Não há mais distinção entre quem conta e quem ouve. A "decoração" cumpriu seu papel: atraiu o olhar, tocou o coração e uniu as almas em uma mesma atmosfera pacífica e mágica. O círculo se fecha; a história agora pertence a todos.

🔥
Fogo de lenha,
olhares se cruzam sós:
somos um eco.
 
Por Lúcia Tânia Augusto 

A Corpa que Sente, Liberta e Ensaia: A Contação de Histórias na Educação Inclusiva entre a Tradição do Congado/Griot, Benjamin, Freire e Boal

> *— Ô, viva a Rainha, viva o Rei!*
> *— Ô, viva a Rainha, viva o Rei!*
> *Viva os três Reis do Oriente,*
> *Viva a coroa de El-Rei!*
> *(Canto Tradicional do Congado Mineiro)*
Levar a contação de histórias a sério no ambiente escolar significa despi-la da carcaça do mero entretenimento infantilizado ou da atividade puramente ilustrativa. Quando essa prática cruza os portões da escola e se depara com a realidade de grupos vulnerabilizados — especialmente quando nos voltamos às **pessoas com deficiência visual** —, o ato de narrar se transforma em um território de disputa existencial, política e pedagógica.
Contar histórias na perspectiva da educação inclusiva exige compreender que a palavra e o saber não dependem da hegemonia da visão. Historicamente, o sistema educacional ocidental estruturou-se de forma estritamente visual, marginalizando quem lê o mundo por outras vias sensoriais.
É na urgência de romper com esse olhar colonizador que emerge a centralidade da **corpa**. A corpa (grafada no feminino como insurgência política) não é apenas um organismo biológico passivo; ela é presença física radical, território de memória, ancestralidade e resistência. Na escola inclusiva, a corpa da pessoa com deficiência visual é aquela que pensa, cria e se emancipa através do toque, da escuta profunda, do gesto e do movimento.
Para estruturar essa prática pedagógica, a **tradição do Congado/Griot** — com sua performance total que funde canto, instrumentação, a força dos refrões e a realeza corporal — une-se aos horizontes críticos de **Walter Benjamin**, **Paulo Freire** e **Augusto Boal**.
## 1. A Tradição do Congado/Griot e a Performance Total: A Palavra que se Toca
Na África Ocidental, os *Griots* são as bibliotecas vivas que guardam a memória coletiva através de uma **performance total e indissociável** (som, canto, poesia e dança). Essa tecnologia ancestral da palavra e do corpo cruzou o Atlântico e encontrou sua morada definitiva na **mineiridade profunda da tradição do Congado**.
Assim como os antigos mestres africanos, os Mestres de Ginga, Capitães de Linha e as Rainhas e Reis Congadeiros de Minas Gerais atuam como os legítimos guardiões da genealogia e da dignidade de seus territórios. No terreiro e nas ruas, o Congado opera uma dobra no tempo: a história não se escreve com tinta, mas sim com o ferro dos gungas, o couro dos tambores e a imponência dos mantos e coroas.
Aqui, a memória não se limita à manifestação da dor histórica; ela se derrama nas ruas como **celebração, beleza e ocupação artística**. Há uma profunda indissociabilidade entre a **ética da resistência e a estética da festa**. Ao coroar seus Reis e Rainhas, o Congado devolve a soberania roubada aos corpos negros e transforma o espaço urbano em um palco de orgulho, onde as cores das fardas, as fitas espalhadas ao vento, os passos coreografados e o brilho dos altares móveis proclamam que aqueles corpos são realeza viva.
É nesse cenário celebrativo que **o canto e a repetição dos refrões** ganham sua máxima função pedagógica e ritual. A estrutura responsorial — onde o capitão puxa o fundamento e o terno responde em uníssono com o refrão — funciona como uma tecnologia de acolhimento e fixação da memória. A repetição rítmica do refrão não é mera redundância; é o dispositivo que gera a conexão coletiva, que sintoniza as corpas na mesma frequência e que garante que ninguém fique de fora da história.
Para a pessoa com deficiência visual, a **tradição do Congado/Griot** é a validação definitiva de que a história é um fenômeno multissensorial, estético e sonoro. Quando o Curso de Educação Inclusiva propõe a contação de histórias mediada por objetos tridimensionais, ele bebe diretamente dessa fonte vibrante: a narrativa precisa ser tateada, ouvida, sentida no peso do objeto, na textura rica dos tecidos, no relevo das insígnias e na estrutura previsível e acolhedora dos refrões.
O refrão repetido na sala de aula permite que o estudante com deficiência visual se aposse da narrativa imediatamente; ele deixa de ser um mero espectador passivo do que os outros veem e passa a ser o coautor que canta, que prevê o ritmo e que conduz o desenrolar da história. A corpa do estudante lê a tridimensionalidade do objeto e a poética do espaço da mesma forma que a comunidade congadeira sente a rua ser reconquistada pelo som, pela cor e pelo eco do refrão.
## 2. Walter Benjamin e o Resgate da Experiência Sensorial
Essa função social e performática dialogue diretamente com o filósofo Walter Benjamin em seu ensaio *O Narrador* (1936). Benjamin aponta que a modernidade provocou uma visível "baixa no preço da experiência", substituindo a sabedoria da tradição oral pela efemeridade da informação descartável e puramente visual das mídias impressas.
O Griot e o mestre congadeiro, assim como o educador inclusivo, são a antítese desse esvaziamento. Na escola, reativar a contação de histórias sob a ótica benjaminiana significa devolver ao estudante o direito à experiência viva.
Para as pessoas com deficiência visual, a experiência é essencialmente tátil-auditiva. Ao afastar o foco do livro puramente textual ou da tela e trazer a narrativa para o campo do compartilhamento oral, do canto coletivo e da exploração de objetos físicos, a escola combate o isolamento e valida a sabedoria acumulada por essas corpas. A história deixa de ser um dado abstrato e passa a ser **experiência partilhada**.
## 3. Paulo Freire: A Corpa Consciente e a Práxis Libertadora
Em *Pedagogia do Oprimido* (1968), Paulo Freire condena a "educação bancária", na qual o estudante é visto como um vaso vazio a ser preenchido por conteúdos alienantes. No contexto da deficiência visual, a educação bancária atua de forma perversa quando tenta forçar o aluno a compreender o mundo apenas através de descrições visuais abstratas que não fazem sentido para sua realidade corpórea.
Freire defende que "pronunciar o mundo" é um direito de todos. O fazer inclusivo na escola sintoniza-se com Freire quando adota os **temas geradores** — a própria realidade existencial e sensorial dos estudantes — como ponto de partida.
Ao manusear maquetes, réplicas e objetos tridimensionais que contextualizam a narrativa, a corpa do estudante com deficiência visual compreende a matéria e faz a transição da consciência ingênua para a consciência crítica. Ele não é mais um receptor passivo de conceitos visuais alheios; ele é um sujeito que reconstrói a história a partir de sua própria percepção. A narrativa torna-se **práxis**: reflexão e ação voltadas à emancipação social.
## 4. Augusto Boal e o Teatro Fórum: A Corpa que Intervém e Ensaia
A tradição oral e festiva não é um fóssil estático; ela se atualiza no presente por meio do improviso e da resposta imediata ao ambiente. É nessa flexibilidade que encontramos o diálogo com o **Teatro Fórum** de Augusto Boal, vertente do *Teatro do Oprimido*.
No Teatro Fórum, encena-se uma opressão real vivida pelo público, mas a história não caminha para um fim trágico inevitável. O público é convocado a interromper a ação, entrar no espaço cênico e substituir o protagonista oprimido, ensaiando alternativas reais para romper o ciclo de exclusão. Boal afirmava que *"o corpo pensa"*.
Levar o Teatro Fórum para a contação de histórias inclusiva significa transformar o ouvinte com deficiência visual em **espect-ator**. No espaço da sala de aula, as barreiras físicas são eliminadas e o estudante é convidado a ocupar o centro do espaço.
Diante de uma narrativa que aborda a exclusão, o preconceito ou a falta de acessibilidade, os estudantes interrompem o fluxo e utilizam suas corpas e vozes para propor reescritas dinâmicas. O aluno com deficiência visual entra em cena, interage com os objetos tridimensionais do cenário, altera a dinâmica espacial e propõe saídas coletivas. A corpa que não vê com os olhos passa a ver com a ação, transformando o espaço pedagógico em um laboratório de emancipação política.
## Conclusão: O Terreiro da Educação Inclusiva
A complexidade de estruturar uma contação de histórias séria para pessoas com deficiência visual reside em entender que o "Era uma vez" é um ato político de profunda responsabilidade ética. Ao amalgamar a tradição dos Griots e Congadeiros com o pensamento de Benjamin, Freire e Boal, assume-se que a inclusão não é um mero protocolo assistencialista, mas sim uma revolução epistemológica.
Contar histórias com suportes tridimensionais e performance total é:
 1. Guardar a memória viva através do tato, do som, **do canto e dos refrões partilhados** (**Tradição do Congado/Griot**);
 2. Partilhar sabedoria contra o esvaziamento da experiência moderna (**Benjamin**);
 3. Dialogar a partir da realidade sensorial do estudante para conscientizar (**Freire**);
 4. Ensaiar a transformação social ocupando o espaço com autonomia (**Boal**).
Converte-se, assim, a sala de aula em um terreiro de emancipação, onde a corpa dissidente da pessoa com deficiência visual deixa de ser lida pela falta e passa a ser celebrada pela sua absoluta potência de narrar, festejar, sentir e transformar o mundo.
## Glossário de Conceitos-Chave
 * **Corpa:** Conceito poético e político que subverte o gênero gramatical masculino da palavra "corpo". É utilizado para dar visibilidade às existências dissidentes (mulheres, negros, pessoas com deficiência, LGBTQIA+) e para afirmar o corpo como um território político de memória, presença e produção de saber.
 * **Tradição do Congado/Griot:** Conceito que unifica a ancestralidade dos contadores de memória da África Ocidental (*Griots*) à resistência e vivência ritualística dos reinados afro-mineiros (*Congado*). Define uma tecnologia social e pedagógica baseada na oralidade, na transmissão de saberes e na *performance total*. Destaca-se pelo entrelaçamento entre a **ética** (a preservação da dignidade e da identidade) e a **estética** (a ocupação festiva e artística das ruas através de Reis, Rainhas, cantos, refrões repetidos e ritmos), provando que o corpo que resiste é também o corpo que celebra e cria beleza.
 * **Performance Total:** Conceito que define a indissociabilidade entre diferentes linguagens artísticas (palavra, canto, música instrumental e dança) em um único ato expressivo, característica central da atuação de Griots e Congadeiros.
 * **Esvaziamento da Experiência (Benjamin):** Conceito que descreve a perda crônica, na modernidade, da capacidade humana de comunicar vivências profundas e sabedorias comunitárias, sendo substituída pela informação rápida e superficial.
 * **Educação Bancária (Freire):** Modelo educativo opressor no qual o educando é visto como um receptáculo passivo onde o educador deposita conhecimentos formatados e distantes de sua realidade.
 * **Tema Gerador (Freire):** Situações-limite e contradições extraídas da realidade concreta e do universo sensorial dos educandos que servem de base para o processo de conscientização política.
 * **Espect-Ator (Boal):** Participante que deixa a postura passiva de mero espectador para intervir ativamente na ação dramática, transformando-se em agente de modificação cênica e social.
 * **Coringa (Boal):** O facilitador ou mediador que orquestra o debate e as intervenções entre os espect-atores e os atores, provocando o grupo a buscar soluções sem impor respostas prontas.
## Referências Bibliográficas
 * BÂ, Amadou Hampâté. O homem que preserva a memória viva da África. **O Correio da Unesco**, Paris, v. 33, n. 9, p. 23-29, 1980.
 * BENJAMIN, Walter. O Narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. *In*: **Magia e Técnica, Arte e Política**. Tradução de Sérgio Paulo Rouanet. 7. ed. São Paulo: Brasiliense, 1994. p. 197-221. (Obras Escolhidas, v. 1).
 * BOAL, Augusto. **Teatro do Oprimido e outras poéticas políticas**. 7. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1991.
 * FREIRE, Paulo. **Pedagogia do Oprimido**. 17. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
 * MARTINS, Leda Maria. **Afrografias da memória**: o reinado do Rosário no Jatobá. São Paulo: Perspectiva, 1997.
 * SANTOS, Boaventura de Sousa. **Epistemologias do Sul**. Coimbra: Almedina, 2010.

terça-feira, julho 7

4 motivos para você participar do Módulo 2 do Curso de Educação Inclusiva "Como contar histórias cantando" dia 22 de agosto, sábado, na Escola Municipal Coronel José Batista



🎶 22 de agosto – Dia do Folclore

A Epocriativa, em parceria com a Escola Municipal Coronel José Batista, o Coletivo Cantos de Congo e as Expocriativas, convida você para participar do Curso de Educação Inclusiva – Módulo 2: "Como Contar Histórias Cantando".


 

Nesta edição, temos uma grande novidade!

As educadoras Cleide Cissa, Cassiana e Thayná – mulheres protagonistas e empoderadas com deficiência visual – conduzirão atividades práticas que demonstram, na vivência, o potencial da educação inclusiva.

Durante o curso, elas irão mediar:
🎵 Dinâmicas musicais;
📖 Contação de histórias cantadas;
⠿ Introdução lúdica ao Sistema Braille;
🧩 Brincadeiras de memória inspiradas no folclore brasileiro.

Ainda não fez sua inscrição? Confira 5 motivos para participar:

1️⃣ Método estruturado e fundamentado
O curso foi construído a partir de encontros semanais de planejamento entre Cassiana, Thayná, Cleide Cissa e Tânia, alinhando teoria e prática às diretrizes da BNCC, da Lei Brasileira de Inclusão (LBI), do Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA) e às orientações do Ministério da Educação.

2️⃣ Mais segurança para a prática inclusiva
A formação ajuda o educador a superar o receio de trabalhar com estudantes com deficiência visual, mostrando que inclusão não significa criar atividades paralelas, mas construir experiências compartilhadas por toda a turma.

3️⃣ Inovação com simplicidade
Neuroplasticidade, Artes Integradas, musicalidade e aprendizagem sensorial são apresentados de forma acessível, prática e interdisciplinar, ampliando possibilidades pedagógicas e rompendo paradigmas tradicionais.

4️⃣ Aprendizagem viva por meio da música
Neste módulo, o canto, a oralidade e a musicalidade tornam-se instrumentos de inclusão. Em parceria com o Coletivo Cantos de Congo, os participantes vivenciarão experiências que unem cultura popular, memória, ritmo e educação.

5️⃣ Inclusão que gera pertencimento
O curso fortalece atitudes de empatia, cooperação e acolhimento, utilizando o Braille de forma lúdica e mostrando caminhos para eliminar barreiras e promover a participação efetiva das pessoas com deficiência visual na sala de aula.


 

👩🏽‍🏫 Instrutoras

Cassiana • Cleide Cissa • Thayná • Tânia

📅 Data: 22 de agosto de 2026
🕗 Horário: das 8h às 12h e das 13h às 17h
Carga horária: 8 horas
📍 Local: Escola Municipal "Coronel José Batista"
💰 Matrícula: R$ 20,00

📝 Inscrições: https://forms.gle/kiwrzci4oY76fMcY7

Realização: Epocriativa
Participação: Coletivo Cantos de Congo e Expocriativas
Apoio: Escola Municipal "Coronel José Batista" e Otimize.


 

segunda-feira, julho 6

Toque, Cante, Dance e Sinta: O Universo das Histórias Acessíveis


Por Lúcia Tânia Augusto

No cenário da educação infantil e do ensino fundamental, a contação de histórias é uma das ferramentas mais potentes para o desenvolvimento cognitivo, afetivo e social. Contudo, quando olhamos para a educação inclusiva e o atendimento de estudantes com deficiência visual, o meio pedagógico frequentemente esbarra em uma dúvida: como garantir que essas narrativas alcancem plenamente a criança que não enxerga o livro impresso? Devemos criar uma história "especial" para ela?

Para responder a isso, precisamos entrelaçar as diretrizes da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), os conceitos de neuroplasticidade e o legado histórico da mediação pedagógica através dos sentidos.

1) O Legado de Vygotsky e a Pedagogia Única
Para compreender a dimensão da contação de histórias acessível, vale resgatar os estudos pioneiros do psicólogo Lev Vygotsky. Ele defendia firmemente que a educação de uma criança com deficiência não deve ser tratada por uma "pedagogia especial" isolada ou essencialmente diferente em seus princípios. Pelo contrário: ela constitui o objeto de um capítulo complexo da pedagogia geral.

Quando alinhamos essa premissa à Lei Brasileira de Inclusão (LBI) e ao conceito de Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA), compreendemos que o objetivo não é segregar o aluno em um universo puramente tátil à parte, mas sim enriquecer o ambiente comum da sala de aula. Ao expandir os canais da narrativa para além do estímulo visual, não estamos apenas incluindo o estudante cego ou com baixa visão, mas transformando a experiência de letramento de toda a turma.

2) As Artes Integradas na BNCC como Caminho Inclusivo
A BNCC propõe que o componente curricular "Arte" seja trabalhado a partir de dimensões do conhecimento que geram autonomia e fruição. É nas Artes Integradas que encontramos o arranjo perfeito para a inclusão: essa unidade temática da BNCC permite articular diferentes linguagens artísticas (artes visuais, música, dança e teatro), quebrando as barreiras do que é puramente focado na visão.

A neurociência contemporânea desconstrói o mito de que a perda da visão gera uma "compensação biológica" automática. Na verdade, o cérebro da criança com deficiência visual se reorganiza estruturalmente (processo chamado neuroplasticidade) a partir dos estímulos e da mediação cultural que ela recebe. Quando o educador utiliza a hibridização das Artes Integradas, ele oferece ao cérebro múltiplos caminhos sinápticos para construir o mesmo significado.

Os Quatro Pilares da Narrativa Multissensorial
Ao cruzar os direitos de aprendizagem da infância com as Artes Integradas, a contação de histórias divide-se em quatro eixos práticos e indissociáveis:

🌟 Módulo 1: Toque — Elementos Tridimensionais e a Estética Tátil
A imagem bidimensional do livro didático dá lugar ao volume, ao peso e à textura. O educador aprende a criar caixas de cenário (story boxes) e maquetes narrativas com elementos reais (folhas secas, cascas de árvore, pedras, tecidos). Ao explorar esses objetos com as mãos, a criança ativa as habilidades de investigação do patrimônio estético tátil, construindo conceitos abstratos por meio da exploração ativa e concreta da matéria.

🎵 Módulo 2: Cante — A Paisagem Sonora e os Processos de Criação Musical
O som substitui a expressão facial do contador e o cenário desenhado. Através da sonorização de ambientes com objetos cotidianos (o som da chuva feito com arroz, o vento simulado por uma folha de papel) e da criação de motivos rítmicos para cada personagem (um tambor para o urso, um guizo para o gato), o educador atende aos eixos de Música da BNCC, construindo mapas mentais sonoros que guiam a criança pela linha temporal da história.

💃 Módulo 3: Dance — Expressão Corporal, Propriocepção e a Linguagem da Dança
Vygotsky apontava que o desenvolvimento ocorre na interação física e social. Trazer a linguagem da Dança para a narrativa aciona o sistema proprioceptivo (a percepção do próprio corpo no espaço). Coreografias coletivas, jogos teatrais e comandos direcionais claros ("vamos nos mover como o rio, de mãos dadas para o norte") mobilizam os elementos constitutivos do movimento expressivo, gerando autonomia e socialização entre alunos videntes e com deficiência visual.

⠇ Módulo 4: Sinta — O Braille na Dimensão Lúdica do Letramento
O sistema Braille não é um idioma diferente, mas sim um código tátil de representação da língua portuguesa. No processo de alfabetização na infância, integrá-lo à contação de histórias estimula a neuroplasticidade tátil de forma lúdica. Livros acessíveis híbridos (com texto em tinta, escrita em Braille e ilustrações em relevo) fundem a literatura e as artes visuais táteis. Dinâmicas como decifrar "pistas secretas" em Braille colocam o estudante com deficiência visual no papel de protagonista do grupo.

Conclusão
"Toque, Cante, Dance e Sinta" não é apenas uma metodologia de adaptação; é a pedagogia única de Vygotsky e a interdisciplinaridade das Artes Integradas da BNCC em plena ação cultural. Quando o educador domina a arte de contar histórias utilizando o corpo, o som, o objeto e o relevo, a fronteira invisível da exclusão desaparece. Dominar essas múltiplas linguagens sensoriais é o que transforma o isolamento em participação real, garantindo que o direito à cultura e à educação de qualidade deixe de ser apenas uma expectativa jurídica e se torne uma realidade pedagógica viva dentro de sala de aula.

Glossário
Artes Integradas (BNCC): Unidade temática que explora as relações e intersecções entre as diferentes linguagens artísticas (artes visuais, dança, música e teatro), permitindo o desenvolvimento de práticas artísticas híbridas e interdisciplinares.

Célula Braille (ou Cela): Unidade fundamental do sistema Braille, composta por duas colunas verticais de três pontos cada (totalizando 6 pontos), cuja combinação permite formar 63 caracteres diferentes.

Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA): Abordagem pedagógica que visa criar ambientes de aprendizagem flexíveis, oferecendo múltiplos meios de engajamento, representação e expressão para atender à diversidade de todos os estudantes.

Diversidade Funcional: Conceito contemporâneo que substitui termos baseados em "normalidade" ou "anormalidade", reconhecendo que os corpos e mentes operam de maneiras diversas, demandando respostas pedagógicas inclusivas e universais.

Escrita em Tinta: Termo técnico utilizado na área da deficiência visual para se referir à escrita convencional (letras do alfabeto romano, números e símbolos) utilizada por pessoas videntes.

Neuroplasticidade: Capacidade do sistema nervoso de moldar-se, reorganizar-se estruturalmente e criar novos caminhos sinápticos a partir de experiências, aprendizados e estímulos sensoriais.

Pessoa com Deficiência Visual: Terminologia oficial e inclusiva adotada pela LBI para se referir tanto a pessoas cegas quanto àquelas com baixa visão ou visão subnormal.

Propriocepção: Capacidade em tempo real do sistema nervoso de reconhecer a localização espacial, a orientação e o movimento do próprio corpo sem o auxílio da visão.

Transposição Multissensorial: O ato de converter um estímulo prioritariamente visual (como a ilustração de um livro) em equivalentes táteis, auditivos ou sinestésicos, preservando o sentido e a riqueza da narrativa.

Referências Teóricas
BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2018. (Referência para as diretrizes de Arte, linguagens artísticas e a unidade temática de Artes Integradas na Educação Infantil e Ensino Fundamental).

BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Especial. Grafia Braille para a Língua Portuguesa. Brasília: MEC/SEESP, 2006.

BRASIL. Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência). Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015.

CASTILLO, R. M. O Desenho Universal para a Aprendizagem na Prática Escolar. São Paulo: Editora Inclusiva, 2021.

SÁ, Nídia Regina Limeira de. Cultura, Poder e Educação de Surdos. Manaus: Editora da Universidade Federal do Amazonas, 2006. (Conceituação linguística sobre a diferença entre línguas estruturadas e sistemas de códigos de escrita como o Braille).

VYGOTSKY, Lev Semenovich. Fundamentos de Defectologia (Psicologia e Pedagogia Especial). In: Obras Completas, Tomo V. Tradução contemporânea. (Referência teórica sobre a unificação da pedagogia especial aos princípios da pedagogia geral, o papel da mediação social e a crítica à compensação puramente biológica).

A vida, a lida, a linha é um fio.

A frase “No sertão de meu Deus, a linha é um fio!”, dita pelo narrador Riobaldo no clássico "Grande Sertão: Veredas", ...