O Universo na Ponta dos Dedos: Passo a Passo para Contar Histórias com Livros Táteis
No módulo dois vamos aprofundar as competências das participantes da Capacitação: Curso de Educação Inclusiva - Módulo 2 "Como contar histórias cantando" voltado para a Arte de Contar Histórias visando crianças com deficiência visual na Educação Infantil.
Contar histórias é uma arte capaz de seduzir a atenção, despertar emoções e transportar os ouvintes para realidades mágicas. Quando pensamos na infância, esse momento é um dos pilares fundamentais para a construção do imaginário. Mais do que um momento de lazer, o processo de contação de histórias com livros táteis é um caminho de mediação afetiva desenhado especificamente para guiar a criança com deficiência visual rumo à autonomia literária e à capacidade de expressar seu próprio mundo através do reconto.
Mas como garantir que essa experiência seja igualmente rica, inclusiva e encantadora para crianças com deficiência visual (DV)?
A resposta está no afeto, na mediação intencional e no uso dos livros táteis. Com base em práticas testadas no Instituto Benjamin Constant (RJ), apresentamos a seguir o passo a passo essencial criado para esse projeto de educação inclusiva — idealizado pela Epocriativa por Lúcia Tânia Augusto em parceria com Cleide Cissa, deficiente visual e contadora de histórias — que ganha ainda mais força com o lançamento deste Módulo 2.
1. Acolhimento: Escolha e Conexão
Antes mesmo de abrir o livro, o segredo está no acolhimento. A escolha da narrativa deve respeitar a faixa etária e o interesse do público.
Estreite os laços: A contação de histórias requer proximidade física e afetiva. Posicione-se bem perto da criança com deficiência visual para que ela se sinta segura e integrada à dinâmica.
2. Contextualização: a gramática do conto ou do canto
Ao começar, o mediador deve "desenhar" o livro com as palavras, situando o pequeno leitor no contexto da obra:
Fale sobre os criadores: Apresente oralmente o título, o autor e o ilustrador. É fundamental que a criança saiba quem idealizou aquela obra.
Explique palavras difíceis: Durante a leitura, fique atento às reações. Se notar que algum vocábulo é desconhecido, elucide o significado no decorrer da própria história para não quebrar o encantamento.
3. A Pesquisa Tátil/Háptica
É aqui que a magia ganha forma física. Diferente do leitor vidente, que capta a imagem de relance, a leitura da criança com deficiência visual é morosa, contínua e direcionada.
Tatear enquanto escuta: À medida que você narra, incentive a criança a explorar as imagens táteis com as mãos. Cada página folheada é uma descoberta.
A importância da mediação: No início, guie as mãos da criança sutilmente, ajudando-a a associar o que ela ouve com as texturas e os relevos (componentes bidimensionais e tridimensionais) que ela está tocando.
4. O Estímulo à Autonomia e o Reconto
Conforme apontava o psicólogo Lev Vygotsky, a primeira experiência feita com o apoio de alguém mais experiente prepara a criança para agir sozinha no futuro.
Com o tempo e a repetição, a criança desenvolve uma memória tátil dos elementos da história.
O passo seguinte é a conquista da autonomia: a oportunidade de ter um livro acessível permitirá que ela leia (seja combinando o Sistema Braille e as imagens) e reconte a história espontaneamente, respeitando o contexto, mas deixando fluir sua própria imaginação.
O que torna um Livro Tátil eficiente?
Nem todo material é agradável ao toque, e o ato de tatear precisa ser prazeroso. Um bom livro tátil deve oferecer:
Diversidade de texturas: Materiais que simulem diferentes sensações reais (pelos, relevos geométricos, asperezas).
Componentes claros: Elementos bem colados e delimitados para que a exploração tátil faça sentido geométrico e espacial.
Acessibilidade dupla: Texto em tinta (para o mediador vidente) aliado ao texto em Braille e ilustrações hápticas (para a criança).
💡 Dica de Ouro para Mediadores: Antes de apresentar um livro tátil, faça você mesmo uma pesquisa prévia sobre a aceitação dos materiais. Materiais desconfortáveis ou que soltam fiapos podem causar repulsa e afastar a criança da leitura.
Conclusão: Tornar o Mundo Tangível
Para quem não enxerga com os olhos, o mundo se torna real e visível através das mãos. Trazer luz ao imaginário de uma criança com deficiência visual vai muito além do que é audível. A imagem tátil solidifica conteúdos e abre as portas do universo literário de forma democrática. Afinal, a leitura é um direito de todos!
Este post foi inspirado no artigo científico "Um, dois, três, conte uma história outra vez", das pesquisadoras Cristina Silva Ribeiro de Souza e Lisânia Cardoso Tederixe (Revista Educação Pública, 2023).







