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O folclore frequentemente sofre com o esvaziamento de seu sentido profundo, sendo reduzido a um conjunto de mitos estáticos ou manifestações datadas. No entanto, há uma premissa básica entre os sábios: o folclore é uma área de conhecimento transdisciplinar por não se deixar aprisionar por fronteiras acadêmicas rígidas, ele transita livremente entre a história, a antropologia, a linguagem e a expressão artística, revelando-se como uma teia viva de saberes interconectados.
Precisamente por sua natureza fluida, o folclore só sobrevive em grupos humanos maduros que compreendem a sua complexidade de se adaptar em qualquer tempo e lugar. Uma comunidade amadurecida reconhece que as tradições populares não pertencem ao passado, mas são ferramentas dinâmicas de leitura do presente.
O hibridismo contemporâneo — como o cruzamento histórico entre a embolada do repente nordestino e a rítmica do RAP urbano — prova que a manifestação popular se reinventa nas periferias e nos centros para continuar narrando a crônica viva do cotidiano. Toda a fundamentação do folclore parte do acolhimento do povo. Ele nasce da necessidade humana de pertencimento, de partilha e de tradução sensível da realidade.
Como bem provocava o filósofo Walter Benjamin, a verdadeira potência da narrativa reside na capacidade de transmitir a experiência viva (Erfahrung), transformando o relato individual em patrimônio coletivo. Benjamin nos ensina que a história e a cultura não devem ser vistas como monumentos intocáveis dos vencedores, mas sim escovadas "a contrapelo", resgatando as vozes silenciadas e os fragmentos da memória popular.
No ecossistema da tradição oral, o narrador tece sua história com a própria matéria de sua vida, permitindo que a ancestralidade navegue sobre as águas do momento presente.
Quando transportamos essa matriz conceitual para o campo da educação inclusiva, podemos e devemos lançar mão do óbvio: não existe dignidade pela arte exclusivista, discriminatória e excludente. Se a raiz do saber popular é o acolhimento, qualquer prática pedagógica ou artística que segregue indivíduos com base em suas especificidades físicas, sensoriais ou intelectuais comete um anacronismo violento.
A contação de histórias baseada em recursos multissensoriais e na musicalidade não é um mero acessório didático; é a garantia do direito à fruição estética. Uma estrutura artística que escolhe dialogar apenas com os padrões normativos silencia a potência da diversidade. A arte só cumpre sua função social e humanizadora quando se estabelece como uma ponte acessível a todos. Portanto, resgatar o folclore sob a ótica da transdisciplinaridade na educação inclusiva é assegurar que o direito à beleza, à memória e à identidade seja democratizado, consolidando a dignidade humana como o centro de todo fazer pedagógico e artístico.
Glossário
1-Transdisciplinaridade: Abordagem axiológica e cognitiva que ultrapassa as fronteiras entre as disciplinas tradicionais, buscando a unidade do conhecimento através do diálogo entre diferentes saberes para compreender a complexidade do mundo.
-Experiência (Erfahrung - em Benjamin): A sabedoria adquirida coletivamente e transmitida de geração em geração por meio da tradição oral e da narrativa, em oposição à vivência isolada, imediata e fragmentada (Erlebnis).
-Hibridismo Cultural: Processo de mistura, fusão e interpenetração de diferentes tradições, gêneros e culturas, dando origem a novas práticas e expressões sincréticas (como a fusão da embolada com a música contemporânea urbana).
-Educação Inclusiva: Concepção de ensino que pressupõe a reestruturação dos sistemas educacionais para acolher e garantir o acesso, a permanência e a aprendizagem de todos os estudantes, sem distinção de gênero, raça, classe social ou deficiência.
-Fruição Estética: A capacidade de experimentar, sentir, interpretar e desfrutar de uma obra de arte ou manifestação cultural, acionando a sensibilidade, a cognição e a subjetividade individual.
Fontes Consultadas:
-BENJAMIN, Walter. O Narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. In: Magia e Técnica, Arte e Política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 2012. (Fundamentação sobre a perda e o resgate da experiência através da tradição oral e do ato de contar histórias).
-BENJAMIN, Walter. Sobre o Conceito da História. In: Magia e Técnica, Arte e Política. São Paulo: Brasiliense, 2012. (Subsídio para a crítica da história linear e a necessidade de escovar a cultura "a contrapelo" para incluir as margens).
-CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. São Paulo: Global Editora, 2012. (Fundamentação sobre a mutabilidade, a dinâmica e a função social das tradições populares).
-FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: Saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996. (Subsídio sobre a ética, o respeito à dignidade e o acolhimento dos saberes do educando).
-NICOLESCU, Basarab. O Manifesto da Transdisciplinaridade. São Paulo: TRIOM, 1999. (Base conceitual para a definição de transdisciplinaridade e a superação da fragmentação do conhecimento).
-SANTOS, Boaventura de Sousa. A Crueldade do Epistemicídio e a Ecologia de Saberes. Coimbra: Almedina, 2000. (Referência teórica sobre a importância do reconhecimento de saberes tradicionais não hegemônicos).
Por Lúcia Tânia Augusto @Epocriativa


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