terça-feira, junho 23

À Margem do Rio, o Fluxo da Memória: Hibridismo, Inclusão e Políticas de Fomento Cultural em Minas Gerais


"Também se conhece o rio pelo que fica à margem."
— Lúcia Tânia Augusto
 Introdução: O Rio e suas Margens
O fluxo de um rio não se define apenas pela força de sua correnteza principal, mas pela complexidade das dinâmicas que ocorrem em suas bordas. É na margem que a terra encontra a água, onde a vegetação se ampara e onde os detritos e as riquezas se depositam. 

Transpondo a metáfora para o campo das políticas públicas de cultura e do fomento em Minas Gerais, a história oficial muitas vezes se comporta como o leito central: linear, imponente e visível. No entanto, para compreender a totalidade da identidade cultural de um território, é preciso lançar o olhar para as margens.

A Epocriativa - Escritório de Projetos de Arte e Cultura nasce, em 2018, dessa premissa. Compreendendo que o folclore e a cultura popular não são relíquias estáticas de um passado intocado, a empresa foca sua atuação na pesquisa de linguagens artísticas capazes de dar voz, corpo e sentido às narrativas que historicamente foram empurradas para a periferia da visibilidade social.

 Investigar essas linguagens é, antes de tudo, um ato político de descentralização e democratização do fomento cultural. Compreenda: 
 
1. O Hibridismo Cultural e a Tradição Viva
Para que as políticas públicas de cultura superem a visão paternalista e purista do folclore, é indispensável o entendimento do conceito de "hibridismo cultural". As manifestações populares mineiras — como os Congados, as Folias de Reis e o artesanato tradicional — não sobreviveram ao tempo por estarem isoladas em redomas de vidro, mas sim pela sua capacidade crônica de contaminação e ressignificação mútua.
Como aponta Néstor García Canclini em "Culturas Híbridas, (1989), a modernidade não eliminou as culturas tradicionais; em vez disso, gerou uma reestruturação onde o culto, o popular e o massivo se interpenetram. 

O folclore, portanto, é um processo dinâmico de reconversão cultural.

 Complementarmente, Homi Bhabha, em "O Local da Cultura", (1994), introduz a noção de "entre-lugar", o espaço liminar onde as identidades são negociadas e onde o hibridismo atua como uma estratégia de resistência à hegemonia.

 Apoiar a cultura popular por meio do fomento público significa reconhecer esse "entre-lugar" como um espaço legítimo de produção de conhecimento e inovação social.


2. Da Queima dos Totens à Cristalização: 
As estratégias de colonização mais brutais para enfraquecer a unidade e a resistência de um grupo consistiam em queimar os seus totens centrais. Destruir o símbolo máximo de conexão e sagrado de uma comunidade era uma forma de desestruturar sua identidade, dispersar suas forças e impor o esquecimento. No cenário contemporâneo das políticas culturais, embora o fogo físico tenha sido deixado de lado, operam-se mecanismos mais sutis, mas igualmente perigosos, de desestruturação simbólica. Um deles é o deslocamento forçado da cultura popular em direção aos grandes centros urbanos.
Quando trazemos para as capitais, como Belo Horizonte, as manifestações populares — arrancando-as das datas em que ocorrem tradicionalmente em seus territórios —, promovemos um duplo processo de violência cultural. 
a) Por um lado, esvaziamos de significados o local de sua origem, privando a comunidade detentora de vivenciar seu próprio rito em seu tempo e espaço sagrados.
b) Por outro, promovemos uma cristalização em seu destino, transformando o que era uma prática viva, comunitária e orgânica em um espetáculo estático, pasteurizado para o consumo da plateia urbana.

A salvaguarda de uma manifestação cultural em seu território de origem não é apenas um ato de preservação, mas uma estratégia estruturante de desenvolvimento socioeconômico local capaz de fixar as novas gerações à sua própria terra. 

Quando o fomento público valida e assegura que o rito permaneça em seu lugar de pertencimento, ele transforma a tradição em um ativo vivo, gerando oportunidades reais de trabalho e renda para os nativos e atraindo investimentos diretos para a comunidade. Mais do que movimentar a economia local, a valorização da raiz territorial devolve a dignidade e o sentido de futuro aos jovens e crianças; ao perceberem que sua cultura é respeitada e autossustentável, as novas gerações deixam de ser compelidas ao êxodo urbano e passam a assumir, com orgulho, o papel de guardiãs da ancestralidade.

3. Walter Benjamin: A Reprodutibilidade e a História a Contrapelo
O aporte teórico de Walter Benjamin é fundamental para desmitificar o purismo estético e validar as novas aplicações das linguagens artísticas no campo da acessibilidade e da inclusão. Em seu célebre ensaio "A Obra de Arte na Era de Sua Reprodutibilidade Técnica" (1936), Benjamin discute a perda da "aura" do objeto artístico a partir do momento em que ele pode ser reproduzido de forma técnica. Se, por um lado, a cópia destrói a exclusividade do original, por outro, ela promove a liquidação do valor cultual da arte em prol do seu valor político, aproximando a obra das massas.

Quando a Epocriativa transpõe uma narrativa oral do folclore para um kit pedagógico tridimensional ou um recurso tátil, ocorre um processo análogo ao benjaminiano, mas de forma inversa ao esvaziamento urbano: retira-se o folclore do altar da contemplação passiva e confere-se a ele uma reprodutibilidade utilitária, democrática e inclusiva. Não se desloca o detentor da fé; traduz-se a sua essência em linguagem pedagógica.

Mais do que isso, em  "Teses Sobre o Conceito de História" (1940), Benjamin nos convoca a "escovar a história a contrapelo", formulando o conceito da "Tradição dos Oprimidos". 

A história oficial é escrita pelos vencedores, que desfilam sobre os corpos e as memórias dos vencidos. Benjamin escreve:
"A tradição dos oprimidos nos ensina que o 'estado de exceção' em que vivemos é na verdade a regra. Precisamos chegar a um conceito de história que corresponda a essa intuição."

Se os colonizadores do passado queimavam os totens para apagar as pistas da resistência, a história a contrapelo se dedica a recolher as cinzas e reconstruir a memória. O folclore e a cultura popular são, por excelência, os arquivos dessa tradição dos oprimidos. São as histórias que ficaram à margem. O fomento público à cultura não pode ser apenas um balcão de distribuição de recursos; deve ser um instrumento de reparação histórica que financia a escavação e a manutenção dessas memórias em suas próprias bases.
 
4. Práticas Inclusivas: O Curso "Como Contar Histórias"
A tradução prática desse arcabouço teórico materializa-se em ações formativas voltadas para a educação inclusiva. O curso **"Educação Inclusiva – Módulo 1: Como contar histórias..."  desenvolvido pela Epocriativa, toma para si a missão de resgatar o que está à margem sem desterritorializar a memória.
Se a história que ficou à margem precisa ser contada, ela também precisa ser acessível a todos os corpos, sentidos e mentes. 

No contexto da mediação cultural, contar histórias utilizando recursos tridimensionais e sonoros é uma forma de romper com o império do visualocentrismo, permitindo que a pessoa com deficiência visual, por exemplo, também navegue e compreenda a densidade da correnteza do rio.

A metodologia do curso ensina que o objeto tátil e a oralidade performática são ferramentas de hibridização pedagógica. Ao tocar um objeto que representa uma figura do folclore ou um elemento da memória local, o estudante reconstrói a história a partir de sua própria vivência, descentralizando o papel do narrador e tornando a aprendizagem um processo coletivo e democrático. É a pedagogia aplicada como salvaguarda da tradição dos oprimidos dentro das salas de aula, mostrando às crianças e jovens locais que a cultura de sua comunidade possui imenso valor científico, artístico e pedagógico.


Conclusão: O Fomento e o Horizonte do Bem Viver:
Conhecer o rio pelo que fica à margem exige das políticas públicas de cultura e fomento em Minas Gerais uma mudança profunda de perspectiva geográfica e social. O fomento descentralizado e focado no patrimônio imaterial é o que permite que as comunidades tradicionais alcancem a sustentabilidade, a geração de trabalho local e a autonomia em suas próprias terras, combatendo o esvaziamento econômico e demográfico do interior.

A atuação da Epocriativa aponta para um horizonte onde a gestão cultural e a educação inclusiva caminham juntas. Ao validar o hibridismo, dar escala à acessibilidade, fixar as riquezas em seus territórios de origem e escovar a memória a contrapelo, o fazer cultural se alinha à filosofia do 'Bem Viver', transformando o fomento em um direito pleno de cidadania, onde nenhuma história, jovem ou trabalhador seja deixado à margem do caminho.
 
Glossário de Termos Técnicos
 1-Aura (Benjaminiana): Conceito de Walter Benjamin que define a singularidade, a autenticidade e a distância intransponível de uma obra de arte tradicional, ligada à sua origem ritual e de contemplação única.
 2-Bem Viver (Sumak Kawsay):Filosofia de matriz indígena latino-americana que propõe uma forma de vida baseada na harmonia entre os seres humanos, a comunidade e a natureza, priorizando o bem-estar coletivo em detrimento do acúmulo material e do desenvolvimento predatório.
 3-Cristalização Cultural: Processo pelo qual uma prática cultural viva e dinâmica é paralisada, rotulada e transformada em um estereótipo estático, geralmente para atender às expectativas de consumo visual de públicos externos ao seu território original.
4-Desterritorialização: Fenômeno de perda ou enfraquecimento das relações que unem uma comunidade e suas manifestações culturais ao seu espaço geográfico e simbólico de origem.
 5-Entre-lugar: Conceito cunhado por Homi Bhabha que designa o espaço de articulação e negociação cultural que se abre entre identidades e discursos estabelecidos, onde formas de resistência e hibridismo ganham vida.
 6-Escovar a História a Contrapelo: Expressão metodológica de Walter Benjamin que propõe ler e interpretar a história a partir do ponto de vista dos vencidos, desconstruindo a narrativa linear e triunfalista das classes dominantes.
 7-Fomento Cultural: Conjunto de mecanismos financeiros e institucionais (como leis de incentivo, fundos e editais públicos) promovidos pelo Estado para apoiar, incentivar e viabilizar a produção, circulação e preservação de bens culturais.
 8-Hibridismo Cultural: Processo de mistura, interpenetração e reconversão de diferentes práticas e discursos culturais (o tradicional, o moderno, o local, o global), resultando em novas formas e linguagens dinâmicas.
 9-Sustentabilidade Intergeracional: Capacidade de manter viva uma tradição ou recurso ao longo do tempo através do envolvimento ativo, capacitação e retenção das gerações mais jovens, garantindo que elas se tornem as futuras guardiãs desse legado.
 10-Tradição dos Oprimidos: Conceito de Walter Benjamin que aponta para a persistência histórica das lutas, memórias e saberes das classes e grupos subalternizados, que resistem à opressão através de suas próprias manifestações e narrativas.


Fontes de Pesquisa e Referências Bibliográficas
 -BENJAMIN, Walter."A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica". In: Magia e Técnica, Arte e Política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Tradução de Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 2012. (Obras Escolhidas, v. 1).
 -BENJAMIN, Walter. "Teses sobre o conceito de história". In: Estéticos e Políticos: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1987.
 -BHABHA, Homi K."O local da cultura". Tradução de Myriam Ávila, Eliana Lourenço de Lima Reis, Gláucia Renate Gonçalves. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1998.
 -CANCLINI, Néstor García."Culturas híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade". Tradução de Ana Regina Lessa e Heloísa Pezza Cintrão. 4. ed. São Paulo: Editora da USP, 2003.
 EPOCRIATIVA."Relatórios técnicos, portfólio institucional e ementas de cursos de Educação Inclusiva". Belo Horizonte/Itabira, 2026.
 -AUGUSTO, Lúcia Tânia. "Registros e proposições poético-pedagógicas sobre cultura e margem". Belo Horizonte, ensaio pessoal / postagem conceitual.


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