Quando nos debruçamos sobre o registro da memória e as narrativas de vida em nossos projetos do fazer pela História Oral vai muito além de ligar um gravador e fazer perguntas.
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Pesquisadora jovem, segurando um bloco, anotando enquanto entrevista um Mestre Griot. Na cena o Mestre está sendo observado pelas crianças do seu território que escutam encantadas, demonstrando muito interesse. No segundo plano, um Baobá, que é a representação da sabedoria Griot e onde eram enterrados esses Mestres quando morriam. Este exercício de entrevistar com crianças no entorno delineia o discurso e cria uma sensação de pertencimento e identidade em todos. |
O verdadeiro trabalho do pesquisador e do agente cultural de memória acontece no campo da escuta sensível — aquele espaço onde o tom de voz, o ambiente doméstico, as hesitações e, acima de tudo, os silêncios dizem tanto ou mais do que as palavras proferidas.
Em nossas pesquisas de campo e vivências, observamos um fenômeno fascinante: no início de uma entrevista, o depoente muitas vezes fala "para fora", usando um tom institucional ou protetivo, como quem precisa "manter as aparências" ao tratar da história familiar ou comunitária. Contudo, à medida que a entrevista avança e o ambiente de confiança se estabelece, o relato sofre uma virada. O tom muda, a rigidez decorativa se desfaz e a pessoa passa a falar a partir de sua própria autonomia — assumindo o papel de sujeito da sua própria trajetória.
Neste artigo, exploramos as raízes teóricas dessa abordagem, integrando grandes nomes da memória com a filosofia de Walter Benjamin e detalhando como a nossa metodologia transforma depoimentos orais em acervo vivo e salvaguarda do patrimônio imaterial.
1. As Raízes Teóricas da Escuta Sensível
O ato de escutar uma narrativa oral perpassa por três pilares teóricos fundamentais da História Oral:
1.1. A Hermenêutica do Silêncio e das Omissões
O silêncio na entrevista narrativa não é um vazio, uma falha de memória ou uma ausência de conteúdo. Trata-se de uma **estratégia de autopreservação**, uma forma de **resistência** ou a manifestação direta de uma norma social agindo sobre o sujeito. Saber "escutar o silêncio" é entender que omitir determinado fato é também uma escolha narrativa carregada de significado.
1.2. A Performatividade do Relato e o "Eu Social"
Nos momentos iniciais da escuta, é comum que a pessoa entrevistada performe papéis sociais predeterminados (a filha zelosa, o trabalhador exemplar, o guardião da moral familiar). Ela fala "para manter as aparências". Quando a conversa atinge um nível mais profundo de empatia e intersubjetividade, a narrativa ganha fluidez e o "eu social" dá lugar ao indivíduo em sua plenitude autobiográfica.
1.3. A Intersubjetividade e a Situação de Entrevista
Uma entrevista de História Oral não ocorre em um vácuo neutro. O clima da casa, os ruídos do entorno, os acompanhantes presentes e a postura do próprio entrevistador interferem na narrativa. O depoimento é um **produto dinâmico e vivo**, construído no encontro entre quem pergunta e quem lembra.
2. A Iluminação de Walter Benjamin: A Narrativa e a Restauração da Experiência
Para enriquecer essa reflexão, é fundamental trazer o pensamento do filósofo e crítico cultural alemão Walter Benjamin(1892–1940).
Em seu célebre ensaio "O Narrador" (1936), Benjamin diagnostica o empobrecimento da Erfahrung (a experiência vivida, acumulada e compartilhada) na modernidade industrial, em contraposição ao mero acúmulo de Erlebnis (a vivência momentânea, rápida e efêmera). Para Benjamin, o verdadeiro narrador é aquele que retira o que conta da sua própria experiência ou daquela que lhe foi transmitida por outros, incorporando-a à vida dos ouvintes.
Na História Oral, ao acolhermos as hesitações e os silêncios, estamos praticando o que Benjamin chamava de escovar a história a contrapelo: recusar a versão oficial ou linear dos fatos para resgatar os cacos, as memórias subterrâneas e as ruínas que a história tradicional frequentemente ignora.
3. Abordagem: A História Oral como Mediação Cultural e Ação no Território
Na Epocriativa, o nosso olhar sobre a memória e a narrativa oral nasce do campo das Ciências Sociais, da História Contemporânea, da Etnografia e da Museologia da Memória. É importante delimitar o nosso lugar de fala e de atuação metodológica:
3.1. O Depoimento como Patrimônio e Acervo Vivo: Diferente do campo da criação puramente literária ou ficcional — que toma a memória como matéria-prima para a fabulação poética —, o nosso trabalho toma o depoimento oral como documento, acervo, patrimônio imaterial e garantia de direitos. A história contada não é reinventada; ela é acolhida, salvaguardada, analisada e devolvida à comunidade.
3.2. A Linguagem e as Artes como Tecnologias Sociais: Nosso uso da narrativa oral, do recurso cênico, do teatro e da semiótica não busca a construção de um texto de ficção, mas atua como **tecnologia de mediação cultural e acessibilidade. A linguagem expressiva e a contação de histórias são ferramentas para tirar o documento da poeira do arquivo estático e transformá-lo em uma experiência viva e tridimensional.
3.3. A Escuta que Gera Cidadania: A nossa atuação combina a rigorosa reflexão sobre o símbolo, o mito e a linguagem com o compromisso da História Pública. Utilizamos a pesquisa de acervo e a escuta etnográfica para fortalecer a memória coletiva, a cartografia social e a salvaguarda socioambiental dos territórios onde atuamos.
4. Glossário Teórico: Conceitos-Chave da Memória e da Escuta
Para orientar estudantes, pesquisadores e agentes culturais, sistematizamos abaixo os conceitos essenciais que fundamentam essa prática:
-Escuta Sensível: Habilidade metodológica de escutar não apenas o texto falado, mas as variações tonais, o ritmo, as pausas, a corporalidade e o contexto socioespacial do depoente.
-Hermenêutica do Silêncio: Campo da interpretação que toma a pausa, o esquecimento voluntário e o "não dito" como dados analíticos centrais no depoimento oral.
-Erfahrung vs. Erlebnis (Walter Benjamin): Erfahrung representa a experiência integrada, transmitida pela tradição oral e assimilada coletivamente. Erlebnis refere-se à vivência chocante, fragmentada e efêmera da vida moderna.
-Enquadramento da Memória (Michael Pollak): O processo pelo qual a memória individual é ajustada ou moldada pelas exigências, tabus e limites do que é socialmente aceitável em determinado grupo.
-Intersubjetividade: O espaço de construção conjunta de significados que emerge da relação e do diálogo entre entrevistador e entrevistado.
5. Principais Referências Biográficas e Teóricas
Se você deseja aprofundar seus estudos ou fundamentar projetos e pesquisas acadêmicas nessa área, estes são os autores e obras de referência central:
-Walter Benjamin (1892–1940) ensaiísta, crítico literário, tradutor e filósofo marxista alemão de origem judaica. Associado à Escola de Frankfurt, legou contribuições decisivas sobre estética, memória, história e linguagem. Obra de Referência: O Narrador: Considerações sobre a obra de Nikolai Leskov (em Magia e Técnica, Arte e Política) e Sobre o Conceito de História.
-Alessandro Portelli: Historiador italiano, professor e uma das maiores autoridades mundiais no campo da História Oral e da análise subjetiva das narrativas. Defende que o valor da História Oral não está em validar os fatos exatamente como ocorreram, mas em revelar o significado que os sujeitos atribuem às suas experiências. Obra de Referência:O que faz a História Oral diferente (em Ensaios de História Oral) e Tentando Aprender a Escutar.
-Michael Pollak (1948–1992) Sociólogo austríaco radicado na França, pesquisador do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS). Investigou a memória de sobreviventes de traumas históricos, desenvolvendo os conceitos de "memórias subterrâneas", "silêncios" e "enquadramento da memória".
Obra de Referência: Memória, Esquecimento, Silêncio (1989) e Memória e Identidade Social.
-Ecléa Bosi (1936–2017) Psicóloga, escritora, professora titular da Universidade de São Paulo (USP) e importante ativista social brasileira. Pioneira no Brasil nos estudos sobre memória, velhice, afeto e o espaço doméstico no trabalho de campo. Obra de Referência: Memória e Sociedade: Lembranças dos Velhos.
-Paul Thompson: Historiador britânico, professor emérito da Universidade de Essex e um dos pioneiros na sistematização e difusão da História Oral na Europa. Sistematizou as rotinas de pesquisa de campo, enfatizando como o ambiente da entrevista e as dinâmicas sociais afetam a fala do depoente. Obra de Referência: A Voz do Passado: História Oral.
Registrar a história de uma comunidade ou de uma pessoa exige uma postura de respeito ético, paixão pela linguagem e refinamento metodológico. Perceber as nuances da fala — desde a rigidez inicial do "falar para manter as aparências" até a conquista da autonomia narrativa —, valorizando os silêncios, a semiótica e o ambiente, é o que transforma uma simples gravação em um ato profundo de salvaguarda do patrimônio imaterial, da memória e da cidadania.