domingo, junho 21

O olhar da Onça: mito, contação de histórias, folclore e os caminhos da pesquisa em Minas Gerais


Por Lúcia Tânia Augusto**
Parar de ranger (afiar) os dentes e aceitar conversar com a Onça que existe em mim é o motivo da escrita desse texto. A "boca da mina" de uma itabirana resolve reverenciar alguns autores prediletos e uma temática de retorno às raízes da mineração.
 
Entenda: há um "paradoxo entre ferro & Onça" que forja a espinha dorsal de todas as pesquisas sobre o mito fundador de Minas Gerais. Escrever sobre o solo mineiro é, inevitavelmente, tatear a cicatriz aberta pela exploração mineral, em seus ciclos — uma ferida que não é apenas geográfica, mas também social, existencial e mitológica.
 
Compreender o abismo que separa a promessa do progresso, de riqueza, e o mito arquetípico da Onça é um exercício importante para a pesquisa folclórica.
 
Nesse cruzamento de ideias, as lentes de Maria Cecília Minayo, Carlos Drummond de Andrade, Guimarães Rosa e a pesquisa folclórica de Romeu Sabará nos oferecem as chaves para decifrar a nossa própria tragédia.
 
Como em Édipo e Iauaretê, cria-se uma dependência existencial onde a identidade local é mutilada e, portanto, para assumir a origem, o retorno, precisamos matar o pai dentro de nós.
 
Essa dinâmica do extrativismo mineral opera em Minas Gerais, desde sua origem, sob o signo daquilo que a tragédia grega chamava de húbris: a arrogância desmedida. É a cegueira provocada pelo lucro que faz com que a não reciprocidade subjugue as leis da natureza e do pacto comunitário. A ausência de um autêntico arrependimento estrutural, o vício pelo lucro e a reincidência de crimes ambientais não são acidentes; são o desfecho previsível e inexorável de um modelo que traiu os princípios da partilha e do Bem Viver (Sumak Kawsay).
 
Mas como a literatura e a pesquisa se encontram? Em Drummond, a escolha pela via do realismo lírico-social. Drummond não se abrigou no disfarce; ele olhou nos olhos do monstro mecânico e registrou o aqui e o agora da devastação. Diante do avanço predatório, sua poesia é de uma clareza documental e de uma urgência política cortante. Ele aponta o dedo para o Cauê destruído e chora o Rio Doce. Do local para o universal: origem versus destino — parte 1.
 
Guimarães Rosa nos enlaça com a diplomacia do Mito. O Sertão é a Onça quando ele opta pela estratégia radicalmente diferente em Meu Tio o Iauaretê: origem versus destino — parte 2. Do universal para o local.
 
Em Estas Estórias, a estratégia encontra eco no famoso conselho que o mitólogo Joseph Campbell deu a George Lucas para a criação de Star Wars: afastar a narrativa no tempo ("há muito tempo atrás...") ou no espaço. Campbell defendia que esse distanciamento desarmava os filtros ideológicos imediatos do público. Ao jogar o drama para o tempo mítico do sertão e para o mistério da metamorfose, Rosa faz o mesmo. Ele arranca o sofrimento do nível factual e o eleva ao nível universal.
 
 A Lenda da Menina-Onça e o Destino de Minas.
É nessa mesma chave mítica que os estudos e registros do pesquisador Romeu Sabará sobre a Lenda da Menina-Onça se tornam cirúrgicos. A narrativa tradicional recolhida em sua pesquisa folclórica traz um profundo alerta moral sobre as consequências da ruptura com o sagrado e com os limites impostos pela natureza.
 
A Lenda:
 "Conta-se a história de uma jovem indígena cuja mãe, por um engano fatal nascido da distração ou da desmedida em meio à floresta, quebra um resguardo ou preceito tradicional com as forças da mata. Como consequência imediata desse erro ancestral, a menina é alvo de um castigo-destino irrevogável: sua forma humana se desfaz e ela é transformada em Onça. Ao virar fera, ela passa a habitar a solidão das matas, tornando-se o próprio símbolo da natureza incompreendida e ultrajada que agora espreita aqueles que cruzam suas fronteiras."
 
O engano da mãe e o castigo da metamorfose deixam de ser um mero conto popular para se transformar em uma poderosa alegoria geopolítica da mineração.
 
O folclore na Contação de Histórias ocupa este lugar de respiro. De aceitação e não acomodação.
Longe de serem fugas da realidade, os mitos são, no fundo, as sentinelas que guardam a memória daquilo que a ganância tentou apagar.
 

Este artigo foi gerado por meio das reflexões e debates travados com Romeu Sabará na Casa Aleijadinho. Trata-se de uma introdução à proposta da palestra "O Olhar da Onça: Mito, Contação de histórias e os Caminhos da pesquisa em Minas Gerais" do Núcleo de Estudos Histórico-Culturais-Casa Aleijadinho-Ofícios (NEHCCA-O) ministrada por Lúcia Tânia Augusto, membro efetivo da Comissão Mineira de Folclore, Gestora Cultural, Analista de Políticas Públicas  e Proprietária da Epocriativa - Escritório de Projetos de Arte e Cultura, que tem como atividade principal a pesquisa em Ciências Humanas.

Fontes e Referências Bibliográficas
Se você deseja se aprofundar nos conceitos, ensaios e obras que fundamentaram esta análise, consulte as seguintes fontes:

 -ANDRADE, Carlos Drummond de. Sentimento do Mundo e Boitempo. (Poemas: "Confissão", "O Maior Trem do Mundo" e "Lira Itabirana"). Rio de Janeiro: Record.
 -CAMPBELL, Joseph. O Herói de Mil Faces*. São Paulo: Pensamento, 1995. (Para compreender a estrutura mítica e o distanciamento temporal na narrativa).
 -GALVÃO, Walnice Nogueira. "O impossível retorno". In: As formas do falso. São Paulo: Perspectiva, 1972. (Ensaio crítico seminal sobre a metamorfose e a perda da civilização em 'Meu Tio o Iauaretê').
 -MINAYO, Maria Cecília de Souza. Homens de Ferro: Estudo sobre os trabalhadores da Vale do Rio Doce. Rio de Janeiro: Dois Pontos, 1986. (Obra sociológica essencial sobre o impacto humano e identitário da mineração em Itabira).
 -ROSA, João Guimarães. "Meu Tio o Iauaretê". In: Estas Estórias*. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. (Conto que narra a transformação do zagaieiro em Onça).*
 -SABARÁ, Romeu. Estudos do Folclore Mineiro e Contos Tradicionais. (Registro etnográfico e análise mítica da lenda da Menina-Onça e os preceitos do território).
 -SÓFOCLES. Édipo Rei. Tradução de Mário da Gama Kury. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. (Texto clássico sobre a inevitabilidade do destino e a investigação de si mesmo).
 
Zagaieiro é o caçador que utiliza a zagaia como arma principal.
A zagaia é uma espécie de lança ou arpão curto, feito de madeira resistente com uma ponta de ferro ou aço afiada, usada manualmente para golpear o animal à curta distância.
No contexto histórico do Brasil — e especialmente na literatura de Guimarães Rosa, como no conto Meu Tio, o Iauaretê —, o zagaieiro era o caçador especializado em enfrentar onças.
Essa era considerada uma das formas mais perigosas e técnicas de caça: o zagaieiro não usava armas de fogo. Ele precisava atiçar a onça, esperar que ela saltasse em sua direção e, no exato momento do salto, fincar a base da zagaia no chão e direcionar a ponta de ferro no peito do animal, utilizando a própria força e o peso do salto da onça para abatê-la.
Era um ofício que exigia enorme coragem, precisão e um conhecimento profundo do comportamento do felino — características que moldam a psicologia do protagonista do conto de Rosa, que começou a vida como um "vacafeiro" (vaqueiro) e caçador de onças para os fazendeiros antes de iniciar sua metamorfose mítica. 

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