Registros e Proposições Poético-Pedagógicas: A Arte de Narrar a Margem com Walter Benjamin
Introdução: O Resgate da Experiência no Silêncio da Modernidade
Em seu ensaio O Narrador, Walter Benjamin nos alerta para um sintoma cruel da modernidade: a perda da capacidade de intercambiar experiências. Substituída pela pressa da informação e pelo isolamento dos indivíduos, a narrativa oral — aquela que se partilha ao redor do fogo ou no balanço de uma costura — parecia condenada ao desaparecimento. No entanto, quando lançamos o olhar para as margens sociais e urbanas de Belo Horizonte, percebemos que o diagnóstico de Benjamin ganha contornos de resistência.
Nas salas de aula dos cursos de educação inclusiva, onde o ensino de técnicas de contação de histórias ganha vida, o que se faz não é apenas uma transmissão técnica de modulação de voz ou expressão corporal. O que se propõe ali é uma metodologia poético-pedagógica de devolução da palavra ao povo, transformando sujeitos historicamente silenciados em guardiões de suas próprias memórias.
1. O Narrador da Margem: Da Informação à Erfahrung
Benjamin divide a arte de narrar a partir de dois arquétipos ancestrais: o camponês sedentário (aquele que conhece as histórias locais, as tradições do seu chão) and o marinheiro viajante (aquele que traz as novidades de terras distantes). Na metodologia construída para o ensino da contação de histórias na educação inclusiva, o aluno da margem encarna a fusão dessas duas potências. Ele é o camponês porque traz em si a raiz, a origem do seu povo, a ancestralidade periférica; e é o marinheiro porque precisou navegar pelas adversidades de um mundo que tenta excluí-lo por sua condição física, mental ou socioeconômica.
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| Criada por IA: pintura Naïf com um Griot (viajante) com um índio (sedentário) |
A metodologia se afasta radicalmente da lógica da "informação" moderna — que precisa ser explicável, imediata e consumível. A contação de histórias proposta na pedagogia inclusiva busca a Erfahrung: a experiência profunda, aquela que deita raízes no tempo e que só se materializa quando o corpo do narrador se faz presente. Ensinar a contar histórias na margem é validar que a vivência desses alunos não é um "caso clínico" ou um "dado estatístico", mas matéria-prima poética de valor universal.
2. A Comunidade de Escuta e o Corpo como Tecido Narrativo
Para Benjamin, a narrativa verdadeira tem uma dimensão artesanal. Ela se impregna na vida do narrador como a mão do oleiro no vaso de barro. No contexto da educação inclusiva, o próprio corpo do aluno — com suas marcas, ritmos, pausas e singularidades — é o barro. A metodologia poético-pedagógica compreende que a voz trêmula, a gesticulação alternativa ou o tempo expandido de um estudante com deficiência não são ruídos a serem corrigidos pela técnica, mas a própria assinatura de sua poética.
Além disso, a contação de histórias exige o que Benjamin chamava de "comunidade de ouvintes". O aprendizado ocorre na circularidade do afeto:
O tédio criativo: Benjamin dizia que o ritmo da vida moderna acabou com o tédio, que é o "pássaro onírico que choca o ovo da experiência". Na sala de aula, desacelerar o tempo pedagógico permite que a memória flua.
A escuta ativa: A técnica de contar histórias começa pelo direito de ser ouvido. Na margem, onde o poder hegemônico dita quem fala, o ato de escutar o outro no círculo de aula cria um espaço seguro para que a identidade se recomponha.
3. Escovar a História a Contrapelo: Uma Pedagogia da Redenção
Nas suas teses Sobre o Conceito de História, Benjamin afirma que é preciso "escovar a história a contrapelo" para resgatar a voz dos vencidos, daqueles que foram soterrados pela narrativa oficial dos vencedores.
A proposição pedagógica deste ensaio assume esse compromisso político e poético. Ao instrumentalizar o povo com as técnicas da oralidade, permitimos que eles próprios façam a arqueologia de suas origens. Contar uma história tradicional, um causo local ou uma vivência comunitária de resistência é uma forma de fazer justiça histórica. A pedagogia inclusiva se torna, portanto, uma pedagogia da redenção benjaminiana: ela recolhe os fragmentos, as ruínas do que a sociedade considerou "inútil" ou "marginal", e transforma esses estilhaços em joias da cultura popular.
Proposições Práticas para a Sala de Aula
O Papel do Educador como Mediador Benjaminiano: Nessas dinâmicas, o seu papel não é o de um juiz técnico que avalia se a dicção está perfeita ou se a história tem começo, meio e fim linear. Seu papel é criar o que Benjamin chamava de comunidade de ouvintes: garantir o silêncio acolhedor e o tempo necessário para que o artesanato de cada aluno possa se manifestar.
Conclusão: A Poética como Prática de Liberdade
Desenvolver uma metodologia de contação de histórias sob a luz de Walter Benjamin é compreender que a pedagogia não pode ser um processo de domesticação ou mera capacitação funcional. Trata-se de uma intervenção poética no tempo. Ao cruzar a origem desse ensino nos cursos inclusivos de Belo Horizonte com o conceito de cultura de margem, o registro pessoal deixa de ser apenas um relato e passa a ser uma proposição teórica: a de que o povo, quando assume o papel de narrador, deixa de ser assistido pela história para se tornar o autor dela.
Por Lúcia Tânia Augusto








