Entre Belo Horizonte, Itabira e o Rio de Janeiro, percorri caminhos abertos pela arte e pela pesquisa — e, diferente de Drummond, meu destino foi retornar com a minha empresa para Itabira. Esse retorno não foi imediato nem simples: foi tecido ao longo de anos de vivências, encontros e deslocamentos que moldaram minha escuta, meu olhar crítico e meu compromisso ético com a cultura.
Como artista e pesquisadora independente, participei de projetos culturais que marcaram profundamente minha formação estética e política. Atuei como atriz no filme Vinho de Rosas (2005), dirigido por Elza Cataldo, onde conheci Maurício Tizumba. Anos depois, o reencontro no Rio de Janeiro — agora como um dos protagonistas do espetáculo Grande Otelo – Eta Moleque Bamba! — revelou como a cultura cria círculos invisíveis de continuidade e pertencimento.
Fui convidada pelo diretor teatral André Paes Leme para integrar o projeto Grande Othelo – 90 anos, realizando a organização do acervo do artista e a pesquisa para o espetáculo, no qual também atuei como assistente de direção. Em paralelo, dei suporte de pesquisa a Sérgio Cabral para o livro Grande Otelo: uma biografia. Essa experiência foi decisiva para aprofundar minha consciência sobre a preservação da memória negra no Brasil e sobre os desafios enfrentados pelas famílias na gestão do patrimônio cultural deixado por artistas negros — uma reflexão que carrego até hoje.
Atuei ainda como pesquisadora pelo CRAP – Centro de Referência das Artes Plásticas de Minas Gerais e como assistente de pesquisa na exposição Declaração de Bens, de Márcio Sampaio, na Grande Galeria do Palácio das Artes, em 2005. Esses trabalhos consolidaram minha vocação para o cuidado da memória, da arte e das histórias que estruturam nossa identidade cultural.
Em todo esse percurso, a presença amiga de Sebastião Andrade foi fundamental — no acolhimento no Rio de Janeiro e nas trocas constantes em torno da Amorita, em Itabira. Ele sempre me dizia, com a serenidade de quem entende o tempo: “Um dia, vamos rir de tudo isso.” Essa frase ficou como lembrança e como horizonte.