Contadoras e contadores de histórias são curadores do patrimônio imaterial. São intocáveis, pois ao narrarem os fatos atualizam miticamente as histórias de pessoas e lugares na memória do povo, seus símbolos e eternizam, ao mesmo tempo, a memória do seu lugar.
Há criações que nascem do desejo de abraçar a totalidade de um país. Recentemente, mergulhei em um exercício de curadoria visual e conceitual para traduzir, em uma única imagem, a força daqueles que guardam a nossa memória. O resultado é a arte que compartilha esta postagem, mas a história por trás dela merece ser contada com calma.
Desde tempos imemoriais, os contadores de histórias precisam sobreviver aos tempos de guerra e de paz. Afinal, se eles não ficarem, quem vai contar a nossa história? É dessa premissa básica sobre a nossa identidade que eu parto: quem assume essa missão é intocável. Deve ser imortalizado na sua obra e eternizado pelos seus sucessores — outros contadores de histórias que herdam o seu destino:
"Contadoras e contadores de histórias são curadores do patrimônio imaterial. São intocáveis, pois ao narrarem os fatos atualizam miticamente as histórias de pessoas e lugares na memória do povo, seus símbolos e eternizam, ao mesmo tempo, a memória do seu lugar."
Para emoldurar esse pensamento, foi preciso desenhar uma constelação que fosse o espelho fiel do Brasil. O patrimônio imaterial não pertence a uma única classe, cor ou gênero; ele se manifesta na diversidade. Por isso, a composição dessa imagem buscou um equilíbrio profundo entre homens e mulheres, pretos e brancos, intelectuais de famílias tradicionais e vozes potentes que emergiram da pobreza profunda.
Olhar para essa moldura é passear pelas veias do Brasil:
Carlos Drummond de Andrade trazendo a herança e as pedras de Itabira.
Carolina Maria de Jesus transformando as dores e a vivência da Favela do Canindé em literatura universal.
Jorge Amado pintando com palavras a malandragem e a devoção de Salvador.
Cora Coralina guardando a doçura e o cotidiano de Goiás.
Ariano Suassuna costurando a erudição e o imaginário popular entre a Paraíba e Pernambuco.
Humberto Mauro capturando a alma e a luz da Zona da Mata Mineira através das lentes do cinema.
Clarice Lispector dividida entre a poética de Pernambuco e do Rio de Janeiro.
Graciliano Ramos esculpindo a resistência do homem no Sertão e Agreste do Nordeste.
Machado de Assis decifrando a ironia e os costumes do Rio de Janeiro.
Tarsila do Amaral com suas Cores Caipiras de São Paulo e o olhar sobre as Cidades Históricas de Minas Gerais.
Candido Portinari unindo a poética do interior paulista à boemia e à dignidade dos morros e favelas cariocas.
Essa tapeçaria humana nos mostra que a memória de um lugar não é feita apenas de monumentos de pedra, mas dos causos, dos afetos, dos mitos e da oralidade.
Olhar para essa moldura é entender que a memória não brota do vazio. Ela tem chão, tem sotaque, tem pele. Tem origem. E quando esses artistas escolhem o ofício da palavra, do pincel ou da câmera, eles selam o seu destino: o de serem os arquitetos da alma do mundo.
Por Lúcia Tânia Augusto

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