terça-feira, abril 21

Por que voltei a escrever para crianças: entre caminhos, encontros e um chamado

 

Entre 2023 e 2024, vivi um dos períodos mais intensos e transformadores da minha vida. Morei por mais de um ano em Sabará, e ali comecei, sem saber, a trilhar o caminho que me trouxe de volta à escrita.

Mais impactante foi perceber, nesse tempo, como a ideia de racismo, patrimônio e gestão cultural estão intimamente ligadas à educação inclusiva. 


 

Atuei como receptivo na Casa Aleijadinho, mediando histórias, patrimônios e memórias. Ao mesmo tempo, fui professora do Ensino Fundamental II na Escola Edith de Assis Costa, no bairro periférico Rosário I. Paralelamente, desenvolvi experiências de Afroturismo com membros da Pastoral Afro, articulando território, cultura e identidade.

Eu estava exausta. Trabalhava intensamente para me manter, enquanto vivia minha primeira experiência real com captação de recursos via editais. Era um mundo conturbado, cansativo — mas também iniciático e profundamente fascinante. Havia algo pulsando ali: histórias, pessoas, perguntas.

Mas a verdade é que esse caminho não começou ali.

Sou professora licenciada em História, formada em 1995 pela Faculdade de Ciências Humanas de Itabira. Ao longo dos anos, fui tecendo uma formação que atravessa educação, cultura e gestão: Especialista em Educação e Treinamento pela UNI-BH (1998), Especialista em Administração Pública com ênfase em Gestão Estratégica em Recursos Humanos pela Fundação João Pinheiro (2001), além de Gestora Cultural pela Fundação Clóvis Salgado (2000).

Em 2001, atuei como Supervisora Técnica da Pesquisa Origem & Destino. Mais tarde, em 2013, fui Consultora Técnica no Atlas de Desenvolvimento Humano, desdobramento de uma trajetória iniciada ainda em 2007, com os projetos desenvolvidos na Amorita, especialmente aqueles ligados à valorização dos Griots.

Meu marco acadêmico mais simbólico talvez tenha sido entre 2003 e 2004, quando cursei disciplinas isoladas na Universidade Federal de Minas Gerais: História do Trabalho nas Sociedades Pré-Industriais, Iconografia da África e Afro-América e Sociologia da Religião. Esses estudos ampliaram profundamente minha forma de compreender o mundo, a imagem, a cultura e as narrativas.

Em 2004, fui convidada pela Sarau Produções para atuar como pesquisadora e assistente de direção no espetáculo “Grande Otelo – Eta Moleque Bamba – 90 anos”, mergulhando ainda mais na potência da arte como linguagem. Também atuei como pesquisadora para o CRAP – Centro de Referência das Artes Plásticas em Minas Gerais e, posteriormente, em Belo Horizonte, como assistente de pesquisa na exposição de Márcio Sampaio – 50 anos e no Bolsa Pampulha (2010).

Minha relação com a narratologia não veio apenas da teoria, mas da prática: das pesquisas e experiências como professora de Oratória Criativa e Contação de Histórias, e também da escrita dos meus próprios livros. Foi esse percurso que, mais tarde, me levou a integrar a Comissão Mineira de Folclore, em 2012, aprofundando ainda mais meu olhar sobre mitos, cultura e tradição.

E então, em meio a tudo isso, algo me atravessou de forma definitiva.

Uma pergunta.

A pergunta de uma menina de cinco anos.

Alice não conseguiu falar em voz alta. Pediu ajuda à avó para escrever. E naquele papel estava registrado algo que eu nunca mais consegui esquecer:

"Como eu faço para não ficar triste por ser preta?"

Durante meses, guardei aquele papel. Não como lembrança — mas como um limiar.

Foi ali que algo mudou.

Compreendi que toda a minha trajetória — a docência, a pesquisa, o turismo, a cultura, o folclore — estava me preparando para escutar melhor. Para entender que a forma como narramos o mundo constrói o modo como as crianças se percebem dentro dele.

E foi por isso que voltei a escrever.

Voltei porque é na infância que o caráter começa a ser tecido.
Voltei porque as histórias que contamos podem ferir — ou podem curar.
Voltei porque nenhuma criança deveria crescer acreditando que há algo errado em ser quem é.

Hoje, entendo também a potência dos encontros.

A parceria com Cleide Cissa, professora, contadora de histórias e pessoa com deficiência visual, não é acaso — é caminho. Juntas, damos forma ao Ecossistema de projetos Distinta e Tirésias, e ao simbólico Tirésias, o gato-guia, que nos lembra diariamente que ver não é apenas enxergar.


 

Nossa jornada é sobre mediação.
Sobre reconstruir narrativas.
Sobre atravessar o mundo que temos em direção ao mundo que queremos.

E, talvez, no fundo, seja também sobre responder à Alice.

Não com uma única resposta, mas com muitas histórias — onde ela possa, finalmente, se reconhecer como alguém inteira, bonita e pertencente.

Se essas reflexões ressoam em você, talvez seja o momento de aprofundar esse olhar e transformar práticas.

📘 Módulo 1: "Como contar histórias com objetos tridimensionais"
Um convite para repensar a forma como mediamos o mundo — tornando-o mais sensível, mais acessível e, sobretudo, mais humano.

 

quinta-feira, abril 16

Quem pariu Mateus que o embale: A Reforma Tributária não aceita "pais ausentes" na Gestão Cultural por Lúcia Tânia Augusto

 Você já ouviu o ditado: "Quem pariu Mateus que o balance". No senso comum, significa assumir o pepino que você mesmo plantou. Mas você sabia que a origem é ainda mais profunda? A frase original seria "quem pariu os maus teus que balance". Ou seja: assuma os seus próprios males, seus erros de planejamento e seus defeitos de execução.
No universo da produção cultural, entre 2026 e 2032, o "Mateus" da vez é a Reforma Tributária. E se você não cuidar do planejamento agora, quem vai ter que "balançar" esse bebê chorão lá na prestação de contas é você!
Porter e o "Quarto do Bebê" (A Cadeia de Valor)
Michael Porter, em seu clássico de 1985, ensinou que para uma organização ter sucesso, ela precisa de uma Cadeia de Valor azeitada. Ele separou as atividades em:
● Atividades-fim (Primárias): O seu espetáculo, o brilho no olho, o "Mateus" lindo no palco.
● Atividades de Apoio (Suporte): O jurídico, o administrativo e a contabilidade especializada.

 

A lógica é simples: se o seu suporte (o berço) for fraco, o seu projeto (o Mateus) cai. Com a transição para o IVA Dual e as novas regras de memória de cálculo da Secult (fique de olho na Resolução 38/2024!), a contabilidade deixou de ser "o mal necessário" para ser a babá que garante a sobrevivência do seu projeto.


O "Maus Teus" da Prestação de Contas
A evolução fonética de "maus teus" para "Mateus" é uma metáfora perfeita para a gestão cultural brasileira. Muitas vezes, um "mau" planejamento tributário evolui para um "Mateus" (um problema real) na hora de prestar contas.
● A falha: Ignorar a redução de 60% nas alíquotas ou não entender como funcionam os créditos de IVA.
● A consequência: Glosa de contas e a obrigação de devolver recursos. Quem pariu esse erro vai ter que "balançar" o prejuízo sozinho.

 

 Para não ter que embalar um Mateus problemático até 2032, o segredo é o amadurecimento. Como diria Porter, sua vantagem competitiva está na profissionalização do suporte.

1. Capacite-se: Entenda a nova memória de cálculo.
2. Invista no Suporte: Tenha contadores e advogados que falem a língua da cultura e da reforma.
3. Planeje a longo prazo: O fluxo do dinheiro mudou. Não deixe para entender o imposto no dia de emitir a nota fiscal.
No final das contas, quando a gestão é bem feita, o "Mateus" cresce saudável, a prestação de contas é aprovada e você tem tempo para o que realmente importa: a arte.
E aí, como anda o seu planejamento? Você está criando um Mateus para dar orgulho ou um problema para balançar depois? ---

 


sexta-feira, abril 10

Bem-Viver: A Sabedoria ancestral que pode salvar o futuro (comece agora!) por Lúcia Tânia Augusto

 



O termo Bem-Viver (ou Buen Vivir em espanhol) tem ganhado destaque em debates sobre sustentabilidade e política, mas sua origem passa longe das tendências passageiras da cultura pop. Ele nasce da cosmovisão milenar dos povos indígenas andinos e apresenta-se, hoje, como uma alternativa decolonial e ecológica vital ao modelo de desenvolvimento ocidental.

As Raízes de uma Filosofia de Plenitude

O "berço" desse conceito está nas tradições Quéchua (Sumak Kawsay) e Aymara (Suma Qamaña). Diferente da lógica capitalista de crescimento infinito, o Bem-Viver propõe uma vida em harmonia com a natureza, o coletivo e a espiritualidade.

  • Significado Original: Frequentemente traduzido como "vida bela" ou "vida em plenitude".

  • Pachamama: O foco central é a convivência com a Mãe Terra, rompendo com o individualismo moderno.

Trajetória: Da Resistência às Constituições

O que antes era restrito às comunidades ancestrais, ganhou o mundo a partir dos anos 1990, especialmente no Peru, como uma resposta crítica às crises do modelo de desenvolvimento atual.

O movimento ganhou força jurídica sem precedentes ao ser incluído nas constituições de dois países:

  1. Equador (2008)

  2. Bolívia (2009)

Desde então, o Bem-Viver tornou-se um direito constitucional e um modelo pós-capitalista abraçado por movimentos sociais e acadêmicos globalmente.


Bem-Estar vs. Bem-Viver: Você sabe a diferença?

Muitas vezes confundimos os termos, mas eles representam visões de mundo opostas:

CaracterísticaBem-Estar (Ocidental)Bem-Viver (Indígena)
FocoAcúmulo material e individualismo     Convivência comunitária e ecológica
NaturezaRecurso para exploração e consumoSer sagrado (Mãe Terra)
RelaçãoCompetição e lucroReciprocidade e respeito

O Bem-Viver como Resposta aos Desafios Globais

Segundo a educadora Iara Bonin, o Bem-Viver não é apenas uma teoria, mas uma filosofia com reflexos concretos. Para os povos indígenas, a construção dessa plenitude exige que pensemos no coletivo.

"Construir o Bem-Viver significa que as pessoas devem pensá-lo para todos. É preciso combater as injustiças, os privilégios e os mecanismos que geram a desigualdade."

A "causa" indígena, portanto, está intrinsecamente ligada à luta dos marginalizados e aos grandes desafios ambientais contemporâneos.

A Terra como Base de Tudo

Para esses povos, a terra é sagrada e capaz de fazer germinar a vida em todo o seu esplendor. No entanto, o modelo de desenvolvimento atual a vê apenas como insumo para mercadorias de rápido descarte.

Essa lógica predatória — baseada em monoculturas, grandes barragens e exploração mineral — envenena o solo e as águas. Defender o Bem-Viver é, primordialmente, defender o direito das comunidades indígenas aos seus territórios tradicionais, condição essencial para que essa filosofia continue viva e possa orientar as nossas escolhas futuras.


Fontes consultadas:

quinta-feira, abril 9

Curso de Educação inclusiva: Como contar histórias com objetos tridimensionais

🌟 CURSO DE EDUCAÇÃO INCLUSIVA – MÓDULO 1 🌟
Como contar histórias com objetos tridimensionais 🧶✨
Um encontro onde o toque e a voz dão vida à imaginação!

🧾 DATA: 14/05/2026 (5ª feira)
🕗 HORÁRIO: 08h às 17h
🏬 LOCAL: E. M. Coronel José Batista

🥰 COM:
Cleide Cissa & Lúcia Tânia Augusto

👥 CONVIDADOS ESPECIAIS:
Deficientes Visuais (nossas estrelas!), monitores, bibliotecários e estudantes de Pedagogia e Psicologia.

⚠️ DETALHES:
🧐 Apenas 20 vagas
💰 Contribuição voluntária

👉🏽 INSCRIÇÕES: 📲 (31) 99697-7843

👊🏾 Produção: Débora Tersália
🫶🏾 Apoio: E. M. Coronel José Batista & Otimize Contabilidade e Gestão.

 #PraTodosVerem #EducaçãoInclusiva #DeficiênciaVisual #Acessibilidade #ContaçãoDeHistórias

quinta-feira, março 26

O desafio da Subjetividade - Pareces Técnicos em Projetos Culturais: Discrepâncias

A avaliação de trajetórias e portfólios culturais é um processo complexo que busca mensurar qualitativamente o percurso de um proponente. 
No entanto, é comum observar disparidades nas pontuações atribuídas por diferentes pareceristas a um mesmo objeto. 
Longe de indicar um erro processual, essa variação é um fenômeno estudado na análise de sistemas de avaliação, derivado de uma combinação de fatores metodológicos e interpretativos.

Compreender as variáveis que influenciam essa oscilação é fundamental para o aprimoramento constante dos mecanismos de seleção e para a qualificação das propostas apresentadas.

1. Pluralidade de Perspectivas Teórico-Metodológicas
A formação e o repertório técnico de cada avaliador atuam como lentes analíticas distintas. Um parecerista com perfil em gestão pública pode priorizar indicadores de eficiência e impacto social, enquanto um especialista artístico pode focar na densidade conceitual e na inovação estética.

Essa "narrativa" do portfólio é processada a partir de diferentes referenciais, o que pode levar um avaliador a interpretar a diversidade de projetos como uma trajetória multifacetada e rica, enquanto outro pode vê-la sob o prisma da dispersão temática.

2. Instrumentos de Medida e Calibração de Rubricas
A precisão de uma avaliação depende diretamente da estruturação dos critérios estabelecidos no edital:

Especificidade dos Indicadores: Termos subjetivos em rubricas de avaliação podem gerar diferentes níveis de exigência. Na ausência de indicadores comportamentais ou evidências observáveis, cada avaliador aplica uma régua de pontuação baseada em seus próprios parâmetros de excelência.

Calibração de Bancas: A variabilidade tende a ser maior quando não há uma etapa prévia de alinhamento ou "calibração" entre os pareceristas, processo necessário para padronizar a interpretação dos critérios de pontuação antes do início das análises.

3. Densidade Informativa e Evidência Narrativa
O modo como o portfólio é estruturado impacta a cognição do avaliador. A ausência de uma reflexão articulada que conecte os artefatos (documentos, fotos, vídeos) aos objetivos da seleção exige que o parecerista realize inferências para preencher lacunas de contexto. Quanto maior a necessidade de inferência, maior a probabilidade de divergência entre as notas, pois cada avaliador preencherá esses "vazios" informacionais de maneira distinta.

4. Variáveis de Contexto e Carga Processual
Fatores externos e processuais também influenciam a análise técnica. Em editais de grande escala, como os da Lei Paulo Gustavo, o volume de dados a serem processados em prazos exíguos pode afetar a profundidade da análise. A fadiga cognitiva é um fator humano reconhecido que pode levar a percepções distintas sobre detalhes sutis da trajetória do proponente.

Mecanismos de Mitigação e Aprimoramento
Para otimizar a isonomia e a precisão dos processos seletivos, as boas práticas de gestão recomendam:

Mecanismos de Consenso: A introdução de um terceiro avaliador ou comitês de revisão para casos de discrepância estatisticamente significativa.

Checklists Estruturados: Implementação de verificações objetivas que antecedem a análise qualitativa, garantindo que os requisitos fundamentais sejam avaliados de forma uniforme.

Justificativa Técnica: A exigência de fundamentação descritiva para cada nota, o que permite auditar a coerência lógica entre o critério e a pontuação atribuída.

Para o proponente, a estratégia mais eficaz é a redução da ambiguidade. Um portfólio que apresenta informações de forma autoexplicativa e organizada minimiza a necessidade de interpretação subjetiva, favorecendo uma avaliação mais convergente e precisa.

sábado, março 21

Portfólio de um Agente Cultural para Trajetória Artística como documento estratégico para participar de editais de fomento à cultura

Fomento Cultural💪

Portfólio de um Agente Cultural para Trajetória Artística
Documento estratégico para participar de editais de fomento à cultura.
O que é:
Um portfólio de um Agente Cultural para Trajetória Artística é um documento estratégico (geralmente em PDF) que comprova a sua história, continuidade e impacto no campo cultural. Diferente de um currículo, ele é visual e focado na validação das realizações, servindo como uma "vitrine" de suas habilidades. Deve comprovar sua atuação artística (ex: 24 meses ou mais, dependendo do edital).
Estrutura do Portfólio:
  1. Capa e Dados Pessoais:
    • Nome completo e Artístico, foto de perfil, contatos (telefone/e-mail), CPF/CNPJ, links de redes sociais profissionais.
  2. Bio/Trajetória Profissional:
    • Texto curto narrando sua trajetória, principais habilidades, áreas de atuação e sua identidade artística.
  3. Destaques da Trajetória ("Recheio"):
    • Projetos Realizados: Nome do projeto, ano, local, função que exerceu e público atingido.
    • Portfólio Visual/Auditivo: Fotos em alta qualidade, links de vídeos (YouTube/Vimeo) de apresentações, áudios, ou recortes de jornais.
    • Cronologia: Organize por ordem cronológica (inversa, do mais novo para o mais antigo) para mostrar sua evolução recente.
  4. Reconhecimento/Comprovações:
    • Folders, cartazes, busdoors, certificados de premiações, matérias de jornal/blogs que comprovem sua atuação.
  5. Depoimentos e Parceiros:
    • Cartas de recomendação de parceiros, comunidade ou público e logomarcas de instituições com as quais colaborou.
  6. Indicadores de Impacto e Percepção de Público:
    • Formulário Online de Feedback (Google Forms).
    • Métricas de Redes Sociais (Orgânicas) e Clipping (Repercussão na Mídia).
    • Registro Fotográfico/Vídeo (Antes e Depois).
Dica de Trajetória (Estratégia para Pareceristas):
Ao concorrer, foque na continuidade (quantos anos você atua) e na qualidade das imagens que comprovam sua presença no local. Destaque com marcadores, negrito ou realces a sua imagem ou o seu nome em cada material incluído no portfólio (fotos, vídeos, certificados, etc.). Isso facilita a avaliação do parecerista e ajuda a comprovar sua participação no projeto, tornando a análise mais consistente e justa.

Fontes de Pesquisa (Baseadas em Documentos de Fomento)

Modelo de Portfólio (PM Americana/SP):Dúvidas Frequentes Lei Aldir Blanc (PM Ubá/MG):Modelo de Portfólio - Sec. Municipal de Cultura (Rio de Janeiro/RJ):Guia Elaboração Portfólio (Comitê de Cultura - Minas Gerais):Dicas de Comprovação Cultural (YouTube):Mapa Cultural de Pernambuco 


 

domingo, março 15

Em busca de aliados- Jornada em Projetos Culturais: do líder “bonzinho” ao líder polinizador

 

Cada projeto é uma jornada de aprendizagem coletiva. Isso significa que cada experiência deve preparar novas pessoas para assumir responsabilidades em iniciativas futuras.☙


 

Na formação de lideranças em projetos culturais de arte, é essencial diferenciar o líder “bonzinho” do líder maduro. O líder bonzinho tenta agradar a todos, evita conflitos e, sem perceber, cria dependência emocional no grupo. Já o líder maduro entende que projetos culturais não são assistencialismo, mas processos de formação humana que estimulam autonomia, responsabilidade e crescimento coletivo.

Um cuidado fundamental é identificar o manipulador aproveitador. Geralmente ele não se posiciona claramente, critica quem assume responsabilidades e, na hora decisiva, nunca está disponível. Em reuniões raramente fala mal de alguém; prefere agir nos bastidores, espalhando discórdia ou fofocas. Muitas vezes evita reuniões, constrói uma imagem frágil ou de vítima e pode causar grandes estragos no ambiente, inclusive conflitos e demissões. Por isso, a regra principal é: observe o padrão de comportamento e não apenas o discurso. Manipuladores costumam falar bem, mudar de humor com facilidade e agir de forma passivo-agressiva.



 

O líder maduro não alimenta fofocas. Se alguém traz uma crítica sobre outro membro da equipe, ele chama as partes envolvidas para conversar de forma transparente. O verdadeiro líder não conduz reuniões escondidas sobre a equipe e assume suas responsabilidades, inclusive quando erra, pois entende que a liderança exige ética e coerência.

Ele também sabe que o erro faz parte do processo de aprendizagem. Por isso delega tarefas progressivamente, começando por atividades em que os erros tenham riscos menores, permitindo que os liderados amadureçam com segurança. Ao mesmo tempo, a equipe aprende a reconhecer quando deve pedir ajuda antes de tomar decisões mais complexas. Uma regra essencial é que o líder só delega aquilo que sabe fazer, pois assim consegue orientar e avaliar o nível de maturidade do grupo.


 

Nos projetos culturais existe ainda um fator importante: a visibilidade. A arte e a cultura colocam pessoas em evidência, o que pode gerar disputas de reconhecimento. Por isso, o líder precisa reforçar um princípio básico: todo trabalho é coletivo e cada função tem valor — da equipe de limpeza ao coordenador, do porteiro ao gerente, do técnico de luz ao artista.

Outro aspecto pedagógico dos projetos culturais é que eles funcionam em ciclos: têm começo, meio e fim. Cada projeto é uma jornada de aprendizagem coletiva. Isso significa que cada experiência deve preparar novas pessoas para assumir responsabilidades em iniciativas futuras.

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CONCEITO: LÍDER POLINIZADOR 🌱
O líder polinizador é aquele que espalha conhecimento, experiência e oportunidades por onde passa. Assim como a polinização na natureza gera novos frutos, esse líder forma outras lideranças durante o processo do projeto. Ele não centraliza poder: compartilha saberes, cria autonomia e prepara o grupo para continuar transformando a comunidade mesmo após o fim do projeto.
└────────────────────────────────────┘

Quando essa visão está presente, o projeto cultural deixa de ser apenas uma ação pontual e se transforma em um verdadeiro processo pedagógico de formação de novos líderes para a cultura e para a comunidade.

 

Por Lúcia Tânia Augusto 

Por que voltei a escrever para crianças: entre caminhos, encontros e um chamado

  Entre 2023 e 2024, vivi um dos períodos mais intensos e transformadores da minha vida. Morei por mais de um ano em Sabará , e ali comecei,...