Epocriativa - Escritório de Projetos de Arte e Cultura
Desde 13 de junho de 2018
segunda-feira, julho 6
Toque, Cante, Dance e Sinta: O Universo das Histórias Acessíveis
A Ponte Tátil da Inclusão: Por que o educador de apoio deve dominar o Braille e a escrita em tinta?
quarta-feira, julho 1
Entre o Mito e o Preconceito: Como folcloristas contemporâneos desmistificam lendas para resgatar o Bem-Viver e a inclusão plena
domingo, junho 28
O Folclore como vanguarda da Inclusão: A sabedoria da transdisciplinaridade e o direito à dignidade pela Arte
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O folclore frequentemente sofre com o esvaziamento de seu sentido profundo, sendo reduzido a um conjunto de mitos estáticos ou manifestações datadas. No entanto, há uma premissa básica entre os sábios: o folclore é uma área de conhecimento transdisciplinar por não se deixar aprisionar por fronteiras acadêmicas rígidas, ele transita livremente entre a história, a antropologia, a linguagem e a expressão artística, revelando-se como uma teia viva de saberes interconectados.
Precisamente por sua natureza fluida, o folclore só sobrevive em grupos humanos maduros que compreendem a sua complexidade de se adaptar em qualquer tempo e lugar. Uma comunidade amadurecida reconhece que as tradições populares não pertencem ao passado, mas são ferramentas dinâmicas de leitura do presente.
O hibridismo contemporâneo — como o cruzamento histórico entre a embolada do repente nordestino e a rítmica do RAP urbano — prova que a manifestação popular se reinventa nas periferias e nos centros para continuar narrando a crônica viva do cotidiano. Toda a fundamentação do folclore parte do acolhimento do povo. Ele nasce da necessidade humana de pertencimento, de partilha e de tradução sensível da realidade.
Como bem provocava o filósofo Walter Benjamin, a verdadeira potência da narrativa reside na capacidade de transmitir a experiência viva (Erfahrung), transformando o relato individual em patrimônio coletivo. Benjamin nos ensina que a história e a cultura não devem ser vistas como monumentos intocáveis dos vencedores, mas sim escovadas "a contrapelo", resgatando as vozes silenciadas e os fragmentos da memória popular.
No ecossistema da tradição oral, o narrador tece sua história com a própria matéria de sua vida, permitindo que a ancestralidade navegue sobre as águas do momento presente.
Quando transportamos essa matriz conceitual para o campo da educação inclusiva, podemos e devemos lançar mão do óbvio: não existe dignidade pela arte exclusivista, discriminatória e excludente. Se a raiz do saber popular é o acolhimento, qualquer prática pedagógica ou artística que segregue indivíduos com base em suas especificidades físicas, sensoriais ou intelectuais comete um anacronismo violento.
A contação de histórias baseada em recursos multissensoriais e na musicalidade não é um mero acessório didático; é a garantia do direito à fruição estética. Uma estrutura artística que escolhe dialogar apenas com os padrões normativos silencia a potência da diversidade. A arte só cumpre sua função social e humanizadora quando se estabelece como uma ponte acessível a todos. Portanto, resgatar o folclore sob a ótica da transdisciplinaridade na educação inclusiva é assegurar que o direito à beleza, à memória e à identidade seja democratizado, consolidando a dignidade humana como o centro de todo fazer pedagógico e artístico.
Glossário
1-Transdisciplinaridade: Abordagem axiológica e cognitiva que ultrapassa as fronteiras entre as disciplinas tradicionais, buscando a unidade do conhecimento através do diálogo entre diferentes saberes para compreender a complexidade do mundo.
-Experiência (Erfahrung - em Benjamin): A sabedoria adquirida coletivamente e transmitida de geração em geração por meio da tradição oral e da narrativa, em oposição à vivência isolada, imediata e fragmentada (Erlebnis).
-Hibridismo Cultural: Processo de mistura, fusão e interpenetração de diferentes tradições, gêneros e culturas, dando origem a novas práticas e expressões sincréticas (como a fusão da embolada com a música contemporânea urbana).
-Educação Inclusiva: Concepção de ensino que pressupõe a reestruturação dos sistemas educacionais para acolher e garantir o acesso, a permanência e a aprendizagem de todos os estudantes, sem distinção de gênero, raça, classe social ou deficiência.
-Fruição Estética: A capacidade de experimentar, sentir, interpretar e desfrutar de uma obra de arte ou manifestação cultural, acionando a sensibilidade, a cognição e a subjetividade individual.
Fontes Consultadas:
-BENJAMIN, Walter. O Narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. In: Magia e Técnica, Arte e Política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 2012. (Fundamentação sobre a perda e o resgate da experiência através da tradição oral e do ato de contar histórias).
-BENJAMIN, Walter. Sobre o Conceito da História. In: Magia e Técnica, Arte e Política. São Paulo: Brasiliense, 2012. (Subsídio para a crítica da história linear e a necessidade de escovar a cultura "a contrapelo" para incluir as margens).
-CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. São Paulo: Global Editora, 2012. (Fundamentação sobre a mutabilidade, a dinâmica e a função social das tradições populares).
-FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: Saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996. (Subsídio sobre a ética, o respeito à dignidade e o acolhimento dos saberes do educando).
-NICOLESCU, Basarab. O Manifesto da Transdisciplinaridade. São Paulo: TRIOM, 1999. (Base conceitual para a definição de transdisciplinaridade e a superação da fragmentação do conhecimento).
-SANTOS, Boaventura de Sousa. A Crueldade do Epistemicídio e a Ecologia de Saberes. Coimbra: Almedina, 2000. (Referência teórica sobre a importância do reconhecimento de saberes tradicionais não hegemônicos).
Por Lúcia Tânia Augusto @Epocriativa
terça-feira, junho 23
Arte Naïf, poesia do cotidiano: Viva José Assunção!
José Assunção de Carvalho
"José Assunção de Carvalho, filho de Josefa Sérgia e Antônio Praxedes de Carvalho, nasceu em Morro da Sela, distrito de São Domingos do Prata, e começou a estudar aos 10 anos em uma escola da zona rural, onde ficou durante apenas dois anos. Residiu em Nova Era, onde recebeu marcante influência da paisagem deixada pelo ciclo do ouro, inclusive sua degradação,[3]e em Itabira, onde teve uma barbearia.
Exerceu diversas atividades profissionais (lavrador, barbeiro, ajudante de mascate e caixa de bar) até começar, em 1953, a pintar estandartes sob encomenda, após fabricar uma para o sogro em ocasião da Festa de São Antônio.
Em 1974, a carreira decolou após uma encomenda feita em Mariana, quando vendeu 200 quadros para um único cliente e 400 para outro, logo depois, em Ouro Preto.
Foi casado com Maria Mendes de Carvalho, costureira, com a qual viveu durante 56 anos e teve 5 filhos, Maria Cornélia Carvalho dos Santos, a pintora Margarida Maria de Carvalho, José Vitorino de Carvalho, Terezinha das Graças Carvalho e Ana Lúcia Evangelista de Carvalho.[2]"
Premiações
Em 1978, recebeu premiação máxima pelo quadro Folia de Reis, em uma exposição da Asta, no Rio de Janeiro.[1]
Referências
- Viva Itabira (2008). Artes plásticas - José Assunção Arquivado em 2 de junho de 2013, no Wayback Machine., acesso em 5 de abril de 2011
- Sebastião, Walter (5 de abril de 2011). Festa para os olhos. Jornal Estado de Minas, Caderno EM Cultura
- Sampaio, Márcio (abril de 2011). Jose´Assunção: um pintor das festas da fé e do afeto[ligação inativa]. BDMG Cultural, acesso em 5 de abril de 2011
Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_Assun%C3%A7%C3%A3o_de_Carvalho em 23/06/2026
À Margem do Rio, o Fluxo da Memória: Hibridismo, Inclusão e Políticas de Fomento Cultural em Minas Gerais
domingo, junho 21
O olhar da Onça: mito, contação de histórias, folclore e os caminhos da pesquisa em Minas Gerais
A zagaia é uma espécie de lança ou arpão curto, feito de madeira resistente com uma ponta de ferro ou aço afiada, usada manualmente para golpear o animal à curta distância.
No contexto histórico do Brasil — e especialmente na literatura de Guimarães Rosa, como no conto Meu Tio, o Iauaretê —, o zagaieiro era o caçador especializado em enfrentar onças.
Essa era considerada uma das formas mais perigosas e técnicas de caça: o zagaieiro não usava armas de fogo. Ele precisava atiçar a onça, esperar que ela saltasse em sua direção e, no exato momento do salto, fincar a base da zagaia no chão e direcionar a ponta de ferro no peito do animal, utilizando a própria força e o peso do salto da onça para abatê-la.
Era um ofício que exigia enorme coragem, precisão e um conhecimento profundo do comportamento do felino — características que moldam a psicologia do protagonista do conto de Rosa, que começou a vida como um "vacafeiro" (vaqueiro) e caçador de onças para os fazendeiros antes de iniciar sua metamorfose mítica.
Toque, Cante, Dance e Sinta: O Universo das Histórias Acessíveis
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