terça-feira, junho 23

Arte Naïf, poesia do cotidiano: Viva José Assunção!

Há uma força extraordinária na arte que brota da pureza, da observação atenta do cotidiano e da ausência de amarras acadêmicas. A Arte Naïf—frequentemente chamada de arte ingênua ou primitivista—é, em sua essência, a expressão mais genuína do povo. Ela não pede licença às regras rígidas de perspectiva, sombreamento ou proporção para existir; ela simplesmente pulsa, colorida e vibrante, narrando as histórias, as festas, os afetos e a religiosidade que moldam a nossa identidade.

Celebrar a Arte Naïf é olhar para o Brasil profundo. É reconhecer o valor de artistas autodidatas que pintam não o que aprenderam nos manuais acadêmicos, mas o que sentem, lembram e vivem. E, quando falamos dessa conexão íntima entre a tela e a alma do povo mineiro, destaca-se um de seus grandes mestres: 

José Assunção de Carvalho

"José Assunção de Carvalho, filho de Josefa Sérgia e Antônio Praxedes de Carvalho, nasceu em Morro da Sela, distrito de São Domingos do Prata, e começou a estudar aos 10 anos em uma escola da zona rural, onde ficou durante apenas dois anos. Residiu em Nova Era, onde recebeu marcante influência da paisagem deixada pelo ciclo do ouro, inclusive sua degradação,[3]e em Itabira, onde teve uma barbearia.

Exerceu diversas atividades profissionais (lavrador, barbeiro, ajudante de mascate e caixa de bar) até começar, em 1953, a pintar estandartes sob encomenda, após fabricar uma para o sogro em ocasião da Festa de São Antônio.

Em 1974, a carreira decolou após uma encomenda feita em Mariana, quando vendeu 200 quadros para um único cliente e 400 para outro, logo depois, em Ouro Preto.

Foi casado com Maria Mendes de Carvalho, costureira, com a qual viveu durante 56 anos e teve 5 filhos, Maria Cornélia Carvalho dos Santos, a pintora Margarida Maria de Carvalho, José Vitorino de Carvalho, Terezinha das Graças Carvalho e Ana Lúcia Evangelista de Carvalho.[2]"

Premiações

Em 1978, recebeu premiação máxima pelo quadro Folia de Reis, em uma exposição da Asta, no Rio de Janeiro.[1]

Referências

  1. Viva Itabira (2008). Artes plásticas - José Assunção Arquivado em 2 de junho de 2013, no Wayback Machine., acesso em 5 de abril de 2011
  2. Sebastião, Walter (5 de abril de 2011). Festa para os olhos. Jornal Estado de Minas, Caderno EM Cultura
  3. Sampaio, Márcio (abril de 2011). Jose´Assunção: um pintor das festas da fé e do afeto[ligação inativa]. BDMG Cultural, acesso em 5 de abril de 2011

 Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_Assun%C3%A7%C3%A3o_de_Carvalho em 23/06/2026 


==> Do Prata para o Coração de Itabira
Nascido em 1911 no distrito de Morro da Sela, em São Domingos do Prata, José Assunção cresceu na zona rural e trabalhou na lavoura durante a juventude. De infância simples e com apenas dois anos de estudo formal, ele guardava na memória as cores da terra e as vivências do interior. 
 
Após passar por Nova Era, foi em Itabira que ele fincou raízes profundas e construiu grande parte de sua história.
Em Itabira,  trabalhou por muitos anos como barbeiro, integrando-se completamente à vida social da comunidade. Mais do que cortar cabelos, ele era uma figura de destaque na cultura local: músico de ouvido refinado, tocava violão e bandolim durante as missas na Catedral Nossa Senhora do Rosário, além de ser compositor e escritor.
 
Sua transição definitiva para as telas começou na região, inicialmente pintando estandartes e bandeiras sob encomenda para festas religiosas locais. A barbearia, as missas e o contato direto com o povo itabirano alimentaram o imaginário do artista, transformando-o em um cronista visual único do cotidiano da cidade.
 
==> A Poesia do Cotidiano em Cores
A vasta produção de José Assunção—estimada em cerca de 2 mil quadros—é um banquete visual. Suas telas são janelas para um interior vivo: procissões católicas, bailes rurais, fazendas coloniais e folias de reis.
O olhar crítico e sensível do artista também capturou as transformações geográficas da região, registrando as marcas e a degradação deixadas pelos ciclos econômicos. Na técnica, tinha o que a crítica chama de "horror ao vazio": suas telas são barrocas e feéricas, preenchidas detalhadamente com multidões festivas e elementos minuciosos, onde a presença de um característico casal de velhinhos tornou-se sua marca registrada.
 
==>O Legado da Autenticidade
José Assunção faleceu em 2003, deixando uma obra eternizada em acervos e exposições memoráveis (como as realizadas na própria Galeria do Centro Cultural Carlos Drummond de Andrade, em Itabira). Ele nos ensinou que a grande arte nasce da capacidade de olhar para a própria comunidade com orgulho e sensibilidade. Sua pintura tornou permanente o que o tempo teima em tornar transitório.
Como forma de encerrar essa justa homenagem, vale destacar algumas das telas mais emblemáticas criadas pelo mestre. Entre a imensa riqueza de seus cerca de 2 mil quadros, destaca-se a consagrada obra "Folia de Reis"—com a qual o pintor recebeu a premiação máxima em uma importante exposição nacional no Rio de Janeiro, em 1978—além de composições marcantes como "Cidade Brasileira", que ilustra perfeitamente sua habilidade única em registrar as nuances e o colorido do cotidiano urbano e rural de nosso país.

 Glossário Cultural
1-Arte Naïf (ou Primitivista): Termo de origem francesa (que significa "ingênuo") usado para descrever a arte produzida por artistas autodidatas, ou seja, que não passaram por formação acadêmica tradicional em escolas de belas artes. Caracteriza-se pela liberdade técnica, cores puras, ausência de perspectiva geométrica e forte apelo narrativo e popular.
2-Barroco / Estética Barroca (na pintura Naïf): No contexto da crítica de arte aplicada a José Assunção, refere-se ao acúmulo expressivo de personagens, detalhes e ornamentos que preenchem todo o espaço da tela, deixando poucas áreas vazias.
3-Cronista Visual: Artista que usa as imagens, traços e cores (em vez das palavras escritas) para documentar, registrar e narrar os costumes, as transformações e o cotidiano de uma época ou localidade.
4-Estandarte / Bandeira Religiosa: Peça de tecido decorada com imagens de santos, rimas ou símbolos sagrados, muito utilizada para abrir procissões, cortejos de Folia de Reis e festas de padroeiros no interior do Brasil.
5-Feérico: Algo encantador, fantástico, luminoso ou intensamente festivo. Uma obra feérica transmite uma atmosfera de celebração e vivacidade mágica por meio das cores.
6-Folia de Reis: Tradicional manifestação cultural e religiosa católica brasileira que celebra a visita dos Três Reis Magos ao Menino Jesus, envolvendo música, dança, versos e roupas coloridas.
 
Por Lúcia Tânia Augusto 

À Margem do Rio, o Fluxo da Memória: Hibridismo, Inclusão e Políticas de Fomento Cultural em Minas Gerais


"Também se conhece o rio pelo que fica à margem."
— Lúcia Tânia Augusto
 Introdução: O Rio e suas Margens
O fluxo de um rio não se define apenas pela força de sua correnteza principal, mas pela complexidade das dinâmicas que ocorrem em suas bordas. É na margem que a terra encontra a água, onde a vegetação se ampara e onde os detritos e as riquezas se depositam. 

Transpondo a metáfora para o campo das políticas públicas de cultura e do fomento em Minas Gerais, a história oficial muitas vezes se comporta como o leito central: linear, imponente e visível. No entanto, para compreender a totalidade da identidade cultural de um território, é preciso lançar o olhar para as margens.

A Epocriativa - Escritório de Projetos de Arte e Cultura nasce, em 2018, dessa premissa. Compreendendo que o folclore e a cultura popular não são relíquias estáticas de um passado intocado, a empresa foca sua atuação na pesquisa de linguagens artísticas capazes de dar voz, corpo e sentido às narrativas que historicamente foram empurradas para a periferia da visibilidade social.

 Investigar essas linguagens é, antes de tudo, um ato político de descentralização e democratização do fomento cultural. Compreenda: 
 
1. O Hibridismo Cultural e a Tradição Viva
Para que as políticas públicas de cultura superem a visão paternalista e purista do folclore, é indispensável o entendimento do conceito de "hibridismo cultural". As manifestações populares mineiras — como os Congados, as Folias de Reis e o artesanato tradicional — não sobreviveram ao tempo por estarem isoladas em redomas de vidro, mas sim pela sua capacidade crônica de contaminação e ressignificação mútua.
Como aponta Néstor García Canclini em "Culturas Híbridas, (1989), a modernidade não eliminou as culturas tradicionais; em vez disso, gerou uma reestruturação onde o culto, o popular e o massivo se interpenetram. 

O folclore, portanto, é um processo dinâmico de reconversão cultural.

 Complementarmente, Homi Bhabha, em "O Local da Cultura", (1994), introduz a noção de "entre-lugar", o espaço liminar onde as identidades são negociadas e onde o hibridismo atua como uma estratégia de resistência à hegemonia.

 Apoiar a cultura popular por meio do fomento público significa reconhecer esse "entre-lugar" como um espaço legítimo de produção de conhecimento e inovação social.


2. Da Queima dos Totens à Cristalização: 
As estratégias de colonização mais brutais para enfraquecer a unidade e a resistência de um grupo consistiam em queimar os seus totens centrais. Destruir o símbolo máximo de conexão e sagrado de uma comunidade era uma forma de desestruturar sua identidade, dispersar suas forças e impor o esquecimento. No cenário contemporâneo das políticas culturais, embora o fogo físico tenha sido deixado de lado, operam-se mecanismos mais sutis, mas igualmente perigosos, de desestruturação simbólica. Um deles é o deslocamento forçado da cultura popular em direção aos grandes centros urbanos.
Quando trazemos para as capitais, como Belo Horizonte, as manifestações populares — arrancando-as das datas em que ocorrem tradicionalmente em seus territórios —, promovemos um duplo processo de violência cultural. 
a) Por um lado, esvaziamos de significados o local de sua origem, privando a comunidade detentora de vivenciar seu próprio rito em seu tempo e espaço sagrados.
b) Por outro, promovemos uma cristalização em seu destino, transformando o que era uma prática viva, comunitária e orgânica em um espetáculo estático, pasteurizado para o consumo da plateia urbana.

A salvaguarda de uma manifestação cultural em seu território de origem não é apenas um ato de preservação, mas uma estratégia estruturante de desenvolvimento socioeconômico local capaz de fixar as novas gerações à sua própria terra. 

Quando o fomento público valida e assegura que o rito permaneça em seu lugar de pertencimento, ele transforma a tradição em um ativo vivo, gerando oportunidades reais de trabalho e renda para os nativos e atraindo investimentos diretos para a comunidade. Mais do que movimentar a economia local, a valorização da raiz territorial devolve a dignidade e o sentido de futuro aos jovens e crianças; ao perceberem que sua cultura é respeitada e autossustentável, as novas gerações deixam de ser compelidas ao êxodo urbano e passam a assumir, com orgulho, o papel de guardiãs da ancestralidade.

3. Walter Benjamin: A Reprodutibilidade e a História a Contrapelo
O aporte teórico de Walter Benjamin é fundamental para desmitificar o purismo estético e validar as novas aplicações das linguagens artísticas no campo da acessibilidade e da inclusão. Em seu célebre ensaio "A Obra de Arte na Era de Sua Reprodutibilidade Técnica" (1936), Benjamin discute a perda da "aura" do objeto artístico a partir do momento em que ele pode ser reproduzido de forma técnica. Se, por um lado, a cópia destrói a exclusividade do original, por outro, ela promove a liquidação do valor cultual da arte em prol do seu valor político, aproximando a obra das massas.

Quando a Epocriativa transpõe uma narrativa oral do folclore para um kit pedagógico tridimensional ou um recurso tátil, ocorre um processo análogo ao benjaminiano, mas de forma inversa ao esvaziamento urbano: retira-se o folclore do altar da contemplação passiva e confere-se a ele uma reprodutibilidade utilitária, democrática e inclusiva. Não se desloca o detentor da fé; traduz-se a sua essência em linguagem pedagógica.

Mais do que isso, em  "Teses Sobre o Conceito de História" (1940), Benjamin nos convoca a "escovar a história a contrapelo", formulando o conceito da "Tradição dos Oprimidos". 

A história oficial é escrita pelos vencedores, que desfilam sobre os corpos e as memórias dos vencidos. Benjamin escreve:
"A tradição dos oprimidos nos ensina que o 'estado de exceção' em que vivemos é na verdade a regra. Precisamos chegar a um conceito de história que corresponda a essa intuição."

Se os colonizadores do passado queimavam os totens para apagar as pistas da resistência, a história a contrapelo se dedica a recolher as cinzas e reconstruir a memória. O folclore e a cultura popular são, por excelência, os arquivos dessa tradição dos oprimidos. São as histórias que ficaram à margem. O fomento público à cultura não pode ser apenas um balcão de distribuição de recursos; deve ser um instrumento de reparação histórica que financia a escavação e a manutenção dessas memórias em suas próprias bases.
 
4. Práticas Inclusivas: O Curso "Como Contar Histórias"
A tradução prática desse arcabouço teórico materializa-se em ações formativas voltadas para a educação inclusiva. O curso **"Educação Inclusiva – Módulo 1: Como contar histórias..."  desenvolvido pela Epocriativa, toma para si a missão de resgatar o que está à margem sem desterritorializar a memória.
Se a história que ficou à margem precisa ser contada, ela também precisa ser acessível a todos os corpos, sentidos e mentes. 

No contexto da mediação cultural, contar histórias utilizando recursos tridimensionais e sonoros é uma forma de romper com o império do visualocentrismo, permitindo que a pessoa com deficiência visual, por exemplo, também navegue e compreenda a densidade da correnteza do rio.

A metodologia do curso ensina que o objeto tátil e a oralidade performática são ferramentas de hibridização pedagógica. Ao tocar um objeto que representa uma figura do folclore ou um elemento da memória local, o estudante reconstrói a história a partir de sua própria vivência, descentralizando o papel do narrador e tornando a aprendizagem um processo coletivo e democrático. É a pedagogia aplicada como salvaguarda da tradição dos oprimidos dentro das salas de aula, mostrando às crianças e jovens locais que a cultura de sua comunidade possui imenso valor científico, artístico e pedagógico.


Conclusão: O Fomento e o Horizonte do Bem Viver:
Conhecer o rio pelo que fica à margem exige das políticas públicas de cultura e fomento em Minas Gerais uma mudança profunda de perspectiva geográfica e social. O fomento descentralizado e focado no patrimônio imaterial é o que permite que as comunidades tradicionais alcancem a sustentabilidade, a geração de trabalho local e a autonomia em suas próprias terras, combatendo o esvaziamento econômico e demográfico do interior.

A atuação da Epocriativa aponta para um horizonte onde a gestão cultural e a educação inclusiva caminham juntas. Ao validar o hibridismo, dar escala à acessibilidade, fixar as riquezas em seus territórios de origem e escovar a memória a contrapelo, o fazer cultural se alinha à filosofia do 'Bem Viver', transformando o fomento em um direito pleno de cidadania, onde nenhuma história, jovem ou trabalhador seja deixado à margem do caminho.
 
Glossário de Termos Técnicos
 1-Aura (Benjaminiana): Conceito de Walter Benjamin que define a singularidade, a autenticidade e a distância intransponível de uma obra de arte tradicional, ligada à sua origem ritual e de contemplação única.
 2-Bem Viver (Sumak Kawsay):Filosofia de matriz indígena latino-americana que propõe uma forma de vida baseada na harmonia entre os seres humanos, a comunidade e a natureza, priorizando o bem-estar coletivo em detrimento do acúmulo material e do desenvolvimento predatório.
 3-Cristalização Cultural: Processo pelo qual uma prática cultural viva e dinâmica é paralisada, rotulada e transformada em um estereótipo estático, geralmente para atender às expectativas de consumo visual de públicos externos ao seu território original.
4-Desterritorialização: Fenômeno de perda ou enfraquecimento das relações que unem uma comunidade e suas manifestações culturais ao seu espaço geográfico e simbólico de origem.
 5-Entre-lugar: Conceito cunhado por Homi Bhabha que designa o espaço de articulação e negociação cultural que se abre entre identidades e discursos estabelecidos, onde formas de resistência e hibridismo ganham vida.
 6-Escovar a História a Contrapelo: Expressão metodológica de Walter Benjamin que propõe ler e interpretar a história a partir do ponto de vista dos vencidos, desconstruindo a narrativa linear e triunfalista das classes dominantes.
 7-Fomento Cultural: Conjunto de mecanismos financeiros e institucionais (como leis de incentivo, fundos e editais públicos) promovidos pelo Estado para apoiar, incentivar e viabilizar a produção, circulação e preservação de bens culturais.
 8-Hibridismo Cultural: Processo de mistura, interpenetração e reconversão de diferentes práticas e discursos culturais (o tradicional, o moderno, o local, o global), resultando em novas formas e linguagens dinâmicas.
 9-Sustentabilidade Intergeracional: Capacidade de manter viva uma tradição ou recurso ao longo do tempo através do envolvimento ativo, capacitação e retenção das gerações mais jovens, garantindo que elas se tornem as futuras guardiãs desse legado.
 10-Tradição dos Oprimidos: Conceito de Walter Benjamin que aponta para a persistência histórica das lutas, memórias e saberes das classes e grupos subalternizados, que resistem à opressão através de suas próprias manifestações e narrativas.


Fontes de Pesquisa e Referências Bibliográficas
 -BENJAMIN, Walter."A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica". In: Magia e Técnica, Arte e Política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Tradução de Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 2012. (Obras Escolhidas, v. 1).
 -BENJAMIN, Walter. "Teses sobre o conceito de história". In: Estéticos e Políticos: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1987.
 -BHABHA, Homi K."O local da cultura". Tradução de Myriam Ávila, Eliana Lourenço de Lima Reis, Gláucia Renate Gonçalves. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1998.
 -CANCLINI, Néstor García."Culturas híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade". Tradução de Ana Regina Lessa e Heloísa Pezza Cintrão. 4. ed. São Paulo: Editora da USP, 2003.
 EPOCRIATIVA."Relatórios técnicos, portfólio institucional e ementas de cursos de Educação Inclusiva". Belo Horizonte/Itabira, 2026.
 -AUGUSTO, Lúcia Tânia. "Registros e proposições poético-pedagógicas sobre cultura e margem". Belo Horizonte, ensaio pessoal / postagem conceitual.


link: https://luciataniaugusto.blogspot.com/2026/02/no-que-diz-respeito-aos-servicos-e.html

domingo, junho 21

O olhar da Onça: mito, contação de histórias, folclore e os caminhos da pesquisa em Minas Gerais


Por Lúcia Tânia Augusto**
Parar de ranger (afiar) os dentes e aceitar conversar com a Onça que existe em mim é o motivo da escrita desse texto. A "boca da mina" de uma itabirana resolve reverenciar alguns autores prediletos e uma temática de retorno às raízes da mineração.
 
Entenda: há um "paradoxo entre ferro & Onça" que forja a espinha dorsal de todas as pesquisas sobre o mito fundador de Minas Gerais. Escrever sobre o solo mineiro é, inevitavelmente, tatear a cicatriz aberta pela exploração mineral, em seus ciclos — uma ferida que não é apenas geográfica, mas também social, existencial e mitológica.
 
Compreender o abismo que separa a promessa do progresso, de riqueza, e o mito arquetípico da Onça é um exercício importante para a pesquisa folclórica.
 
Nesse cruzamento de ideias, as lentes de Maria Cecília Minayo, Carlos Drummond de Andrade, Guimarães Rosa e a pesquisa folclórica de Romeu Sabará nos oferecem as chaves para decifrar a nossa própria tragédia.
 
Como em Édipo e Iauaretê, cria-se uma dependência existencial onde a identidade local é mutilada e, portanto, para assumir a origem, o retorno, precisamos matar o pai dentro de nós.
 
Essa dinâmica do extrativismo mineral opera em Minas Gerais, desde sua origem, sob o signo daquilo que a tragédia grega chamava de húbris: a arrogância desmedida. É a cegueira provocada pelo lucro que faz com que a não reciprocidade subjugue as leis da natureza e do pacto comunitário. A ausência de um autêntico arrependimento estrutural, o vício pelo lucro e a reincidência de crimes ambientais não são acidentes; são o desfecho previsível e inexorável de um modelo que traiu os princípios da partilha e do Bem Viver (Sumak Kawsay).
 
Mas como a literatura e a pesquisa se encontram? Em Drummond, a escolha pela via do realismo lírico-social. Drummond não se abrigou no disfarce; ele olhou nos olhos do monstro mecânico e registrou o aqui e o agora da devastação. Diante do avanço predatório, sua poesia é de uma clareza documental e de uma urgência política cortante. Ele aponta o dedo para o Cauê destruído e chora o Rio Doce. Do local para o universal: origem versus destino — parte 1.
 
Guimarães Rosa nos enlaça com a diplomacia do Mito. O Sertão é a Onça quando ele opta pela estratégia radicalmente diferente em Meu Tio o Iauaretê: origem versus destino — parte 2. Do universal para o local.
 
Em Estas Estórias, a estratégia encontra eco no famoso conselho que o mitólogo Joseph Campbell deu a George Lucas para a criação de Star Wars: afastar a narrativa no tempo ("há muito tempo atrás...") ou no espaço. Campbell defendia que esse distanciamento desarmava os filtros ideológicos imediatos do público. Ao jogar o drama para o tempo mítico do sertão e para o mistério da metamorfose, Rosa faz o mesmo. Ele arranca o sofrimento do nível factual e o eleva ao nível universal.
 
 A Lenda da Menina-Onça e o Destino de Minas.
É nessa mesma chave mítica que os estudos e registros do pesquisador Romeu Sabará sobre a Lenda da Menina-Onça se tornam cirúrgicos. A narrativa tradicional recolhida em sua pesquisa folclórica traz um profundo alerta moral sobre as consequências da ruptura com o sagrado e com os limites impostos pela natureza.
 
A Lenda:
 "Conta-se a história de uma jovem indígena cuja mãe, por um engano fatal nascido da distração ou da desmedida em meio à floresta, quebra um resguardo ou preceito tradicional com as forças da mata. Como consequência imediata desse erro ancestral, a menina é alvo de um castigo-destino irrevogável: sua forma humana se desfaz e ela é transformada em Onça. Ao virar fera, ela passa a habitar a solidão das matas, tornando-se o próprio símbolo da natureza incompreendida e ultrajada que agora espreita aqueles que cruzam suas fronteiras."
 
O engano da mãe e o castigo da metamorfose deixam de ser um mero conto popular para se transformar em uma poderosa alegoria geopolítica da mineração.
 
O folclore na Contação de Histórias ocupa este lugar de respiro. De aceitação e não acomodação.
Longe de serem fugas da realidade, os mitos são, no fundo, as sentinelas que guardam a memória daquilo que a ganância tentou apagar.
 

Este artigo foi gerado por meio das reflexões e debates travados com Romeu Sabará na Casa Aleijadinho. Trata-se de uma introdução à proposta da palestra "O Olhar da Onça: Mito, Contação de histórias e os Caminhos da pesquisa em Minas Gerais" do Núcleo de Estudos Histórico-Culturais-Casa Aleijadinho-Ofícios (NEHCCA-O) ministrada por Lúcia Tânia Augusto, membro efetivo da Comissão Mineira de Folclore, Gestora Cultural, Analista de Políticas Públicas  e Proprietária da Epocriativa - Escritório de Projetos de Arte e Cultura, que tem como atividade principal a pesquisa em Ciências Humanas.

Fontes e Referências Bibliográficas
Se você deseja se aprofundar nos conceitos, ensaios e obras que fundamentaram esta análise, consulte as seguintes fontes:

 -ANDRADE, Carlos Drummond de. Sentimento do Mundo e Boitempo. (Poemas: "Confissão", "O Maior Trem do Mundo" e "Lira Itabirana"). Rio de Janeiro: Record.
 -CAMPBELL, Joseph. O Herói de Mil Faces*. São Paulo: Pensamento, 1995. (Para compreender a estrutura mítica e o distanciamento temporal na narrativa).
 -GALVÃO, Walnice Nogueira. "O impossível retorno". In: As formas do falso. São Paulo: Perspectiva, 1972. (Ensaio crítico seminal sobre a metamorfose e a perda da civilização em 'Meu Tio o Iauaretê').
 -MINAYO, Maria Cecília de Souza. Homens de Ferro: Estudo sobre os trabalhadores da Vale do Rio Doce. Rio de Janeiro: Dois Pontos, 1986. (Obra sociológica essencial sobre o impacto humano e identitário da mineração em Itabira).
 -ROSA, João Guimarães. "Meu Tio o Iauaretê". In: Estas Estórias*. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. (Conto que narra a transformação do zagaieiro em Onça).*
 -SABARÁ, Romeu. Estudos do Folclore Mineiro e Contos Tradicionais. (Registro etnográfico e análise mítica da lenda da Menina-Onça e os preceitos do território).
 -SÓFOCLES. Édipo Rei. Tradução de Mário da Gama Kury. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. (Texto clássico sobre a inevitabilidade do destino e a investigação de si mesmo).
 
Zagaieiro é o caçador que utiliza a zagaia como arma principal.
A zagaia é uma espécie de lança ou arpão curto, feito de madeira resistente com uma ponta de ferro ou aço afiada, usada manualmente para golpear o animal à curta distância.
No contexto histórico do Brasil — e especialmente na literatura de Guimarães Rosa, como no conto Meu Tio, o Iauaretê —, o zagaieiro era o caçador especializado em enfrentar onças.
Essa era considerada uma das formas mais perigosas e técnicas de caça: o zagaieiro não usava armas de fogo. Ele precisava atiçar a onça, esperar que ela saltasse em sua direção e, no exato momento do salto, fincar a base da zagaia no chão e direcionar a ponta de ferro no peito do animal, utilizando a própria força e o peso do salto da onça para abatê-la.
Era um ofício que exigia enorme coragem, precisão e um conhecimento profundo do comportamento do felino — características que moldam a psicologia do protagonista do conto de Rosa, que começou a vida como um "vacafeiro" (vaqueiro) e caçador de onças para os fazendeiros antes de iniciar sua metamorfose mítica. 

quinta-feira, junho 18

A Pedagogia Além do Olhar: Domine a Arte de Contar Histórias para Todos e Multiplique Seu Impacto na Sala de Aula. Inscreva-se Já!

 




Quando um professor ou mediador planeja suas aulas de contação de histórias com o olhar voltado para acolher crianças com deficiência visual, algo profundo muda na estrutura da escola. Existe um princípio fundamental na pedagogia contemporânea que nos ensina muito: quando a educação se torna melhor e mais acessível para poucos, ela inevitavelmente se transforma em uma educação infinitamente melhor para todos. 

 

 Não se trata de isolar ou criar um planejamento paralelo, mas sim de expandir os canais de comunicação e sensibilidade para que ninguém fique de fora.

Essa premissa encontra eco no Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA), conceito derivado da arquitetura que migrou para a educação na década de 1990. A lógica é simples e transformadora: o que é essencial para garantir o acesso de um aluno com deficiência visual acaba se tornando um estímulo lúdico, dinâmico e extremamente benéfico para o aprendizado de toda a turma. 

Ao desenhar estratégias inclusivas para a Educação Infantil e o Ensino Fundamental I, o educador amplia sua própria visão sobre o significado da educação, rompendo com o modelo de ensino homogêneo e excludente.

O Encontro entre a BNCC, as Narrativas e as Artes Integradas

 

Alavanque Suas Competências Pedagógicas: O Segredo da BNCC e da Música na Educação Inclusiva — Garanta Sua Vaga! ☺☝❤👋

 A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) nos mostra que trabalhar com narrativas no componente de Língua Portuguesa vai muito além de decodificar palavras. 


Quando unimos as narrativas às Artes Integradas, rompemos as barreiras tradicionais entre as linguagens artísticas (música, teatro, dança e artes visuais). Sob o teto das Artes Integradas, ativamos dimensões fundamentais do conhecimento:

  • Criação e Expressão: Onde as ideias e sentimentos ganham forma de maneira inventiva, misturando diferentes meios artísticos.

  • Fruição e Estesia: O desenvolvimento da sensibilidade, da imaginação e da percepção sensorial — algo vital no contexto da deficiência visual, onde o som, o toque e o relevo constroem mundos inteiros.

  • Crítica e Reflexão: O momento em que as crianças analisam, investigam e emitem juízos sobre o que experimentaram e sobre as produções de sua cultura.

O Povo Brasileiro: Identidade, Ciência e Som

O povo brasileiro é essencialmente musical, tem a base da sua sabedoria na oralidade.  

Trazer o folclore e a música para a contação de histórias é aproximar a oralidade e a ludicidade da identidade dos alunos, tocando em conceitos profundos de alteridade (o reconhecimento do outro) e pertencimento.

Essa conexão também abre portas para o diálogo entre diferentes áreas do conhecimento, promovendo uma valiosa interdisciplinaridade entre a música e a ciência. Um excelente norteador para o professor que deseja explorar a curiosidade natural dos pequenos é a coleção "Vamos explorar ciências", especificamente o volume "Som & música" (de David Evans e Claudette Williams, Editora Ática). Essa obra nos lembra que o papel do mediador é incentivar a exploração ativa, estimulando as crianças a usarem todos os sentidos para fazer descobertas sobre o mundo físico, investigando como o som se propaga, como os ritmos se formam e como o próprio corpo reage às vibrações sonoras.

Vem Aí: Módulo 2 – Como Contar Histórias Cantando


 INTERAÇÃO-MEMORIZAÇÃO-EXPRESSIVIDADE

Se você quer ver essa teoria pulsar na prática e qualificar ainda mais sua oratória pedagógica, prepare-se para o nosso próximo encontro formativo. No Módulo 2: "Como contar histórias cantando", vamos mergulhar fundo nas raízes míticas do nosso folclore e desvendar o poder dos símbolos nas ricas narrativas dos congadeiros mineiros.


 

Ampliamos o nosso arco de experiências e preparamos um sábado letivo inesquecível, repleto de trocas, saberes e ferramentas práticas de planejamento, execução e avaliação.

Anote na Agenda:

  • Data: 22 de agosto de 2026 (Sábado)

  • Horário: Das 08h às 17h

  • Local: Escola Municipal Coronel José Batista

Participações e Parcerias Especiais

Para enriquecer o nosso dia, contaremos com a presença iluminada do Coletivo "Cantos de Congo" e com o Ponto de Cultura Clube de Mães Santa Ruth, que estará presente com uma linda Barraca de Produtos Inclusivos das Epocriativas.

Facilitação e Vivência Real

Nesta edição, a condução do curso ganha uma força coletiva muito especial. Teremos quatro facilitadoras liderando os trabalhos, sendo três delas mulheres e educadoras com deficiência visual, trazendo a riqueza de suas próprias trajetórias e saberes pedagógicos e sensoriais:

  • Thayná (Educadora)

  • Cleide Cissa (Contadora de histórias e mediadora cultural)

  • Cassiana (Educadora)

  • Lúcia Tânia Augusto (Criadora do projeto e proprietária da Epocriativa - Escritório de Projetos de Arte e Cultura)

Venha descobrir como transformar sua prática pedagógica em um espaço onde a sensibilidade, a ciência, a música e a literatura se encontram para garantir que o direito de aprender seja, de fato, de todos. Esperamos você!


 

Onde pesquisar mais

  • AGÊNCIA EUROPEIA PARA AS NECESSIDADES ESPECIAIS E A EDUCAÇÃO INCLUSIVA. Cinco Mensagens-Chave para a Educação Inclusiva. Odense, Dinamarca: European Agency for Special Needs and Inclusive Education, 2014. (Documento que fundamenta o impacto social e pedagógico da inclusão na melhoria dos sistemas de ensino globais).

  • CAST (Center for Applied Special Technology). Universal Design for Learning Guidelines version 2.2. Wakefield, MA, 2018. (Apresenta as diretrizes do Desenho Universal para a Aprendizagem, demonstrando como a diversificação de linguagens beneficia o cérebro de qualquer estudante).

  • DECLARAÇÃO DE SALAMANCA. Sobre Princípios, Políticas e Práticas na Área das Necessidades Educativas Especiais. Espanha, 1994. (O grande marco político internacional que estabeleceu a escola inclusiva como o meio mais eficaz para combater a discriminação e qualificar o ensino).

  • EVANS, David; WILLIAMS, Claudette. Coleção "Vamos explorar ciências" - Volume "Som & música". São Paulo: Editora Ática, 1993 (by Dorling Kindersley Limited, London). (Livro do professor focado em guiar a exploração sensorial e científica na infância).

  • MANTOAN, Maria Teresa Eglér. Inclusão Escolar: O que é? Por que é? Como fazer? São Paulo: Moderna, 2003. (Obra nacional de referência sobre como a reorganização da escola para atender à diferença qualifica e enriquece a educação para a totalidade dos alunos).

segunda-feira, junho 15

Do Povo Veio, ao Povo Voltarás: O Domínio Público e a Função Social do Mito

 

Do Povo Veio, ao Povo Voltarás: O Domínio Público e a Função Social do Mito

A preservação e a difusão das obras em domínio público representam um dos pilares mais bonitos da nossa inteligência coletiva. Quando os direitos patrimoniais de uma obra expiram, ela deixa de ser uma propriedade privada e passa a ser um bem comum, um pedaço da identidade da humanidade que ninguém pode cercar ou privatizar.


 

🏛️ 1. A Importância de Preservar o Domínio Público

Se o domínio público é livre, por que precisamos nos preocupar em preservá-lo?

  • Combate ao Esquecimento: Muitas obras de autores fundamentais que caem em domínio público correm o risco de desaparecer se não forem digitalizadas, reeditadas ou guardadas por bibliotecas e arquivos. Preservar é garantir que o passado continue conversando com o presente.

  • Democratização do Acesso: Obras em domínio público podem ser distribuídas de graça, impressas a baixo custo ou adaptadas para formatos acessíveis (como audiolivros, braille e materiais táteis para educação inclusiva), sem a barreira financeira dos direitos autorais.

  • Combustível para a Nova Criatividade: O domínio público permite a releitura. Grandes clássicos do cinema, do teatro e da literatura só existem porque artistas puderam pegar histórias antigas (como os contos de fadas ou as peças de Shakespeare) e reinventá-las para o seu tempo, sem medo de processos judiciais.

⚖️ 2. O Princípio Jurídico e Filosófico: Da Tradição Oral ao Domínio Público

"Do povo veio, ao povo voltará." Este é o princípio básico que Joseph Campbell estabeleceu como mitólogo ao estudar a Idade Média, os ritos de passagem e a psicologia por trás dos mitos. Ao investigar as estruturas das narrativas universais, Campbell identificou que a verdadeira função social do mito é preservar e educar. As histórias funcionam como ferramentas de iniciação e acolhimento psíquico para os indivíduos dentro de suas comunidades.

Sob essa ótica, o instituto jurídico do domínio público nada mais é do que a tradução legal desse movimento natural da cultura. A legislação entende que a propriedade intelectual possui uma função social e opera em um sistema de equilíbrio:

  1. O prêmio temporário ao criador: Durante um tempo determinado (a vida do autor + 70 anos, no caso do Brasil), a lei garante o monopólio comercial para que o artista e seus herdeiros diretos possam viver do fruto daquele trabalho.

  2. O retorno definitivo à coletividade: Passado esse período, a obra deve ser devolvida à sociedade que serviu de berço para aquele autor. Afinal, como Campbell bem apontava, nenhum escritor, pintor ou pensador cria algo do absoluto zero; todos eles bebem das dores, dos ritos, da língua e da alma do seu povo.

📝 Nota importante: Mesmo no domínio público, os direitos morais do autor são eternos e inalienáveis. Isso significa que qualquer pessoa pode vender ou usar a obra, mas é obrigada por lei a manter o nome do autor original e respeitar a integridade da obra.

📜 3. Como o Domínio Público foi Construído Historicamente?

A ideia de que uma obra deve retornar ao ecossistema comum após um tempo foi construída a duras penas ao longo dos séculos, evoluindo junto com a tecnologia:

A Invenção da Imprensa (Século XV)

Antes da prensa de Gutenberg, os livros eram copiados à mão pelos monges enclausurados. Não existia o conceito de "cópia ilegal". Com a facilidade de imprimir livros em massa, os livreiros e impressores começaram a exigir monopólios da coroa real para serem os únicos autorizados a vender determinados títulos. Eram os chamados "privilégios".

O Estatuto de Ana (1710 - Inglaterra) Rainha Ana da Grã-Bretanha que reinou de 1702 a 1714.**

Este é considerado o marco zero do direito autoral moderno e do domínio público. Pela primeira vez na história, o foco mudou do impressor para o autor. A lei inglesa estabeleceu que o escritor tinha o direito exclusivo sobre sua obra por um tempo limitado. Pela primeira vez, ficou determinado por lei que, após esse prazo, a obra se tornaria de uso livre para todos.

A Convenção de Berna (1886)

À medida que o mundo se globalizava, os países viram a necessidade de internacionalizar essas regras. Liderada pelo escritor francês Victor Hugo (autor de Os Miseráveis), a Convenção de Berna unificou as leis de direito autoral pelo mundo. Foi ela que começou a moldar os prazos longos que temos hoje, garantindo que a proteção cruzasse as fronteiras nacionais.

Em resumo, alinhar o domínio público ao pensamento de Joseph Campbell nos lembra de que as histórias servem para nos manter humanos. Quando uma obra se torna pública, ela cumpre o seu destino final: volta para os braços do povo para continuar sua missão de educar, curar e preservar a nossa memória coletiva.

Por Lúcia Tânia Augusto 

**A criação desta norma marcou a transição histórica do controle absolutista da censura e monopólios de impressão para o embrião do moderno sistema de copyright. Você pode acessar a transcrição completa do texto original do estatuto no portal Avalon Project.

Contadores de histórias e patrimônio in(material): os que valorizam a sua origem e fazem do ofício seu destino

 Contadoras e contadores de histórias são curadores do patrimônio imaterial. São intocáveis, pois ao narrarem os fatos atualizam miticamente as histórias de pessoas e lugares na memória do povo, seus símbolos e eternizam, ao mesmo tempo, a memória do seu lugar. 

Há criações que nascem do desejo de abraçar a totalidade de um país. Recentemente, mergulhei em um exercício de curadoria visual e conceitual para traduzir, em uma única imagem, a força daqueles que guardam a nossa memória. O resultado é a arte que compartilha esta postagem, mas a história por trás dela merece ser contada com calma.

Desde tempos imemoriais, os contadores de histórias precisam sobreviver aos tempos de guerra e de paz. Afinal, se eles não ficarem, quem vai contar a nossa história? É dessa premissa básica sobre a nossa identidade que eu parto: quem assume essa missão é intocável. Deve ser imortalizado na sua obra e eternizado pelos seus sucessores — outros contadores de histórias que herdam o seu destino:

"Contadoras e contadores de histórias são curadores do patrimônio imaterial. São intocáveis, pois ao narrarem os fatos atualizam miticamente as histórias de pessoas e lugares na memória do povo, seus símbolos e eternizam, ao mesmo tempo, a memória do seu lugar."

 Para emoldurar esse pensamento, foi preciso desenhar uma constelação que fosse o espelho fiel do Brasil. O patrimônio imaterial não pertence a uma única classe, cor ou gênero; ele se manifesta na diversidade. Por isso, a composição dessa imagem buscou um equilíbrio profundo entre homens e mulheres, pretos e brancos, intelectuais de famílias tradicionais e vozes potentes que emergiram da pobreza profunda.


 

Olhar para essa moldura é passear pelas veias do Brasil:

  • Carlos Drummond de Andrade trazendo a herança e as pedras de Itabira.

  • Carolina Maria de Jesus transformando as dores e a vivência da Favela do Canindé em literatura universal.

  • Jorge Amado pintando com palavras a malandragem e a devoção de Salvador.

  • Cora Coralina guardando a doçura e o cotidiano de Goiás.

  • Ariano Suassuna costurando a erudição e o imaginário popular entre a Paraíba e Pernambuco.

  • Humberto Mauro capturando a alma e a luz da Zona da Mata Mineira através das lentes do cinema.

  • Clarice Lispector dividida entre a poética de Pernambuco e do Rio de Janeiro.

  • Graciliano Ramos esculpindo a resistência do homem no Sertão e Agreste do Nordeste.

  • Machado de Assis decifrando a ironia e os costumes do Rio de Janeiro.

  • Tarsila do Amaral com suas Cores Caipiras de São Paulo e o olhar sobre as Cidades Históricas de Minas Gerais.

  • Candido Portinari unindo a poética do interior paulista à boemia e à dignidade dos morros e favelas cariocas.

Essa tapeçaria humana nos mostra que a memória de um lugar não é feita apenas de monumentos de pedra, mas dos causos, dos afetos, dos mitos e da oralidade.

 Olhar para essa moldura é entender que a memória não brota do vazio. Ela tem chão, tem sotaque, tem pele. Tem origem. E quando esses artistas escolhem o ofício da palavra, do pincel ou da câmera, eles selam o seu destino: o de serem os arquitetos da alma do mundo.

Por Lúcia Tânia Augusto

 

 

quinta-feira, junho 4

Capacitação: Curso de Educação Inclusiva - Módulo 2 "Como contar histórias cantando" / A Jornada da experiência infantil com o livro tátil

 

O Universo na Ponta dos Dedos: Passo a Passo para Contar Histórias com Livros Táteis

No módulo dois vamos aprofundar as competências das participantes da Capacitação: Curso de Educação Inclusiva - Módulo 2 "Como contar histórias cantando" voltado para a Arte de Contar Histórias visando crianças com deficiência visual na Educação Infantil. 

Contar histórias é uma arte capaz de seduzir a atenção, despertar emoções e transportar os ouvintes para realidades mágicas. Quando pensamos na infância, esse momento é um dos pilares fundamentais para a construção do imaginário. Mais do que um momento de lazer, o processo de contação de histórias com livros táteis é um caminho de mediação afetiva desenhado especificamente para guiar a criança com deficiência visual rumo à autonomia literária e à capacidade de expressar seu próprio mundo através do reconto. 

Mas como garantir que essa experiência seja igualmente rica, inclusiva e encantadora para crianças com deficiência visual (DV)?

A resposta está no afeto, na mediação intencional e no uso dos livros táteis. Com base em práticas testadas no Instituto Benjamin Constant (RJ), apresentamos a seguir o passo a passo essencial criado para esse projeto de educação inclusiva — idealizado pela Epocriativa por Lúcia Tânia Augusto em parceria com Cleide Cissa, deficiente visual e contadora de histórias — que ganha ainda mais força com o lançamento deste Módulo 2. 

1. Acolhimento: Escolha e Conexão

Antes mesmo de abrir o livro, o segredo está no acolhimento. A escolha da narrativa deve respeitar a faixa etária e o interesse do público.

  • Estreite os laços: A contação de histórias requer proximidade física e afetiva. Posicione-se bem perto da criança com deficiência visual para que ela se sinta segura e integrada à dinâmica.

2. Contextualização: a gramática do conto ou do canto

Ao começar, o mediador deve "desenhar" o livro com as palavras, situando o pequeno leitor no contexto da obra:

  • Fale sobre os criadores: Apresente oralmente o título, o autor e o ilustrador. É fundamental que a criança saiba quem idealizou aquela obra.

  • Explique palavras difíceis: Durante a leitura, fique atento às reações. Se notar que algum vocábulo é desconhecido, elucide o significado no decorrer da própria história para não quebrar o encantamento.

3. A Pesquisa Tátil/Háptica

É aqui que a magia ganha forma física. Diferente do leitor vidente, que capta a imagem de relance, a leitura da criança com deficiência visual é morosa, contínua e direcionada.

  • Tatear enquanto escuta: À medida que você narra, incentive a criança a explorar as imagens táteis com as mãos. Cada página folheada é uma descoberta.

  • A importância da mediação: No início, guie as mãos da criança sutilmente, ajudando-a a associar o que ela ouve com as texturas e os relevos (componentes bidimensionais e tridimensionais) que ela está tocando.

4. O Estímulo à Autonomia e o Reconto

Conforme apontava o psicólogo Lev Vygotsky, a primeira experiência feita com o apoio de alguém mais experiente prepara a criança para agir sozinha no futuro.

  • Com o tempo e a repetição, a criança desenvolve uma memória tátil dos elementos da história.

  • O passo seguinte é a conquista da autonomia: a oportunidade de ter um livro acessível permitirá que ela leia (seja combinando o Sistema Braille e as imagens) e reconte a história espontaneamente, respeitando o contexto, mas deixando fluir sua própria imaginação.

O que torna um Livro Tátil eficiente?

Nem todo material é agradável ao toque, e o ato de tatear precisa ser prazeroso. Um bom livro tátil deve oferecer:

  1. Diversidade de texturas: Materiais que simulem diferentes sensações reais (pelos, relevos geométricos, asperezas).

  2. Componentes claros: Elementos bem colados e delimitados para que a exploração tátil faça sentido geométrico e espacial.

  3. Acessibilidade dupla: Texto em tinta (para o mediador vidente) aliado ao texto em Braille e ilustrações hápticas (para a criança).

💡 Dica de Ouro para Mediadores: Antes de apresentar um livro tátil, faça você mesmo uma pesquisa prévia sobre a aceitação dos materiais. Materiais desconfortáveis ou que soltam fiapos podem causar repulsa e afastar a criança da leitura.

Conclusão: Tornar o Mundo Tangível

Para quem não enxerga com os olhos, o mundo se torna real e visível através das mãos. Trazer luz ao imaginário de uma criança com deficiência visual vai muito além do que é audível. A imagem tátil solidifica conteúdos e abre as portas do universo literário de forma democrática. Afinal, a leitura é um direito de todos!

Este post foi inspirado no artigo científico "Um, dois, três, conte uma história outra vez", das pesquisadoras Cristina Silva Ribeiro de Souza e Lisânia Cardoso Tederixe (Revista Educação Pública, 2023).

Por Lúcia Tânia Augusto 


terça-feira, junho 2

A Revolução dos Dados Plurais

# A Revolução dos Dados Plurais: Por que a Interseccionalidade é a Próxima Fronteira das Métricas de Impacto Social e Cultural
No cenário contemporâneo da gestão pública, do mercado cultural e das estratégias corporativas de ESG, a palavra "diversidade" consolidou-se como um pilar indispensável. Editais de fomento, como a Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) e o Fundo Estadual de Cultura (FEC), estabelecem critérios rigorosos de ações afirmativas; paralelamente, o setor privado busca alinhar-se a metas robustas de inclusão. No entanto, um diagnóstico se torna cada vez mais evidente para gestores e pareceristas: as métricas tradicionais de diversidade tornaram-se superficiais e lineares.
Contabilizar grupos subrepresentados em caixas isoladas — mensurando apenas "quantas mulheres" ou "quantos profissionais negros" compõem uma equipe — falha em capturar a real complexidade das barreiras sociais. É nesse gargalo que a **interseccionalidade** emerge não apenas como um conceito teórico, mas como uma ferramenta métrica urgente e transformadora.
## O Limite da Diversidade Linear e o Risco do *Diversity Washing*
A abordagem linear da diversidade cria pontos cegos estatísticos e institucionais. Quando uma organização avalia seus indicadores de gênero de forma isolada de seus indicadores de raça ou acessibilidade, ela pode, inadvertidamente, mascarar a exclusão.
Por exemplo, uma instituição pode apresentar excelentes índices de contratação de mulheres, mas, ao cruzar os dados, constatar que nenhuma dessas mulheres é negra ou possui deficiência. Da mesma forma, políticas de inclusão voltadas para a pessoa com deficiência visual frequentemente desconsideram o impacto do etarismo sobre esse mesmo indivíduo.
Tratar marcadores sociais de forma estanque gera o que especialistas chamam de *diversity washing* (uma diversidade de fachada). Na prática cultural e social, isso significa que os recursos e as oportunidades de fomento continuam concentrados nos perfis que sofrem menos barreiras dentro de um grupo historicamente vulnerabilizado. A verdadeira inclusão exige olhar para a convergência.
## Métricas Interseccionais: Traduzindo Vivências em Indicadores
A interseccionalidade — conceito cunhado pela jurista norte-americana Kimberlé Crenshaw e amplamente debatido nos direitos humanos — propõe que as opressões e os privilégios não se somam, mas se multiplicam e se transformam quando combinados. Trazer essa perspectiva para a gestão orientada por dados (*data-driven*) significa desenhar **Indicadores de Representatividade Real (IRR)** e **Indicadores de Distribuição de Recursos (IDR)**.
Na prática, a criação de métricas interseccionais permite responder a perguntas complexas, tais como:
 * Como a verba de um projeto cultural está sendo distribuída entre profissionais que acumulam múltiplos fatores de exclusão?
 * Perfis interseccionais estão alcançando funções de liderança, curadoria e tomada de decisão, ou estão restritos à base operacional?
 * Quais os impactos reais de longo prazo na permanência e sustentabilidade econômica de coletivos formados por mulheres negras com deficiência ou idosos (60+) LGBTQIA+?
O desenvolvimento dessas matrizes de indicadores oferece legitimidade indiscutível aos relatórios de impacto, otimiza a aplicação de fundos públicos e confere segurança institucional e reputacional para empresas financiadoras.
## O Banco de Talentos Interseccional como Ativo Estratégico
Mapear a pluralidade exige um profundo letramento terminológico e uma coleta ética de dados sensíveis. O mercado cultural e social carece de ferramentas que facilitem o encontro entre quem contrata e quem detém essas múltiplas vivências.
Negócios de impacto social dedicados a essa curadoria específica — que estruturam bancos de dados focados em profissionais com pelo menos duas características prioritárias de inclusão — funcionam como pontes estratégicas. Eles poupam o tempo de busca das organizações e garantem que a representatividade na linha de frente e nos bastidores dos projetos seja genuína e qualificada.
## Capacitação: O Próximo Passo para Gestores
A transição de uma cultura de diversidade baseada em discursos para uma gestão baseada em evidências intersecionais exige formação técnica. É preciso instrumentalizar pareceristas, gestores de RH, analistas de ESG e secretarias de cultura para que saibam coletar, cruzar e auditar esses dados de forma eficaz.
Para responder a essa demanda de mercado e oferecer as ferramentas práticas para essa transformação metodológica, a **Epocriativa** desenvolveu uma formação exclusiva.
### Conheça o Curso: Métricas Interseccionais na Gestão Cultural e Social
Realizado pela **Epocriativa - Escritório de Projetos de Arte e Cultura**, este curso foi desenhado para capacitar profissionais a construir, auditar e aplicar matrizes de indicadores de impacto social profundo. Ao longo dos módulos, os participantes aprendem desde o letramento e mapeamento de dados até a formulação de relatórios de impacto de alta relevância para os setores público e privado.
Se você deseja liderar a próxima fronteira da inclusão social e cultural através de dados reais e metodologias consistentes, junte-se a nós nesta formação inovadora.

Projetos Culturais em 2026: Planeje a inclusão de PcDs na tomada de decisão hoje ou fique para trás

Gestão Cultural em 2026: Arte, Cultura e Acessibilidade como Pilares de Inovação
O ecossistema cultural mudou. Em 2026, planejar um projeto cultural já não permite que a acessibilidade seja tratada como um mero anexo ou um "ajuste de última hora". Hoje, a inclusão é a própria espinha dorsal da inovação e do impacto social na arte.

Mais do que cumprir exigências legais, integrar a acessibilidade desde a concepção de um projeto é uma estratégia para ampliar públicos, qualificar a entrega e garantir o direito pleno à fruição cultural.

Se você está desenhando o escopo do seu próximo projeto, confira as principais tendências, marcos regulatórios e práticas fundamentais para o cenário atual.

O Marco Regulatório: Entendendo a IN nº 10 do MinC
Para captar recursos e executar projetos de forma regular, o ponto de partida obrigatório é o alinhamento com a Instrução Normativa - IN/MinC nº 10, de 28 de dezembro de 2023. Esta normativa estabeleceu diretrizes claras e dividiu as obrigações em três dimensões fundamentais, que devem ser compatíveis com os produtos resultantes do seu objeto:

1. Acessibilidade Arquitetônica
Não basta que o público entre no espaço; ele precisa transitar com autonomia e dignidade. O projeto deve prever recursos que permitam o acesso de pessoas com deficiência, mobilidade reduzida ou idosas aos locais das atividades e também aos espaços acessórios. Isso inclui:

Banheiros adaptados, áreas de alimentação acessíveis e rotas de circulação desimpedidas.

Garantia de acessibilidade em palcos e camarins, assegurando que os artistas com deficiência também tenham pleno acesso ao ambiente de trabalho.

Criação de vagas reservadas em estacionamentos e previsão de filas preferenciais devidamente identificadas.

2. Acessibilidade Comunicacional
A mensagem e a experiência artística precisam romper barreiras sensoriais e intelectuais. O foco aqui é garantir o acesso de pessoas com deficiência intelectual, auditiva ou visual ao conteúdo dos produtos culturais. As medidas incluem:

Uso de audiodescrição, Língua Brasileira de Sinais (Libras), legenda para surdos e ensurdecidos (LSE) e textos em formatos acessíveis (como leitura facilitada).

Reserva de espaços adequados para pessoas surdas, localizados preferencialmente na frente do palco, garantindo visibilidade direta para os intérpretes de Libras.

3. Acessibilidade Atitudinal
A melhor infraestrutura falha se a equipe não souber acolher. Esta dimensão foca na eliminação de preconceitos e estigmas (capacitismo) por meio de:

Contratação de profissionais sensibilizados e capacitados para o atendimento de visitantes e usuários com diferentes deficiências.

Desenvolvimento de projetos pensados de forma inclusiva desde o primeiro rabisco no papel.

Tendência 2026: "Nada sobre nós, sem nós" na Tomada de Decisão
A grande virada de chave para os projetos culturais atuais está na governança. Acessibilidade não é caridade, é direito e perspectiva técnica. Por isso, duas ações são indispensáveis no desenho do escopo do seu projeto hoje:

Inclua Assessoria de Acessibilidade no Orçamento
Contratar uma consultoria especializada em acessibilidade cultural não é custo, é investimento que evita retrabalho e desclassificação em editais. Esses profissionais devem acompanhar o projeto desde a fase de planejamento, orientando a escolha do local, a contratação de fornecedores de tecnologia assistiva e a validação das peças de comunicação.

PcDs como Decisores dentro da Equipe
A presença de Pessoas com Deficiência (PcDs) não deve se limitar ao público-alvo ou a funções secundárias. A tendência consolidada em 2026 é integrá-las como consultores, curadores, diretores e coordenadores. Ter PcDs em posições de liderança e tomada de decisão garante que as soluções de acessibilidade sejam genuínas, funcionais e organicamente integradas à proposta estética do projeto.

Dicas Práticas para o seu Escopo
Matriz de Custos Realista: Reserve uma fatia considerável do orçamento para a acessibilidade (serviços de interpretação, audiodescrição, locação de rampas, banheiros químicos adaptados e consultorias). Projetos que subestimam esses custos enfrentam problemas graves na execução.

Cronograma Integrado: Os serviços de acessibilidade comunicacional (como a gravação de audiodescrição ou tradução de catálogos) precisam de tempo de maturação. Eles devem acontecer em paralelo à produção, e não na véspera da estreia.

Comunicação Transparente: Divulgue amplamente quais recursos de acessibilidade estarão disponíveis nas peças de divulgação do evento. O público precisa saber, com antecedência, que o espaço e o conteúdo foram pensados para ele.

Construir o futuro da cultura significa abrir as portas para todas as pessoas. Ao alinhar seu projeto à IN nº 10/2023 do MinC e trazer a comunidade PcD para o centro da tomada de decisões, seu projeto ganha relevância social, solidez jurídica e potência artística.

sexta-feira, maio 22

"Curso de Educação Inclusiva - Módulo 2: Como contar histórias cantando". Plano de aula: Acessibilidade, Aromaterapia e Narrativas com canto

 

 "Curso de Educação Inclusiva - Módulo 2: Como contar histórias cantando"

 

Esse plano demonstra de forma prática como a criatividade com propósito da Epocriativa une inclusão, arte e bem-estar no ambiente escolar!

PLANO DE AULA  

Ciranda dos Sabores

Primeiro, temos a letra e o vídeo com a música e, em seguida, um plano de aula lúdico, sensorial e inclusivo focado no desenvolvimento do olfato, expressão vocal e inteligência emocional, por meio de aromas conhecidos pela cultura popular. 

📝  Ciranda dos Sabores


 

(Letra e Música: Epocriativa)

(Introdução) (Ciranda, cirandinha...)

[Estrofe 1 - Manhã / Despertar] De manhã, o sol no rosto, Cheiro verde, bom pro gosto! É o alecrim pra despertar, Com manjericão pra pensar.

[Refrão - Movimento da Roda] HORA DA RODA GIRAR! (VEM SENTIR O CHEIRO!)

[Estrofe 2 - Tarde / Brincar e Acalmar] Hortelã pra refrescar, Pra acalmar, camomila, E a lavanda pra sonhar!

(Encerramento) (Ciranda sem fim...)

📘 Plano de Aula Inclusivo 

Tema: A Ciranda dos Aromas: Contar, Cantar e Sentir

  • Público-alvo: Crianças na Educação Infantil e Anos Iniciais do Ensino Fundamental (adaptado para inclusão de crianças deficientes visuais).

  • Objetivos: 1. Estimular o sentido do olfato através da aromaterapia pedagógica. 2. Promover a expressão vocal e corporal por meio do ritmo da Ciranda. 3. Trabalhar o acolhimento emocional (controle da timidez/vergonha e ansiedade) através do uso de ervas funcionais.

1. Preparação do Ambiente e Recursos Sensoriais

  • Estações de Cheiros (Potes Aromáticos): Prepare 5 potes opacos (ou saquinhos de tecido) contendo algodões embebidos com uma gota de óleo essencial puro (ou as próprias ervas frescas maceradas): Alecrim, Manjericão, Hortelã, Camomila e Lavanda.

  • Dica de Acessibilidade: Coloque etiquetas em Braille ou texturas diferentes em cada pote para autonomia da criança com deficiência visual.

  • Espaço: Uma sala ampla ou pátio onde as crianças possam formar uma roda de mãos dadas de forma segura.

2. Dinâmica do Cuidado com a Voz e Controle da Vergonha (Destaque do Ebook)

Antes de começar a cantoria, o professor abre a roda trazendo o conceito de "preparação e acolhimento" através das plantas. Essa etapa ajuda as crianças tímidas a se sentirem seguras para usar a voz:

  • Para as Cordas Vocais (A Voz Solta): O professor explica que plantas como a Malva, a Camomila e a Erva-doce são grandes amigas da nossa voz. Elas ajudam a "hidratar e abraçar" as cordas vocais, deixando a garganta macia para o canto. (Nota pedagógica: Excelente para professores e contadores de histórias usarem em forma de chá morno antes das apresentações!)

  • Para Acalmar a Vergonha/Ansiedade (O Coração Tranquilo): Sentir vergonha ou medo de cantar em público é natural. Para acalmar o coração acelerado e as mãos suadas antes de soltar a voz, respirar profundamente o aroma da Camomila ou da Erva-Cidreira (Melissa) aciona o cérebro, diminuindo o nervosismo e trazendo segurança emocional.

3. Desenvolvimento da Atividade Cantada (Passo a Passo)

  • Passo 1: A Narrativa do Dia (Contação de História): O professor começa contando a história de um dia inteiro (do amanhecer ao anoitecer). Conforme a história avança, os potinhos aromáticos correspondentes são passados de mão em mão na roda para que todas as crianças sintam os cheiros.

  • Passo 2: Sentir e Conectar: * "O dia acordou! Vamos respirar o Alecrim para dar energia!"

    • "Brincamos muito na hora do almoço... vamos respirar o Hortelã para refrescar!"

    • "O sol está se pondo, é hora de relaxar com a Camomila..."

  • Passo 3: A Dança da Ciranda: Com o ritmo bem marcado da música "Ciranda dos Sabores", as crianças dão as mãos. A batida forte serve como um mapa auditivo para as crianças deficientes visuais seguirem o passo da roda.

  • Passo 4: O Clímax do Refrão: Quando a música grita "HORA DA RODA GIRAR! (VEM SENTIR O CHEIRO!)", as crianças podem mudar a direção da roda ou dar passinhos para o centro e para trás, celebrando a união.

  • Passo 5: O Relaxamento Final: A música termina suavemente falando da Lavanda. O professor convida todas as crianças a deitarem no chão, fecharem os olhos, respirarem o aroma da lavanda e imaginarem o próprio sonho.

4. Avaliação e Resultados Inclusivos

A avaliação não deve focar na afinação ou perfeição do passo, mas sim em:

  • Participação e Interação: Como as crianças interagiram na roda e compartilharam os estímulos olfativos.

  • Autonomia: A segurança adquirida pela criança deficiente visual ao se guiar pelo som marcante da ciranda.

  • Expressão Emocional: A capacidade da criança de identificar o momento de agitação (energia) e o momento de relaxamento (paz).

Esse plano demonstra de forma prática como a criatividade com propósito da Epocriativa une inclusão, arte e bem-estar no ambiente escolar!

 


 

Arte Naïf, poesia do cotidiano: Viva José Assunção!

Há uma força extraordinária na arte que brota da pureza, da observação atenta do cotidiano e da ausência de amarras acadêmicas. A Ar...