terça-feira, junho 23

Arte Naïf, poesia do cotidiano: Viva José Assunção!

Há uma força extraordinária na arte que brota da pureza, da observação atenta do cotidiano e da ausência de amarras acadêmicas. A Arte Naïf—frequentemente chamada de arte ingênua ou primitivista—é, em sua essência, a expressão mais genuína do povo. Ela não pede licença às regras rígidas de perspectiva, sombreamento ou proporção para existir; ela simplesmente pulsa, colorida e vibrante, narrando as histórias, as festas, os afetos e a religiosidade que moldam a nossa identidade.

Celebrar a Arte Naïf é olhar para o Brasil profundo. É reconhecer o valor de artistas autodidatas que pintam não o que aprenderam nos manuais acadêmicos, mas o que sentem, lembram e vivem. E, quando falamos dessa conexão íntima entre a tela e a alma do povo mineiro, destaca-se um de seus grandes mestres: 

José Assunção de Carvalho

"José Assunção de Carvalho, filho de Josefa Sérgia e Antônio Praxedes de Carvalho, nasceu em Morro da Sela, distrito de São Domingos do Prata, e começou a estudar aos 10 anos em uma escola da zona rural, onde ficou durante apenas dois anos. Residiu em Nova Era, onde recebeu marcante influência da paisagem deixada pelo ciclo do ouro, inclusive sua degradação,[3]e em Itabira, onde teve uma barbearia.

Exerceu diversas atividades profissionais (lavrador, barbeiro, ajudante de mascate e caixa de bar) até começar, em 1953, a pintar estandartes sob encomenda, após fabricar uma para o sogro em ocasião da Festa de São Antônio.

Em 1974, a carreira decolou após uma encomenda feita em Mariana, quando vendeu 200 quadros para um único cliente e 400 para outro, logo depois, em Ouro Preto.

Foi casado com Maria Mendes de Carvalho, costureira, com a qual viveu durante 56 anos e teve 5 filhos, Maria Cornélia Carvalho dos Santos, a pintora Margarida Maria de Carvalho, José Vitorino de Carvalho, Terezinha das Graças Carvalho e Ana Lúcia Evangelista de Carvalho.[2]"

Premiações

Em 1978, recebeu premiação máxima pelo quadro Folia de Reis, em uma exposição da Asta, no Rio de Janeiro.[1]

Referências

  1. Viva Itabira (2008). Artes plásticas - José Assunção Arquivado em 2 de junho de 2013, no Wayback Machine., acesso em 5 de abril de 2011
  2. Sebastião, Walter (5 de abril de 2011). Festa para os olhos. Jornal Estado de Minas, Caderno EM Cultura
  3. Sampaio, Márcio (abril de 2011). Jose´Assunção: um pintor das festas da fé e do afeto[ligação inativa]. BDMG Cultural, acesso em 5 de abril de 2011

 Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_Assun%C3%A7%C3%A3o_de_Carvalho em 23/06/2026 


==> Do Prata para o Coração de Itabira
Nascido em 1911 no distrito de Morro da Sela, em São Domingos do Prata, José Assunção cresceu na zona rural e trabalhou na lavoura durante a juventude. De infância simples e com apenas dois anos de estudo formal, ele guardava na memória as cores da terra e as vivências do interior. 
 
Após passar por Nova Era, foi em Itabira que ele fincou raízes profundas e construiu grande parte de sua história.
Em Itabira,  trabalhou por muitos anos como barbeiro, integrando-se completamente à vida social da comunidade. Mais do que cortar cabelos, ele era uma figura de destaque na cultura local: músico de ouvido refinado, tocava violão e bandolim durante as missas na Catedral Nossa Senhora do Rosário, além de ser compositor e escritor.
 
Sua transição definitiva para as telas começou na região, inicialmente pintando estandartes e bandeiras sob encomenda para festas religiosas locais. A barbearia, as missas e o contato direto com o povo itabirano alimentaram o imaginário do artista, transformando-o em um cronista visual único do cotidiano da cidade.
 
==> A Poesia do Cotidiano em Cores
A vasta produção de José Assunção—estimada em cerca de 2 mil quadros—é um banquete visual. Suas telas são janelas para um interior vivo: procissões católicas, bailes rurais, fazendas coloniais e folias de reis.
O olhar crítico e sensível do artista também capturou as transformações geográficas da região, registrando as marcas e a degradação deixadas pelos ciclos econômicos. Na técnica, tinha o que a crítica chama de "horror ao vazio": suas telas são barrocas e feéricas, preenchidas detalhadamente com multidões festivas e elementos minuciosos, onde a presença de um característico casal de velhinhos tornou-se sua marca registrada.
 
==>O Legado da Autenticidade
José Assunção faleceu em 2003, deixando uma obra eternizada em acervos e exposições memoráveis (como as realizadas na própria Galeria do Centro Cultural Carlos Drummond de Andrade, em Itabira). Ele nos ensinou que a grande arte nasce da capacidade de olhar para a própria comunidade com orgulho e sensibilidade. Sua pintura tornou permanente o que o tempo teima em tornar transitório.
Como forma de encerrar essa justa homenagem, vale destacar algumas das telas mais emblemáticas criadas pelo mestre. Entre a imensa riqueza de seus cerca de 2 mil quadros, destaca-se a consagrada obra "Folia de Reis"—com a qual o pintor recebeu a premiação máxima em uma importante exposição nacional no Rio de Janeiro, em 1978—além de composições marcantes como "Cidade Brasileira", que ilustra perfeitamente sua habilidade única em registrar as nuances e o colorido do cotidiano urbano e rural de nosso país.

 Glossário Cultural
1-Arte Naïf (ou Primitivista): Termo de origem francesa (que significa "ingênuo") usado para descrever a arte produzida por artistas autodidatas, ou seja, que não passaram por formação acadêmica tradicional em escolas de belas artes. Caracteriza-se pela liberdade técnica, cores puras, ausência de perspectiva geométrica e forte apelo narrativo e popular.
2-Barroco / Estética Barroca (na pintura Naïf): No contexto da crítica de arte aplicada a José Assunção, refere-se ao acúmulo expressivo de personagens, detalhes e ornamentos que preenchem todo o espaço da tela, deixando poucas áreas vazias.
3-Cronista Visual: Artista que usa as imagens, traços e cores (em vez das palavras escritas) para documentar, registrar e narrar os costumes, as transformações e o cotidiano de uma época ou localidade.
4-Estandarte / Bandeira Religiosa: Peça de tecido decorada com imagens de santos, rimas ou símbolos sagrados, muito utilizada para abrir procissões, cortejos de Folia de Reis e festas de padroeiros no interior do Brasil.
5-Feérico: Algo encantador, fantástico, luminoso ou intensamente festivo. Uma obra feérica transmite uma atmosfera de celebração e vivacidade mágica por meio das cores.
6-Folia de Reis: Tradicional manifestação cultural e religiosa católica brasileira que celebra a visita dos Três Reis Magos ao Menino Jesus, envolvendo música, dança, versos e roupas coloridas.
 
Por Lúcia Tânia Augusto 

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